Guia do Mochileiro das Galáxias: a obra-prima de Douglas Adams

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
27/05/2015

Capa_Restaurante_13mmImagine-se em dúvida sobre que pousada reservar para suas próximas férias nas praias de Santragino V. Ou sobre como preparar em casa aquela refrescante Dinamite Pangaláctica para animar o jantar de sábado à noite. Ou sobre o que fazer quando descobrir que aquele safári em Traal, para o qual você comprou cupons de desconto de uma agência vogon, pode ser uma grande roubada.

A saída para estes e outros milhões de dilemas, bem como a chave para a compreensão de profundos mistérios, está ao alcance de um botão para os usuários do Guia do Mochileiro das Galáxias, o mais extraordinário dos livros publicados pelas grandes editoras de Ursa Menor – um livro tão incrível que traz, na capa, o reconfortante conselho “Não entre em pânico”.

O manual, concebido inicialmente para uma série de rádio lançada pela BBC em 1978, é um recurso metalinguístico para descrever o próprio livro de Douglas Adams, que também se propõe decifrar enigmas do universo e traduzir em palavras singelas diversos conceitos e problemas da nossa sociedade.

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Um dos problemas preferidos do autor é a burocracia. O Guia do Mochileiro das Galáxias, o primeiro livro da saga, começa justamente tratando deste tema. A incrível jornada tem início no dia em que um dos protagonistas, o inglês arquetípico Arthur Dent, tenta impedir a demolição da sua própria casa pelo poder público, uma ação que só é evitada porque algo ligeiramente atípico acontece: milhões de espaçonaves vogons (espécie alienígena que representa a corporificação da burocracia) surgem no céu e anunciam que a Terra inteira será demolida para a construção de uma via expressa hiperespacial.

Arthur só se livra do cataclisma porque o seu melhor amigo, o ator desempregado Ford Prefect, revela que é um alienígena disfarçado, um repórter de campo do Guia do Mochileiro das Galáxias incumbido de escrever o verbete sobre a Terra, e ambos escapam do planeta implodido de carona em um disco voador.

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Assim começa uma odisseia pela Galáxia, em que Adams se vale dos recursos do distanciamento e do estranhamento para discutir diversos elementos da nossa cultura e explicar com leveza complicados conceitos da física e da astronomia – com muita ironia e humor refinado.

O Guia do Mochileiro das Galáxias (atualmente, a obra é impressa no Brasil pela Editora Arqueiro) é o primeiro capítulo de uma saga que se apresenta como trilogia, mas uma trilogia muito peculiar, composta por cinco livros (os outros quatro ganharão seus próprios posts no momento oportuno). No primeiro livro, Arthur e Ford acabam a bordo da Coração de Ouro, a incrível nave movida por um motor de improbabilidade infinita, onde eles encontram os outros belos personagens principais:

Zaphod Beeblebrox: primo de Ford e presidente da Galáxia, este betelgeusiano egocêntrico de duas cabeças e três braços (mas um deles é artificial) roubou a nave para cumprir uma missão que ele não sabe direito qual é, e que foi oculta em seu cérebro por ele mesmo.

Tricia McMillan/Trillian: uma astrofísica terráquea que fugiu com Zaphod após conhecê-lo em uma festa, é um dos dois únicos sobreviventes da demolição da Terra e, apesar de ser mais ou menos a namorada do presidente da Galáxia, aparece como interesse romântico de Arthur.

Marvin: o robô depressivo que trabalha na nave. Frustrado por ter um cérebro artificial ultradesenvolvido e desempenhar apenas tarefas de menor complexidade, o androide é responsável por algumas das melhores tiradas da saga.

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À medida que avançam no cumprimento da misteriosa missão gravada nos neurônios de Zaphod, os protagonistas se embrenham em complicadas intrigas da política galáctica, que envolvem a verdade sobre a destruição da Terra e sobre a própria natureza do planeta, em meio à busca pela pergunta fundamental para compreender o sentido da vida, do universo e de tudo mais (no contexto da saga, a resposta a esse questionamento já é de conhecimento público: é 42 – o que falta é justamente descobrir qual é a pergunta).

O livro, que inicia uma das séries mais cultuadas e influentes da ficção científica e da cultura nerd, introduz magistralmente os conceitos que serão extrapolados e revisitados nos livros seguintes da ~pentalogia~. É literatura de altíssimo nível, engraçada e instigante, elucidativa e viciante. A obra máxima de um dos melhores escritores que já passaram por este planeta em vias de ser demolido.