O 42 de Douglas Adams: uma teoria interessante sobre o sentido do número

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
24/03/2017

A principal contribuição de Douglas Adams para a cultura nerd (e para a humanidade) foi fornecer a resposta para a pergunta mais importante de todas: aquela sobre o sentido da vida, do universo e de tudo mais.

Como essa resposta é referência para incontáveis memes, listas, montagens e citações que pululam na internet e fora dela, nem é preciso ter lido a série literária de ficção científica O Guia do Mochileiro das Galáxias para saber que se trata dele mesmo: o número 42.

A enigmática resposta foi calculada, durante milênios, por um supercomputador chamado Pensador Profundo. É isso aí. Se você é uma pessoa dada a indagações metafísicas, o mestre Adams poupou seu tempo: a resposta que você procura é 42.

A solução encontrada pelo Pensador Profundo, um grande anticlímax, é explicada com genialidade nas linhas seguintes do livro: a resposta não está errada, é esta mesmo; o problema é que não se sabe QUAL É A PERGUNTA. Projeta-se, então, um novo supercomputador para descobrir como deve ser formulada a pergunta definitiva (não falarei mais sobre este novo computador porque ainda me restou uma nesga de consideração para com leitores que eventualmente não tenham lido a obra e se incomodem com spoilers).

O 42 de Adams já motivou todo tipo de especulação e teoria maluca de leitores. O próprio autor, depois de tanto ser indagado, deu a seguinte resposta:

“Simples: foi uma piada. Tinha que ser um número comum, curto, e escolhi este. Representações binárias, base 13, monges tibetanos não fazem sentido. Eu sentei em minha escrivaninha, olhei para o jardim, pensei ‘42 vai funcionar’ e escrevi. Fim da história.”

A LINGUAGEM DE PROGRAMAÇÃO FORNECE UMA TEORIA INTERESSANTE

Dia desses, numa daquelas pescarias despreocupadas no rio de informação do newsfeed do Facebook, meu anzol fisgou um post do amigo Marcio Telles, originalmente publicado por uma página sobre Doctor Who , com uma hipótese deveras instigante para explicar a resposta computada pelo Pensador Profundo.

O texto dizia que Adams era um nerdão com conhecimentos avançados de informática e, por isso, utilizou linguagem de programação para esconder no 42 uma resposta que faz todo sentido do mundo para quem manja da coisa.

De acordo com a postagem, 42 é o código ASCII para o asterisco (*), e o asterisco, na programação, significa “qualquer coisa”. Assim, segundo essa teoria, 42 seria mais que um número aleatório, e sim o código para algo como “A resposta para o sentido de tudo é: qualquer coisa que você quiser”.

Analfabeto em programação que sou, precisei ver para crer. Uma googlada rápida comprovou que, realmente, 42 é o código ASCII para asterisco. A função do asterisco na linguagem de programação já exige um nível mais hard de compreensão (até porque aqui é preciso perguntar QUAL linguagem), então fui pedir ajuda a quem entende da área.

O programador e nerd de carteirinha Claudio Matsuoka, de Curitiba, formado pelo ex-CEFET-PR e que mexe com códigos de diversas linguagens desde a adolescência, dá a seguinte explicação:

O asterisco (ao qual eu coloquialmente me refiro como “estrela”) é utilizado de diferentes maneiras em programação, a depender da linguagem e do contexto. Os usos mais comuns vão do simples operador de multiplicação utilizado em praticamente qualquer linguagem (2 * 3 = 6, 6 * 7 = 42) até algo chamado “derreferência de ponteiros”, um conceito que certamente traz boas lembranças a qualquer um que tenha passado por um curso introdutório de C.

O caso de interesse, contudo, é o emprego do asterisco no casamento de padrões por um processo conhecido por “glob” (*), que faz parte do dia a dia da operação de um computador utilizando uma interface de linha de comando e não é necessariamente ligado a programação: utilitários, arquivos de configuração ou consultas a bancos de dados frequentemente utilizam-se do asterisco com o sentido de “tudo” ou “qualquer coisa”.

Exemplos? No prompt de comando do Windows, “dir *.exe” lista qualquer arquivo terminado por “.exe”. Numa consulta a um banco de dados, “SELECT * from Livros WHERE Autor = ‘Isaac Asimov’ retornaria toda e qualquer informação cadastrada dos livros cujo autor seja o Asimov. No agendador de tarefas do Linux, especificar o dia como “*” significa que qualquer dia é válido, e a tarefa será executada todos os dias.

Um último exemplo que pode ser verificado de qualquer lugar, até do conforto da sua poltrona favorita, desde que você tenha acesso à internet:

https://www.google.com.br/search?q=%22the+*+for+life,+the+universe+and+everything%22

Entre as respostas encontradas na busca, temos: “The ultimate question for life, the universe and everything”, “The answer to life the universe and everything”, “The update for life, the universe, and everything”. O asterisco foi, efetivamente, substituído por qualquer coisa.

(*) Não é uma referência a Grob Gob Glob Grod, a divindade marciana de quatro faces. Glob é um antigo método de casamento de padrões em UNIX que utiliza os símbolos *, ? e [] para tornar pesquisas e comparações menos trabalhosas: “?” significa qualquer caracter, “*” significa qualquer sequência de caracteres e “[…]” significa qualquer dos caracteres listados entre colchetes. Assim, uma pesquisa por “?[ie]ck*” retornaria tanto Rick como Deckard.

Claudio, que leu O Guia do Mochileiro das Galáxias na adolescência, mais ou menos na mesma época em que começou a mexer com programação, diz que nunca tinha se dado conta da relação sugerida naquela postagem da página sobre Doctor Who, e acrescenta que a saga é uma referência poderosa no seu meio:

Vou comentar uma curiosidade envolvendo o número 42, que ilustra a influência do livro sobre os programadores: existe uma construção em linguagem C onde a repetição infinita é implementada como:

while (42) {

  …

}

Qualquer valor diferente de zero já tornaria o laço infinito, mas alguns programadores utilizam “42” pela referência cultural do Guia do Mochileiro.

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Se a teoria é verdadeira e Adams, mesmo negando, inseriu em sua obra magistral uma piada interna de programadores, não há como dizer com certeza.

Mas que se trata de uma hipótese plausível que enriquece ainda mais o universo literário criado pelo autor, é inegável.