Harry Potter e a Criança Amaldiçoada: a história

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
06/12/2016

[TEXTO LIVRE DE SPOILERS]

Li, num site de humor, que o título honesto do filme Animais Fantásticos e Onde Habitam deveria ser “J.K. Rowling e Como Faturar Outro Bilhão”. Venenos à parte, a piada faz sentido: Harry Potter e seu universo mágico voltaram com tudo ao mercado de bens culturais, com relançamento de títulos e produtos especiais – e, principalmente, com o lançamento do filme já citado e da peça de teatro Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, de que trata este post.

harry-potter-e-a-crianca-amaldicoada-capaA peça de Jack Thorne e John Tiffany, escrita a partir de uma história de JK Rowling, teve o roteiro completo publicado no Brasil pela Rocco. Analisaremos aqui a história, como obra literária, e não a questão cênica.

O formato de roteiro, com suas marcações cênicas e diálogos brutos, causa algum estranhamento no início, mas logo a gente se acostuma e até esquece que se trata de uma peça. Em pouco tempo, eu já estava acompanhando a história imaginando as personagens interagindo no mundo e não em um palco.

Os eventos de Harry Potter e a Criança Amaldiçoada começam no preciso momento em que se encerram o último romance e o último filme: o embarque de Alvo Severo Potter, filho de Harry e Gina, no Expresso Hogwarts, rumo ao seu primeiro ano na cultuada escola de magia, cerca de 20 anos após a batalha em que Lorde Voldemort foi derrotado.

FAN SERVICE

A peça, mais do que conquistar um novo público, busca satisfazer os fãs já cativos da saga do menino bruxo. Mesmo se passando tanto tempo depois e tendo como foco o filho de Harry, a história introduz pouquíssimas novas personagens. A rigor, apenas Alvo Potter e Scorpio Malfoy, o filho de Draco Malfoy, têm algum destaque – além de Delphi, que nos é apresentada como prima de Cedrico Diggory.

Rosa, filha de Hermione Granger e Rony Weasley e colega de turma de Alvo e Scorpio, mal aparece, assim como os outros filhos de Harry e Gina, Tiago e Lilian. Também há pouquíssimas menções a colegas de classe de Hogwarts.

Já as personagens queridas dos fãs aparecem em profusão, ainda que em sonhos e flashbacks: Dumbledore está lá, no seu quadro; Hermione é ministra da Magia; Harry comanda o Departamento de Execução das Leis da Magia; Gina é editora de Esportes do Profeta Diário; Rony administra a loja de Gemialidades Weasley; Draco, bem, Draco é um Malfoy: tem dinheiro e não se sabe o que faz da vida; a Professora Minerva McGonagall é diretora de Hogwarts. Outras personagens marcantes têm breves aparições (depois explicaremos): Snape, Hagrid, Cedrico, Ludo Bagman, Dolores Umbridge, os tios Valter e Petúnia e Lorde Voldemort.

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Senti falta de outras personagens queridas, como Neville (mesmo que ele seja citado como professor de Herbologia em Hogwarts, sua presença é nula), Luna e o resto da família Weasley (só Rony e Gina aparecem e, aliás, Rony foi completamente descaracterizado, figurando na peça apenas como contraponto cômico, o Tiozão do Pavê), além de duendes e elfos domésticos.

OK, entendo que, por ser uma peça teatral, não dá pra colocar 200 personagens em cena, mas mesmo assim algumas escolhas poderiam ser feitas. O fato de Minerva ser a diretora de Hogwarts é um exemplo da falta de renovação. A escola poderia ser comandada por outra pessoa, como, sei lá, Charlie Weasley, e McGonagall poderia continuar com suas aulas de Transfiguração ou como conselheira.

PASSADO, PRESENTE E FUTURO ENTRELAÇADOS

Os fios condutores da peça são a jornada de Alvo e Harry para se entenderem e amarem como pai e filho e as aventuras de Alvo e Scorpio com um vira-tempo, artefato mágico que lhes permite voltar ao passado e “aprontar as maiores confusões”.

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Se o objetivo de JK era celebrar a história de Harry Potter com os fãs, a escolha por esse plot é perfeita: ao irem e virem no tempo, as personagens revisitam cenas e lugares icônicos da saga, criam timelines alternativas que nos permitem, por exemplo, voltar a ver o querido professor Snape (e a não tão querida Umbridge) e integram o passado e o presente para que nossos heróis compreendam a vida à luz da sua própria história, o que sempre foi um tema central nos livros.

Um outro ponto fundamental em Harry Potter e a Criança Amaldiçoada é evidenciar as semelhanças entre pai e filho. Estão presentes, e muito, dois elementos centrais de toda a saga: adolescentes desobedecendo regras e agindo conforme lhes dá na telha (e quase destruindo o mundo por isso – mas salvando-o no fim das contas) e adolescentes sendo aborrescentes. Nesse sentido, Alvo não podia ser mais parecido com Harry.

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Enfim, Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, como história, é um belo acréscimo à saga do menino bruxo. O fio condutor com as idas e vindas no tempo dá dinamismo e deixa a narrativa interessantíssima, além de permitir que velhos e queridos bruxos voltem à vida.

E há, é claro, a celebração da amizade e do amor como as mais poderosas forças do mundo, capazes de fazer frente ao mal e derrotá-lo. E também aquela mensagem de que o bem e o mal podem coexistir dentro de todos nós e de que cabe a cada um decidir o que será: não existe maldição ou profecia capaz de tirar o nosso poder de escolher sermos o que quisermos e amarmos quem quisermos amar.

Obrigado, JK. Pode faturar outro bilhão à vontade, desde que continue nos presenteando com histórias como esta.