História da Sua Vida e Outros Contos: sci-fi com pós-graduação

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
28/03/2017

[TEXTO LIVRE DE SPOILERS]

Em sua página no Facebook, o site Cracked descreve-se como um projeto de “humor com curso superior”. Quando li o livro História da Sua Vida e Outros Contos, de Ted Chiang, foi mais ou menos essa a definição que me veio à mente: trata-se de ficção científica e fantasia com pós-graduação.

Ouvi falar da coletânea graças ao lançamento do filme A Chegada, inspirado no conto de Chiang História da Sua Vida. O livro, lançado no Brasil pela editora Intrínseca,  reúne oito histórias, publicadas entre 1990 e 2002, que têm, apesar da multiplicidade de temáticas, um ponto comum: a profundidade e o embasamento em conceitos técnicos e científicos – sejam estes verdadeiros ou não; mesmo quando explora uma cosmologia obsoleta ou um universo em que histórias de aparições de anjos são reais, o autor, que tem formação e experiência no campo da informática, desenvolve teorias complexas de forma metódica e clara.

Em seus contos, Chiang percorre um longo intervalo temporal, da Babilônia de tempos bíblicos até um futuro marcado pela pós-humanidade. Seja adaptando mitos e visões de mundo primitivas, relacionando fundamentos da matemática à vida quotidiana, investigando os pormenores do funcionamento do cérebro ou as bases da linguagem, o autor mantém o nível elevado de excelência em todas as histórias.

Compõem a antologia, pela ordem, os seguintes contos:

capa_historia-da-sua-vida_A TORRE DA BABILÔNIA

A história da Torre de Babel é um dos mitos mais antigos e conhecidos sobre o desafio da humanidade ao Criador. Diz a lenda (ou a História, se você acredita textualmente na Bíblia) que, certa feita, um povo da Mesopotâmia, orgulhoso de sua própria técnica, lançou-se na empreitada de erguer uma torre que chegasse até o Céu, a morada de Deus. Irritado com a soberba das suas criaturas, o Criador confundiu-lhes as mentes e cada qual passou a falar uma língua diferente, o que inviabilizou o projeto da torre e ao mesmo tempo originou os diferentes idiomas existentes.

Há, nas mitologias da região, elementos mais interessantes que os da narrativa bíblica, explica Ted Chiang no apêndice do livro, e foram estes elementos que ele desenvolveu na sua narrativa. Acompanhando a escalada pela torre de mineiros contratados para abrir um buraco na abóbada celeste, o leitor é inserido na vida própria de uma estrutura que se converte numa cidade vertical que existe apenas para retroalimentar sua própria existência, um desafio ao Criador e à cosmologia que canaliza para o alto, por séculos, os esforços e a industriosidade de um povo altivo e obstinado.

O que encontrarão lá em cima, se um dia a empreitada lograr êxito? Chiang consegue produzir uma bela obra de ficção científica ambientada em tempos bíblicos, com muita riqueza de elementos e reconstruindo uma visão de mundo ancestral com verossimilhança e coesão.

ENTENDA

A história de uma vítima de acidente que sofreu danos cerebrais e, tratada com o “hormônio K”, desenvolve superinteligência.

Qual seria o efeito, sobre a consciência e o ego de uma pessoa, de um incremento exponencial na capacidade cognitiva? Como seria o processo de autoconhecimento e percepção da realidade de uma inteligência que se torna virtualmente ilimitada?

Narrado em primeira pessoa, o conto apresenta uma intrigante e envolvente trama, num ritmo frenético que acompanha o crescimento das capacidades do narrador.

DIVISÃO POR ZERO

Devo admitir que este foi o conto que menos me empolgou. Chiang intercala a descrição de aspectos intrigantes da matemática com a ruína da psique de uma pesquisadora que depara com descobertas teóricas que colocam em xeque não só o seu sistema de crenças, mas toda a ciência.

HISTÓRIA DA SUA VIDA

Tratei deste conto, por tabela, na resenha do filme A Chegada (para ler mais sobre a relação entre as obras, clique aqui). Uma das melhores histórias de sci-fi que já li, História da Sua Vida é, na minha opinião, muito melhor que a adaptação cinematográfica.

A tal “chegada” de que trata o título do filme é a visita de naves alienígenas que se espalham por diversas regiões do globo, levando o governo americano a recrutar a linguista Louise Banks para integrar uma das equipes encarregadas de estabelecer pontes para o diálogo com os ETs mundo afora.

Ao descrever o trabalho de Louise e, em menor escala, de cientistas de outras especialidades, Chiang reflete sobre a natureza da linguagem e da compreensão do outro, bem como explica o papel da linguagem no desenvolvimento e evolução de uma determinada mente em uma ou outra direção.

A narração das etapas da conversação de Louise com os heptápodes (nome dado pelos terráqueos aos visitantes) é intercalada com flashes da sua vida futura e da sua relação com a filha ainda não nascida. Aos poucos, vamos compreendendo o que está acontecendo: ao ter contato com a língua escrita dos aliens, que não é sequencial como a nossa, mas pressupõe uma noção de simultaneidade dos acontecimentos, a mente da linguista terráquea vai sendo moldada pela percepção de tempo dos heptápodes, em que não há antes nem depois, nem causa nem efeito, mas uma miríade de momentos interligados. Assim, passado, presente e futuro são três lados da mesma moeda (note que estou usando uma moeda de três lados para explicar a coisa, o que acho até que combina com a dimensão contraintuitiva do plot do conto).

Enfim, é uma história belíssima, tão profunda e complexa quanto bem escrita e tocante. Vale muitíssimo a leitura.

SETENTA E DUAS LETRAS

Outra interessante história de ficção científica ambientada no passado, desta vez na Inglaterra vitoriana, este conto desenvolve e interrelaciona dois plots distintos: o mito judaico do Golem, o boneco que ganha vida por meio de um nome, e a teoria da pré-formação, que diz que todas as características de um organismo já existem nas células reprodutivas de seus pais.

Num universo em que o poder criador da linguagem (o nome que dá vida a autômatos) é usado em escala industrial, como base de uma economia calcada em robôs, acompanhamos a jornada de Stratton, um sagaz ‘nomenclador’ que se envolve em uma conspiração secreta envolvendo nada menos que a sobrevivência da humanidade.

A EVOLUÇÃO DA CIÊNCIA HUMANA

A mais curta das histórias do livro, escrita em forma de artigo de revista científica, é um meta-artigo que aborda a própria possibilidade de existência da atividade de divulgação da ciência num futuro em que a humanidade está dividida em duas castas: a dos seres que tiveram o cérebro adaptado para se amalgamar com computadores e a dos que não tiveram. Será possível a coexistência e a troca de vivências entre esses dois grupos distintos?

O INFERNO É A AUSÊNCIA DE DEUS

Baseando-se na história bíblica de Jó, Chiang imagina um universo em que aparições de anjos, mensagens de Deus, milagres e epifanias são fenômenos do mundo real. Como seria o imaginário coletivo numa realidade dessas? Como se daria a relação das pessoas com o Criador e a manutenção ou perda da fé?

GOSTANDO DO QUE VÊ: UM DOCUMENTÁRIO

Utilizando, como o título evidencia, o formato de documentário, em que diversas personagens aparecem dando entrevista, o autor acompanha o antes e o depois de um “plebiscito” em uma universidade americana,  em que os alunos são consultados sobre a adoção da caliagnosia pela instituição.

A caliagnosia, no contexto do conto, é uma intervenção no cérebro para impedir que uma pessoa consiga perceber a beleza de um rosto. Este plot é mote para que Chiang discuta a questão da valorização da beleza física x a valorização de outros atributos.

A multiplicidade de opiniões quanto à adoção da caliagnosia permite uma análise abrangente e não maniqueísta da questão, e eu, ao ler, fiquei com a impressão de que o próprio Chiang, se participasse da votação, diria não ao procedimento, mas depois, no apêndice, ele diz ser a favor. Que coisa.

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BONUS TRACK

Como já mencionei de passagem ali em cima, o livro vem com um apêndice em que o autor explica como teve a ideia para cada história e que conceitos quis abordar em cada uma delas. Interessante para conhecer o processo de criação e desenvolvimento de personagens e situações.