Limites da Fundação: Asimov rediscute sua obra-prima

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
28/03/2016

limites-da-fundacao-asimovSe você ainda não leu a trilogia Fundação, de Isaac Asimov, pare de ler este post agora mesmo, pois falaremos de uma sequência da obra (abrindo a porteira dos spoilers). Se, mesmo assim, deseja prosseguir só pra me provar que eu não mando em você, tudo bem. Fique à vontade, este site cultiva e defende a liberdade.

Resumo dos últimos capítulos: nos três livros de Fundação, série finalizada em 1953, Asimov nos conta como o matemático Hari Seldon, no contexto de uma Via Láctea que vivia os derradeiros estertores do Império Galáctico, usou a recém-criada ciência da psico-história para traçar um plano de reestruturação social e política da galáxia em mil anos.

A trilogia, aliás, não é sobre Seldon, mas sobre os seus discípulos. Como a psico-história permitia, a rigor, “prever” o futuro das sociedades com precisão matemática, Seldon anteviu o caos originado pela dissolução do Império e estabeleceu duas Fundações: uma destinada a desenvolver a tecnologia e a ciência natural, a outra ocupada da psico-história em si. Enquanto a Primeira Fundação exportava conhecimento tecnológico e se tornava um farol a iluminar a galáxia rumo à criação do Segundo Império, a Segunda Fundação atuava, secretamente, como guardiã do Plano.

Paradoxalmente, a história, que celebra a ciência e a tecnologia como fatores de prosperidade e desenvolvimento, deposita as esperanças nas (hoje) nada científicas capacidades psíquicas do ser humano: ao desenvolverem a psicologia e o estudo da mente, os membros da Segunda Fundação tornam-se telepatas capazes de definir os rumos de uma galáxia inteira com seus quase infinitos poderes “mentálicos”. Asimov aposta no desconhecido.

LIMITES DA FUNDAÇÃO: A FUNDAÇÃO REDISCUTIDA

E assim chegamos ao mote de Limites da Fundação (publicado no Brasil pela Editora Aleph). Escrito quase 30 anos depois da clássica trilogia, o livro se põe a discutir, em perspectiva, diversos elementos das obras originais.

Quase 500 anos após o estabelecimento das duas Fundações por Hari Seldon, o seu plano (o “Plano Seldon”) segue aparentemente sem percalços. A Primeira Fundação, com um poder político/econômico/cultural cada vez mais absoluto devido a sua tecnologia avançada, apenas desconfia da existência da Segunda Fundação, que continua sendo a verdadeira fonte de poder (psíquico) sobre os destinos da Via Láctea.

Porém, dois indivíduos (o Conselheiro Golan Trevize, na Primeira Fundação, e o Orador Stor Gendibal, na Segunda) têm a intuição de que há algo errado na solução proposta por Seldon. Trevize acredita que o Plano não funciona, enquanto Gendibal conclui que o Plano está é funcionando bem demais e que é precisamente esta a falha, e deduz que há uma terceira força atuando sobre os destinos da civilização galáctica.

Como já estabelecido na trilogia original, a resolução dos conflitos se dá pela tensão entre os indivíduos e as coletividades a que pertencem. Para provar seus pontos de vista e tentar resolver o mistério, tanto Trevize quanto Gendibal precisam enfrentar as instâncias de poder das duas Fundações e as suas jornadas se cruzam no meio da galáxia. Qual seria essa misteriosa terceira força interferindo no andamento da vida na galáxia e assegurando o funcionamento do Plano Seldon? E qual o papel de Trevize na definição dos rumos da galáxia? (responderemos essas questões mais adiante)

A cabeça de um escritor é, sobretudo, uma cabeça moldada pelo seu tempo e pela sua sociedade. As páginas da trilogia original da Fundação, portanto, estão impregnadas das ideias dominantes na época em que foi escrita. Ao dar sequência a essa saga mais de 20 anos depois, Asimov, além de adaptar a história para integrá-la a suas outras obras (todos os livros do escritor passam a se ambientar no mesmo universo), rediscute e ressignifica alguns elementos problemáticos:

O MACHISMO REVISTO

Para uma história ambientada em outros planetas, dezenas de milhares de anos no futuro, a trilogia original de Fundação se parece muito, do ponto de vista das questões de gênero, com a sociedade terráquea dos anos 1950. As mulheres aparecem, ao longo de praticamente toda a saga, como meros acessórios decorativos do poder (político e econômico) masculino. Enquanto os homens dão e executam ordens, as mulheres aparecem basicamente como esposas e concubinas. Até a famosa Bayta Darrell, responsável pela queda do Mulo (o mutante que se tornou a maior ameaça ao Plano Seldon), tem um papel bastante passivo: ela nada mais é que uma esposa de um membro da Fundação que desperta a afeição do antagonista. A primeira personagem feminina realmente forte aparece apenas no terceiro livro: a espevitada adolescente Arkady Darrell.

Já em Limites da Fundação, escrito décadas depois, a adequação de Asimov aos novos costumes da sociedade é demonstrada já no início, quando descobrimos que o planeta Terminus, sede da Fundação, é governado por uma mulher: a implacável prefeita Branno. Também a Segunda Fundação, ficamos sabendo em seguida, tem mulheres disputando, com força, o posto de Primeiro Orador. E há, em outros núcleos de poder, mulheres assumindo postos-chave.

QUESTÕES PRÁTICAS DA COLONIZAÇÃO DA GALÁXIA

Asimov teve o cuidado de explicar, neste novo livro, várias coisas que pareciam meio problemáticas em Fundação. Uma delas é a questão do idioma. Na trilogia original, qualquer personagem parece capaz de falar sem problemas com qualquer outra personagem de qualquer planeta. O domínio geral da língua oficial, o Padrão Galáctico, soa inverossímil demais numa comunidade de milhões de planetas habitados. Se, aqui na Terra, dezenas de maneiras diferentes de se falar um mesmo idioma surgem em regiões apartadas por poucas centenas de quilômetros, imagine mundos a milhões de anos-luz uns dos outros. O autor, em Limites da Fundação, problematiza essa questão mostrando diversos sotaques e citando a existência de dialetos locais que complicam a comunicação.

Um outro ponto que não é bem explicado na série original é a questão da habitabilidade e criação de ecossistemas adequados à presença humana nos planetas colonizados. Na sequência, Asimov discute o esforço de terraformação dos planetas e o fato de uma fauna e uma flora específicas acompanharem a humanidade em suas viagens pelo espaço.

O autor também explica melhor o funcionamento do voo hiperespacial e deixa de insistir na onipresença da energia nuclear, uma matriz datada, para sugerir tecnologias mais sutis e ainda fictícias, como a nave de motores gravitacionais.

Outra amostra de que Asimov fez upgrades nas descrições tecnológicas está na apresentação do computador de bordo utilizado por Trevize (clique no título abaixo para ler o texto):

> O computador de Trevize

Se, na trilogia clássica, a gente quase conseguia ver válvulas e transístores ao ler as descrições de Asimov, agora a tecnologia é mais clean, mais misteriosa, mais futurista.

A BUSCA PELA TERRA – E PELOS ROBÔS

Algo que me causou estranheza quando li a trilogia da Fundação foi a total ausência do planeta Terra no enredo e no imaginário das personagens – a ponto de parecer que nem se trata de uma história sobre descendentes de terráqueos.

Limites da Fundação, como dissemos, inicia a integração das obras de Asimov num mesmo universo – assim, as personagens de Fundação vivem na mesma linha do tempo das de Eu, Robô, O Homem Bicentenário, As Cavernas de Aço etc – e a Terra tem lugar no livro. Descobrimos que a humanidade galáctica “esqueceu” (ou foi forçada a esquecer) sua origem terrena e perdeu o interesse pelo tema.

A busca pelo planeta-mãe da humanidade, que aparece como plot secundário em Limites da Fundação, será o tema central de Fundação e Terra, o livro seguinte.

Outra ausência importante na trilogia da Fundação são os robôs. Quem lê Asimov sabe que boa parte da sua obra é dedicada a tratar da relação da humanidade com suas criaturas de inteligência artificial. Ao integrar sua grande trilogia à timeline dos seus outros livros, o autor precisa nos explicar onde diabos foram parar os robôs, que abundavam no início da colonização humana no espaço e desapareceram no Império Galáctico. O tema é introduzido em Limites da Fundação e será melhor abordado em Fundação e Terra.

POR DENTRO DA SEGUNDA FUNDAÇÃO – E ALÉM

A misteriosa Segunda Fundação, a pequena e poderosa sociedade secreta de telepatas, tem papel central no terceiro livro da trilogia original, mas pouco sabemos sobre ela até lermos Limites da Fundação.

O quarto livro da saga nos insere no dia a dia dessa estranha coletividade situada no planeta Trantor: acompanhamos o modo como seus psicólogos trabalham no Plano Seldon, aprendemos mais sobre seus assombrosos poderes mentais, testemunhamos as disputas abertas pelo poder na irmandade e descobrimos o objetivo desta Fundação é tornar-se, no futuro, a elite dominante do Segundo Império Galáctico.

Stor Gendibal, um brilhante e ambicioso membro do conselho de Oradores, intui que há algo interferindo no Plano Seldon – algo que ele acredita ser uma outra comunidade de telepatas com agenda própria. Sem saber que está sendo enredado por essa comunidade, ele mergulha no espaço em busca da resposta.

É aí que os poderes psíquicos desenvolvidos pela Segunda Fundação mostram toda a sua força – e toda a sua inverossimilhança. Além de serem capazes de ler mentes e influenciar comportamentos de pessoas próximas, os superpsicólogos podem usar a telepatia como canal de comunicação instantânea com qualquer outro telepata em qualquer ponto da galáxia. Isso soa MUITO incompreensível a uma mente acostumada com as leis conhecidas da Física – e Asimov não se arrisca a tentar explicar.

Como viajariam pelo espaço as mensagens emitidas pelas mentes dos psicólogos? Atingiriam as ondas cerebrais uma velocidade muitíssimo superior à da luz? Seriam capazes de tomar atalhos pelo espaço-tempo, no hiperespaço? Ou, então, uma outra possível explicação, é que as ondas cerebrais não viajam em absoluto: o universo inteiro poderia ser um mar de consciência infinita, que transcende o espaço físico, e os diálogos entre pessoas situadas a milhões de anos-luz uma da outra seriam possíveis porque suas consciências estariam ligadas por uma ponte de consciência pura. Para citar uma metáfora usada por Arthur C. Clarke em O Fim da Infância, seria como se as pessoas (ou, pelo menos, suas mentes) fossem ilhas ligadas a outras ilhas e aos continentes pelo leito oceânico rochoso. Pode haver entre elas um oceano de espaço físico, mas suas mentes estão todas unidas na mesma sintonia, formando um só planeta (e universo) consciente. Mas vou parar por aqui, porque o efeito do cogumelo alucinógeno está passando.

Veja também:

> Fundação e Terra: Asimov integra toda sua obra

spoiler-alerta

GAIA: A TERCEIRA VIA

A busca de Gendibal pela suposta comunidade de telepatas e a busca de Trevize pela origem da Terra culminam, ambas, em Gaia, um obscuro planeta que, descobrimos, é um superorganismo com poderes mentálicos muito maiores que os da Segunda Fundação, e um lugar onde cada ser vivo – e mesmo os elementos inanimados da paisagem – são parte de uma única consciência. Essa comunidade holística tem agentes interferindo tanto na Primeira quanto na Segunda Fundação, bem como o seu próprio projeto de engenharia social para a galáxia.

As Fundações, por seguirem o Plano Seldon, visam à instauração do Segundo Império Galáctico, mas cada uma delas concebe sua própria versão do Império, de acordo com o seu paradigma e visão de mundo. Asimov traça, aqui, um paralelo com a geopolítica global do seu tempo, marcado pelo duelo político/econômico/ideológico entre Estados Unidos e União Soviética.

A Primeira Fundação, belicosa, industriosa, caótica e empreendedora, pode representar o modelo capitalista americano. A Segunda Fundação, baseada em planos de ação rigidamente calculados, faz as vezes do modelo socialista de economia planificada.

Correndo por fora, surge um novo competidor: o modelo holístico e integrador de Gaia. A intenção dos gaianos é aplicar em nível galáctico o seu próprio paradigma, ou seja, transformar a galáxia inteira em um colossal organismo vivo, uma única consciência – o que representaria, na nossa realidade, uma visão de mundo baseada no pacifismo, na ecologia e na sustentabilidade.

Decidir qual dos três modelos triunfará é uma tarefa entregue a Golan Trevize, escolhido pelos gaianos devido a sua racionalidade intuitiva. Sobre os ombros de um único homem repousa o destino da galáxia, e sua escolha marca não apenas o futuro da humanidade da ficção, mas um passo adiante do próprio Asimov na consolidação do seu universo literário.