[Limites da Fundação] O computador de Trevize

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
04/08/2015

limites-da-fundacao-asimovComputadores são parte fundamental da ficção científica recente, e, se prever os rumos da informática com acurácia já é difícil para engenheiros da indústria numa projeção de poucos anos, imagine para escritores e roteiristas que imaginam um futuro de médio ou longo prazo.

Algumas “previsões” acabam dando muito errad0. Alien e Blade Runner, por exemplo, são clássicos imortais do cinema e permanecem instigantes depois de décadas, mas os seus computadores parecem ridiculamente datados. A nave Nostromo de Alien, capaz de atravessar distâncias estelares, tem terminais grotescos que se assemelham a máquinas de escrever, e os carros voadores de Blade Runner possuem monitores que estão para os atuais como os gráficos de jogos de Atari estão para os de Playstation.

Mas algumas “previsões” do cinema ou da literatura são fascinantes.

Em Limites da Fundação, a primeira das continuações da clássica trilogia de Isaac Asimov surge uma das mais incríveis descrições de funcionamento de um computador que já li em obras de sci-fi: um aparelho que parece entrar em simbiose com a mente humana, fazendo conexão tátil e amplificando os sentidos e a consciência do usuário.

Veja também:

> Fundação, a obra magna de Isaac Asimov

Leia e maravilhe-se:

“Trevize sentou-se diante da escrivaninha. Palavras não eram necessárias – era bastante claro o que ele deveria fazer. 

Pousou suas mãos nos contornos da escrivaninha, posicionados para que ele precisasse fazer apenas o mínimo esforço. Quando o tocou, o tampo pareceu suave, quase aveludado – e suas mãos afundaram. 

Ele encarou suas mãos, atônito, pois elas não tinham, na realidade, afundado em nada. Estavam na superfície, diziam seus olhos. Ainda assim, para seu tato, era como se a escrivaninha tivesse cedido e se algo segurasse suas mãos com suavidade e gentileza. 

Era isso?

E agora?

Olhou à volta e fechou os olhos, reagindo a uma sugestão. 

Não tinha ouvido nada. Não tinha ouvido nada! Mas, em seu cérebro, como um pensamento errante dele mesmo, havia uma frase: ‘Por favor, feche os olhos. Relaxe. Faremos conexão.’

Pelas mãos?

Por alguma razão, Trevize presumiu a vida toda que, se alguém fosse se comunicar através do pensamento com um computador, seria por meio de um capacete com eletrodos nos olhos e no crânio. 

As mãos?

Por que não as mãos? Trevize viu-se flutuando para longe, quase sonolento, mas sem perder a capacidade mental. Por que não as mãos? 

Os olhos não eram nada além de órgãos dos sentidos. O cérebro não era nada além de um painel de comando central, envolvido por ossos e separado da superfície de ação do corpo. Eram as mãos as ferramentas de ação, as mãos que sentiam e manipulavam o Universo. 

Seres humanos pensavam com as mãos. Suas mãos eram a resposta para a curiosidade: sentiam, beliscavam, manipulavam, erguiam e sentiam o peso. Havia animais com cérebros de tamanhos respeitáveis, mas não tinham mãos, e isso fazia toda a diferença. 

E, conforme ele e o computador deram as mãos, seus pensamentos se fundiram e não importava se seus olhos estavam abertos ou fechados. Abri-los não melhorava sua visão; fechá-los não a fazia mais obscura. 

De todo jeito, ele via a sala com perfeita clareza – não apenas na direção em que estava olhando, mas a toda a volta, e acima e abaixo. 

Viu todos os aposentos da nave e o lado de fora também. O sol tinha nascido e seu brilho era suavizado pela camada de neblina matinal, mas ele poderia olhar diretamente para sua luz sem ficar ofuscado, pois o computador automaticamente filtrou os raios solares. 

Ele sentiu o vento suave e a temperatura, e os sons do mundo à sua volta. Detectou o campo magnético do planeta e as pequenas descargas elétricas na fuselagem da nave.

Ficou consciente dos controles da nave sem nem saber detalhadamente o que eram. Sabia apenas que, se quisesse decolar, ou girá-la, ou acelerá-la, ou usar qualquer uma de suas capacidades, o processo era o mesmo de todos os processos análogos de seu corpo. Bastava usar a sua vontade. 

Todavia, sua vontade não era absoluta. O computador poderia sobrescrevê-la. No momento, havia uma frase formada em sua cabeça, e ele sabia exatamente como e quando a nave decolaria. Não havia flexibilidade no que dizia respeito àquilo. Dali para frente, sabia com igual certeza, poderia decidir por conta própria.

Descobriu – conforme expandiu a rede de sua consciência amplificada pelo computador – que podia sentir as condições da atmosfera superior; que podia ver os padrões de clima; que podia detectar as outras naves que flutuavam acima, e as que prosseguiam para baixo. Todas essas informações precisavam ser computadas, e o sistema estava justamente levando-as  em consideração. Se o computador não estivesse fazendo isso, percebeu Trevize, bastava desejar que o fizesse – e seria feito.

Aqueles códigos-fonte quilométricos haviam sido superados; nenhum deles se fazia necessário. Trevize pensou no Sargento Técnico Krasnet e sorriu. Tinha lido com frequência sobre a imensa revolução que o uso das gravidades causaria no Universo, mas a fusão entre computador e mente ainda era segredo de Estado. Certamente iniciaria uma revolução ainda mais grandiosa. 

Tinha consciência da passagem do tempo. Sabia exatamente a hora, tanto no fuso horário de Terminus como no Padrão Galáctico. 

Como ele se desconectaria?

Assim que o pensamento entrou em sua mente, as mãos foram soltas e o tampo voltou à sua posição original – e Trevize foi deixado com seus próprios sentidos, inalterados.”