O conto Disque F para Frankenstein: Arthur C. Clarke ativa a Skynet

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
24/05/2019

Publicado originalmente em 1965, o conto Disque F para Frankenstein, do mestre Arthur C. Clarke, é uma instigante – e assustadora –  história sobre um tema muito caro aos amantes de sci-fi: o surgimento de uma inteligência artificial capaz de desenvolver consciência genuína e se rebelar contra a humanidade.

Essa questão é praticamente tão antiga quanto a própria literatura. Já na mitologia judaica encontramos a figura do Golem, um monstro de barro ativado pela inscrição de uma palavra (“EMET”) em sua testa, e que, em algumas narrativas, desenvolve um comportamento violento.

O próprio termo “robô”, cunhado em 1920 a partir da peça de teatro “R.U.R.”, do tcheco Karel Capek, já nasce com o estigma da rebelião. Na obra, os seres artificiais fabricados para realizarem trabalho escravo se revoltam e atacam  a humanidade.

No cinema, o mais célebre plot de revolta de uma inteligência artificial está na franquia O Exterminador do Futuro (Terminator), lançada em 1984 por James Cameron. Na saga, o grande vilão é o cérebro eletrônico Skynet, que iniciou uma guerra contra a humanidade após se tornar autoconsciente.

Aliás, no terceiro filme da série, lançado em 2003, aparece uma manifestação da Skynet que se parece muito com a apresentada por Arthur C. Clarke no conto Disque F para Frankenstein: a de que o cérebro eletrônico funciona não como um supercomputador isolado, mas como uma rede global e descentralizada, inspirada na internet.

O conto de Clarke apresenta, já nos primeiros parágrafos, a data, horário e histórico do parto do super cérebro: “À 1h50, hora do meridiano de Greenwich, no dia 1º de dezembro de 1975, todos os telefones do mundo começaram a tocar.” Pela narrativa posterior, ficamos sabendo que, menos de duas horas antes desse evento, havia sido realizada a interconexão de todas as redes telefônicas do mundo por um sistema via-satélite.

A forma escolhida pelo autor para contar a história é um bate-papo de técnicos do “Posto de Averiguações dos Correios” (presumivelmente, na região de Londres) durante um almoço. As personagens discutem as anomalias nas comunicações e outros transtornos verificados após a madrugada, e uma delas apresenta uma assombrosa (e paulatinamente mais crível, à medida que os acontecimentos avançam) hipótese: a recém feita interconexão de todas as redes telefônicas do mundo poderia ter transformado a nova super rede global em um gigantesco cérebro, sendo cada terminal telefônico um neurônio.

Quais seriam os poderes de uma tal inteligência, com tanta energia e tantas sinapses artificiais à disposição da sua recém-nascida consciência? Quais os limites da sua atuação no mundo físico, em um contexto em que tantos serviços e atividades humanas são automatizados e passíveis de controle pelo cérebro artificial?

E, sobretudo: essa nova forma de inteligência nos veria como aliados ou como ameaça? Qual seria o destino da humanidade, após o surgimento de um outro ser consciente tão poderoso?

Publicado recentemente no Volume 3 da coletânea Histórias de Robôs, da editora L&PM, o conto Disque F para Frankenstein é um belo e interessante desenvolvimento desse plot.

Leitura recomendadíssima.