Lembramos para você a preço de atacado: o conto

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
01/06/2015

O conto Lembramos para você a preço de atacado, publicado por Philip K. Dick em 1966, é sem dúvida menos famoso que os filmes nele inspirados: as duas versões de O Vingador do Futuro (Total Recall), uma de 1990, dirigida por Paul Verhoeven e estrelada por Arnold Schwarzenegger, e a última de 2012, com direção de Len Wiseman e Colin Farrell no papel principal. No Brasil, a história faz parte da coletânea de contos Realidades Adaptadas, publicada pela Editora Aleph.

A trama de Dick segue basicamente a mesma premissa das adaptações cinematográficas: num futuro não muito distante, o funcionário público Douglas Quail (nos filmes, o sobrenome foi adaptado para Quaid e ele virou operário), que leva uma vida tediosa na Terra e tem um fascínio por Marte, procura uma agência de implantes de memórias para comprar as lembranças de uma viagem ao Planeta Vermelho.

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E, na fantasia do personagem, não se trata de uma viagem comum, mas de uma missão secreta da Interplan, em que Quail tem a oportunidade de assumir uma personalidade bem diferente da sua: a de um espião interplanetário a serviço do governo. Os implantes resultariam em memórias tão genuínas quanto as de férias presenciais, ou até mais vívidas, segundo os anúncios – e, além das lembranças, o paciente receberia também alguns souvenires para aumentar a “veracidade” da viagem.

Mas algo dá errado: ao iniciar o procedimento, os técnicos percebem que Marte já está nos bancos de memória de Quail; ele já esteve no planeta vizinho, mas a viagem foi apagada das suas recordações. A descoberta solapa todas as certezas do protagonista e ele passa a questionar sua identidade, seu casamento, sua história, ao mesmo tempo em que precisa lutar para salvar a própria vida.

O conto discute um tema recorrente na obra de Dick: a natureza da realidade. A partir do drama de Quail, o leitor pode se fazer diversos questionamentos. Se um dia conseguirmos criar memórias artificiais tão vívidas quanto as reais (e se conseguirmos também apagar recordações), como teremos certeza de que o nosso passado é real? Ou como diferenciar o passado real do passado implantado? No caso da descoberta das memórias “reais” da viagem de Quail a Marte, a própria lógica da história impossibilitaria que os técnicos soubessem se aquilo realmente aconteceu. E se fossem outros implantes?

Outra indagação possível a partir da premissa do conto é: se os acontecimentos passados, depois de transcorridos, só existem na nossa memória ou em objetos manipuláveis (os souvenires marcianos que Quail tinha e que nós também trazemos das viagens, ou então vídeos, fotos e textos alteráveis), que diferença faz se algo aconteceu ou não? Num futuro em que seja possível implantar no cérebro lindas memórias de uma viagem perfeita ao Taiti, quantos preferirão ir realmente ao Taiti?

Aqui, claro, especulamos no terreno do prosaico e da vida privada. Se pensarmos nas implicações sociais, econômicas, jurídicas e políticas de uma tecnologia como a descrita no conto, a coisa fica realmente feia. Imagine a possibilidade de se manipular as memórias de testemunhas de um crime. Ou das pessoas que amamos. Ou de ocupantes de cargos importantes. Ou de um mercado consumidor/eleitoral inteiro.

E uma última indagação zombeteira: e se tal tecnologia já existir? Como você tem certeza de ter realmente vivido as lembranças que estão guardadas no seu baú de memórias?