Hannah Arendt, stormtroopers e a banalidade do mal

Senhor D
Por Senhor D
22/01/2019

Santo Agostinho não acreditava na existência do mal. Faz sentido. Admitir que o mal exista deixaria o Bispo de Hipona comprometido com uma série de conclusões graves a respeito da natureza de Deus. Afinal, se tudo o que existe foi criado por Deus, o mal, caso exista, também seria de criação divina. E se tudo o que Deus faz é bom, admitir o mal seria um absurdo aos olhos da teologia cristã. O mal, portanto, diz Agostinho, não existe.

Mas será verdade que o mal não existe? Como explicar, então, as barbaridades testemunhadas neste mundo desde que o homem é homem? Agostinho encontrou uma saída arrojada para encarar o problema. O mal, diria o filósofo, é apenas a ausência do bem. Não há propriedade no mal além da propriedade de não ser. E como o não-ser não é, o mal também não é. Do nada, como diria Parmênides, nada pode ser dito.

A partir desse entendimento, o mal poderia ser classificado como sendo (ainda que não seja) algo do mesmo tipo que são (ainda que não sejam) a escuridão e o frio, sob uma ótica clássica da Física. A escuridão não existe: o que existe é a ausência de luz. O frio também não existe: o que existe é ausência de calor. O mal, por sua vez, não existe: o que existe é a ausência do bem. Boa jogada, essa do Agostinho.

Porém, embora desqualificado ontologicamente, parece correto afirmar que o mal (mesmo sem existir) sabe como causar um estrago de vez em quando. Seja nessa galáxia ou em outras muito distantes, o substrato gerado por aqueles que se “afastam do bem” é, no mínimo, inconveniente (quando não catastrófico). Além disso, o fato de o mal conseguir se proliferar — apesar da incrível desvantagem de sequer existir — é uma prova de como as criaturas pensantes são incompetentes, ignorantes ou simplesmente mal intencionadas (ou não-bem intencionadas). Mas por que isso assim?

Muitos filósofos se debruçaram sobre a questão do mal. Porém, há uma pensadora em particular que ficou conhecida principalmente por causa de seu embate teórico contra esse problema: o mal. O mal e toda banalidade (por ela constatada) que o permeia.

Mas antes de adentrarmos as ideias dessa filósofa, permitam-me algumas digressões para aclarear as questões. Por exemplo: pensemos em um stormtrooper — ou em vários: como são todos iguais, dá no mesmo – da série Star Wars clássica (dos episódios IV a VI). O que podemos dizer sobre eles, os stormtroopers? Bom, eles são soldados com pouca personalidade. Têm pouca consciência e capacidade crítica, mas obedecem vorazmente às leis do Estado. Existem apenas para cumprir ordens (e parecem gostar disso). Vivem e morrem pelo império.

O problema é que o Estado (ou o Império) que os stormtroopers defendem é representado por um tirano, um vilão inescrupuloso, estereotipado com sede de poder. Este cara:

É por obedecer às ordens desse cara que os stormtroopers fazem o que fazem. E o que eles fazem?

Invadem.
Ameaçam.
Perseguem.
Matam*.

(*Ou tentam matar, uma vez que são muito ruins de mira, de modo que raramente acertam alguém).

Já que, fundamentalmente , o que os stormtroopers fazem é cumprir ordens, podemos dizer que eles são maus (ou totalmente maus)?

Ou podemos dizer simplesmente que eles agem segundo o que acreditam ser o seu dever, cumprem ordens superiores e são movidos pelo desejo de ascender em sua carreira profissional, na mais perfeita lógica burocrática? Ou seja: que apenas cumprem ordens sem questioná-las, com o maior zelo e eficiência, sem refletir sobre o bem ou o mal que podem causar.

Se as missões delegadas aos stormtroopers não fossem provenientes de um vilão opressor caricato e, por consequência, não fossem missões de ódio e matança, não seriam os stormtroopers considerados apenas o que se convencionou chamar de “cidadãos de bem”?

Mas deixemos Star Wars de lado por um momento para nos atentar a um personagem histórico real. O cara da foto abaixo se chama Adolf Eichmann.

Eichmann foi um soldado Alemão. Assim como os clones de Guerra nas Estrelas, ele também cumpria ordens e parecia defender o Estado acima de tudo. Não era do feitio dele questionar as leis: obedecia a hierarquia e buscava fazer, da melhor forma possível, tudo que seus superiores esperavam que ele fizesse. Infelizmente, Eichmann também respondia a um governante tirano. E mais infelizmente ainda: o vilão a quem Eichmann servia entre 1933 e 1945 não era apenas um personagem fictício.

Apenas por seguir as ordens de seus superiores (ou agir conforme queriam que agisse), Adolf Eichmann participou diretamente do assassinato de milhares de pessoas (a maioria judias).

E já que, fundamentalmente, Eichmann estava cumprindo ordens (ou agindo segundo preceitos do Estado), podemos dizer que ele era mau (ou completamente mau)?

Ou podemos dizer simplesmente que ele agiu segundo o que acreditava ser o seu dever, cumprindo ordens superiores e movido pelo desejo de ascender em sua carreira profissional, na mais perfeita lógica burocrática? Ou seja: que apenas cumpriu ordens sem questioná-las, com o maior zelo e eficiência, sem refletir sobre o bem ou o mal que poderia causar.

Se o comportamento de Eichmann não fosse reflexo de um Estado opressor caricato e, por consequência, não fossem missões de ódio e matança, não seria ele considerado apenas o que se convencionou chamar de “cidadão de bem”?

Deixemos tais questões em stand by por um momento e voltemos à nossa filósofa — que ainda não foi apresentada. A moça aqui ao lado é Hannah Arendt (1906-1975). Arendt foi uma pensadora alemã de origem judaica. Recebeu de sua mãe uma educação liberal, com tendências sociais-democratas. Reza a lenda que, aos 14 anos, já havia concluído a leitura de Crítica da Razão Pura, de Kant.


Durante sua formação, Arendt estudou a fundo a teologia cristã, teve contato com a obra de Kierkegaard, além de ter tido aulas com Martin Heidegger, Edmund Husserl e Karl Jaspers. Porém, o filósofo favorito da garota era Santo Agostinho (vejam só), tanto que sua formação em filosofia foi concluída com a tese intitulada “O conceito de Amor em Santo Agostinho”, escrita por Arendt sob orientação do próprio Jaspers.


A obra de Agostinho tem forte e perceptível influência no pensamento de Arendt. Mas não foi a tese sobre o patrístico que a tornou famosa mundialmente como filósofa, e sim um livro que seria publicado anos mais tarde, na década de 1960 (muito tempo depois de sua fuga da guerra na Alemanha rumo aos Estados Unidos, país onde acabou residindo até o fim da vida). Esse livro não tratava sobre stormtroopers – até onde se sabe, ela não chegou a escrever sobre eles. O livro tratava, isso sim, de Adolf Eichmann.


“Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal” oferece um relato sobre as condições em que se deu a prisão e os julgamentos do tenente-coronel da SS (organização paramilitar ligada ao Partido Nazista), que foi responsável (entre outras atribuições) pela logística de transportes para a implementação da chamada “solução final”. A obra traz as percepções, análises, implicações, devaneios e conclusões da filósofa sobre o que se passava no processo em que Eichmann era réu – Arendt acompanhou de perto o desenrolar e o desfecho dessa história enquanto cobria o caso para a revista The New Yorker. Os cinco artigos assinados por ela para a revista se converteram, mais tarde, no famigerado livro.

À época em que era julgado, Eichmann era visto como um carrasco monstruoso, mais um nazista cruel e desalmado. Mas essa não foi a percepção de Arendt. Para ela, aquele homem não passava de um funcionário qualquer. Um operário pronto para receber e cumprir ordens. Não passava de um sujeito inclinado a obedecer a qualquer voz imperativa a ele dirigida: incapaz de refletir sobre seus atos ou de fugir dos clichês burocráticos da sua sociedade, cultura e ambiente. O mal que todos esperavam encontrar no acusado, aquele tipo de mal absoluto (que Agostinho negava existir), esse mal não foi encontrado por Arendt. Eichmann não era um facínora nazista. Era um burocrata por excelência, preso às suas demandas. Eis a banalidade do mal.

Seria então o mero acaso responsável por colocar Eichmann no lado mal da história? Parece que sim. E pior: se levarmos em consideração o seguinte diagnóstico de Arendt, constataremos que muitos “vilões” em potencial estão à solta – e bem próximos:

“Clichês, frases feitas, adesão a códigos de expressão e conduta convencionais e padronizados têm função socialmente reconhecida de nos proteger da realidade, ou seja, da exigência do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos em virtude de sua mera existência. Se respondêssemos todo tempo a esta exigência, logo estaríamos exaustos; Eichmann se distinguia do comum dos homens unicamente porque ele, como ficava evidente, nunca havia tomado conhecimento de tal exigência”.

Arendt, assim como Agostinho, não encontrou a essência do mal. O máximo que pôde testemunhar foi um fenômeno desencadeado por atos maus particulares (não o mal em si). Por banalidade do mal, ela não se refere a um teoria ou doutrina de qualquer espécie: não se trata de uma maldade em especial, e sim de um tipo de sujeira que se propaga em tipos como Eichmanns e stormtroopers.

Escreveu Arendt:

“É minha opinião que o mal nunca pode ser radical, mas somente extremo; e que não possui nem uma profundidade, nem uma dimensão demoníaca. Ele pode abranger o mundo inteiro e devastá-lo, precisamente porque se difunde como um fungo sobre a sua superfície. É um desafio ao pensamento, como eu escrevi, porque o pensamento quer ir até o fundo, tenta ir às raízes das coisas e, no momento em que se interessa pelo mal, se frustra, porque não há nada. Essa é a banalidade. Só o Bem tem profundidade e pode ser radical”.

O fato de ser banal (e mesmo o fato de sequer existir) faz do mal algo especialmente perigoso em nossa sociedade. Apesar disso, Arendt era otimista:

[…] “mesmo no tempo mais sombrio temos o direito de esperar alguma iluminação, e que tal iluminação pode bem provir, menos das teorias e conceitos, e mais da luz incerta, bruxuleante e frequentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi dado na terra”.