Messias de Duna: Frank Herbert e o desafio de escrever a sequência de um livro perfeito

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
31/07/2019

Criar uma obra magistral tem (pelo menos) um lado bom e (pelo menos) um lado ruim. 

O lado bom, para mim, parece óbvio: você criou uma obra magistral e será lembrado e festejado como um dos grandes artistas do seu tempo e, quiçá, de todos os tempos, será citado como referência, inspirará filmes, jovens criativos criarão fanfics sobre suas personagens, dezenas de perfis do Pinterest e do DeviantArt terão artes baseadas no seu universo etc etc etc. 

O lado ruim é que, bem, como você acabou de criar uma obra magistral, a régua que avalia o seu trabalho sobe e a expectativa da crítica e do público aumenta, e, doravante, ninguém esperará de você nada que não seja, no mínimo, magistral. 

O escritor Frank Herbert, autor do livro seminal de ficção científica/space opera Duna, criou para si próprio esse tipo de problema, que, convenhamos, é um bom problema, não é mesmo? 

O romance Duna, publicado originalmente em 1965, é, como já disse este blogueiro (para ler nossa resenha, clique aqui), um mui feliz casamento entre forma e conteúdo. Herbert teceu, numa prosa elegante e em tom de cumplicidade com o leitor, uma trama complexa e cheia de elementos icônicos, misturando ficção científica, fantasia, romances de capa e espada, misticismo, filosofia, teologia e ecologia na jornada do jovem Paul da Casa Atreides para conquistar o trono do Império Galáctico. E eu mencionei que há gigantescos vermes de areia?

Pois bem, em 1969 foi lançado o livro Messias de Duna (atualmente editado no Brasil pela Aleph), a sequência dos eventos de Duna. Como bem sabe quem leu o primeiro livro (ou como está prestes a ficar sabendo quem ainda não leu e não teme spoilers), este termina com a ascensão ao trono galáctico de Paul Muad’Dib Atreides, o profeta-general adolescente que se valeu dos guerreiros Fremen para derrotar as forças do Imperium e controlar o planeta Arrakis, único nascedouro do mélange, a valorizada especiaria que suscita poderes de clarividência e é a chave para as viagens interestelares que tornam possível a própria existência do Império Galáctico.

Messias de Duna é a história do dia seguinte. 

Concluir a leitura de Duna, o livro original, nos deixa com várias perguntas em mente. Quais os limites e qual a aplicação prática dos extraordinários poderes de presciência adquiridos por Muad’Dib? Como o novo imperador da galáxia lidaria com as tensões entre as Casas Nobres, com os interesses da Guilda Espacial e com os obscuros desígnios da Irmandade Bene Gesserit? Qual seria o papel dos guerreiros Fremen e do Jihad de Muad’Dib no domínio dos povos governados a partir de Arrakis e separados por milhares e milhares de anos-luz? E qual seria a manifestação da estranha condição de pré-nascida de Alia, a pequena irmã de Paul que continha em si todas as memórias de todos os seus ancestrais?

Herbert, portanto, iniciou a escrita de Messias de Duna com muitas questões complexas a responder; e nós, leitores, sentimos já desde o início da leitura que a sequência consegue manter, na forma e no conteúdo, o mesmo nível do romance original. 

Messias de Duna é a bem contada história de um imperador relutante oprimido pelo peso do império que criou. Somos levados a um futuro situado alguns anos após a batalha em que Paul Muad’Dib e seus Fremen do deserto derrotaram o imperador Shaddam IV. O planeta Arrakis, que já tinha antes vital importância econômica e estratégica nos rumos do Imperium, tornou-se a capital de fato, o epicentro de uma teocracia belicosa para o qual acorrem torrentes de peregrinos ansiosos por comungar com a fonte da santidade: a Sagrada Família que tem em Muad’Dib e em “Santa Alia da Faca” os sacerdotes supremos. 

Esta teocracia, como tantas outras do mundo real, acaba se tornando uma pesada burocracia carcomida pela hipocrisia e pela corrupção, um castelo de cartas que é vítima do próprio peso e, assim, o colapso parece ser questão de tempo. 

Além do fardo do próprio mito que criou, Paul Muad’Dib precisa lidar com uma conspiração para derrubá-lo, uma empreitada de que participam diversas entidades que passamos a conhecer melhor: as pouco exploradas Guilda Espacial e Ordem Bene Gesserit se dão a conhecer melhor no segundo romance, com mais descrições do dia a dia dos seus membros, e somos apresentados a uma outra força antes ignorada: a ordem dos Tleixaxu, artífices de milagres tecnológicos obscuros, como a capacidade de reviver mortos e transformá-los em autômatos orgânicos, os gholas. 

Levando ao limite a própria presciência, o imperador Paul Muad’Dib coloca à prova sua confiança nos apoiadores, seu amor por Chani, sua capacidade de manter a sanidade e de governar com sabedoria. Como derrotar uma conspiração que envolve forças tão poderosas? Qual caminho trilhar para manter próspera e vicejante a humanidade cósmica?

Messias de Duna, concluo após uma leitura embevecida, é uma segunda obra magistral de Frank Herbert, que assim consegue a façanha de manter o altíssimo nível atingido pelo primeiro livro da saga e eleva ainda mais a expectativa do leitor para as obras seguintes, que serão resenhadas nesta Taberna no momento oportuno.