Game Of Thrones | O papel das religiões nos livros de Martin

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
05/12/2017

N’As Crônicas de Gelo e Fogo, a saga literária de George R.R. Martin que inspirou a série Game Of Thrones, a religião tem papel fundamental. Como toda boa história de fantasia, a fronteira entre natural e sobrenatural é uma linha muito tênue e a crença em divindades é parte importante da caracterização das personagens e das situações.

Embora haja nos livros uma profusão de crenças e mitologias diferentes, quase tantas quanto os lugares criados por Martin (em especial no fragmentado e multicultural continente secundário de Essos), vamos nos concentrar, aqui, nos credos majoritários de Westeros, onde se passa a maior parte da história.

A FÉ DOS SETE

A religião oficial e institucional dos Sete Reinos é o Septo, a crença em sete divindades (ou, segundo algumas personagens, em sete dimensões de um mesmo Deus) que abrangem praticamente todas as dimensões da existência humana.

Os sete

Há o Pai, a Mãe, o Guerreiro, o Ferreiro, a Donzela, a Velha e o Estranho. Com esse interessante plantel, há ouvidos divinos disponíveis para escutar preces de toda sorte de gente de Westeros: do Pai se espera que julgue a conduta humana com justiça, nos braços da Mãe se busca proteção para os filhos, o Guerreiro dá força e coragem nas batalhas, a Velha ilumina com sua sabedoria, a Donzela personifica a pureza e a castidade, o Ferreiro representa a bênção da industriosidade e da técnica. E o desconhecido e o mistério estão representados na figura do Estranho, que também é o encarregado de conduzir os mortos até o além.

No contexto d’As Crônicas, esta crença, levada para Westeros quando os ândalos subjugaram os primeiros homens e seus deuses, cumpre o papel que o Cristianismo exerceu na Idade Média: o de ser a religião oficial do Estado: burocratizada, hierarquizada, com liturgia e ritos padronizados em todo o território.

Os templos são os septos, construções com sete paredes, cada uma dedicada a uma das personas divinas, que podem ser representadas em ricas estátuas, como nos grandes castelos, ou em humildes desenhos, como nas aldeias mais pobres. O clero é constituído por septões e septãs, cada grupo com suas funções, além de ordens auxiliares, como os irmãos mendicantes e as Irmãs Silenciosas, encarregadas dos trâmites fúnebres.

Como em diversos reinos da vida real e da fantasia, em Westeros a fé oficial é avalista e legitimadora da política. Casamentos entre grandes casas são ratificados e anulados pelos septões, reis são ungidos com óleos sagrados e até os tribunais precisam da bênção divina, tanto que, no caso dos famosos “julgamentos por combate”, diz-se que o campeão que fica de pé ao fim da luta venceu não por seus méritos, mas porque os deuses atestaram a inocência ou a culpa do réu.

OS DEUSES ANTIGOS

No Norte de Westeros e também nas terras para-lá-Muralha (onde vive o povo livre, que os westerosi chamam de “selvagens”), a crença majoritária é a dos deuses antigos, divindades sem nome que se manifestam nas forças da natureza.

represeiro

Não por acaso, é uma religião sem sacerdotes e sem templos, e o religare se dá pela comunhão íntima e discreta de cada devoto com o divino, na paz e tranquilidade dos bosques sagrados, onde reinam os Represeiros, árvores sagradas de caule branco e folhas vermelhas em que os Filhos da Floresta esculpiram, em priscas eras, rostos enigmáticos. Os represeiros, também chamados de “Árvores-Coração”, são o catalisador do poder dos deuses, a sua manifestação material.

Mesmo ao Sul, é comum que os grandes castelos tenham bosques sagrados com seus represeiros, embora quase todas as árvores-coração que cresciam nativas nas florestas tenham sido cortadas após a invasão dos ândalos. Como diz a personagem Osha ao menino Bran Stark no primeiro livro da saga, é por isso que os deuses antigos não têm poder no Sul: porque lá já não há represeiros.

Se a devoção dos Sete faz as vezes de religião sistemática e organizada, a crença nos deuses antigos representa um modo mais holístico e primitivo de espiritualidade, remetendo a crenças de diversas tribos, desde as indígenas até os povos guerreiros do norte da Europa (os germânicos, por exemplo, também tinham no carvalho a sua árvore sagrada).

A FÉ NO SENHOR DA LUZ

Uma devoção marginal (e emergente) ao longo da saga literária é a crença em R’hllor, o Senhor da Luz, em guerra eterna com Aquele Que Não Deve Ser Nomeado, seu oposto, aquele que traz a escuridão e é temido por isso.

rhllor deus do fogo

É uma religião ritualizada e centrada na figura dos sacerdotes vermelhos, dos quais os mais notórios são Melisandre (a “Mulher Vermelha”) e o fanfarrão Thoros de Myr, um misto de clérigo, guerreiro e bardo. Os ritos estão fundamentados na adoração e no uso das chamas: é uma religião de adoradores do fogo. Os iniciados conseguem ver o futuro nas chamas e usam fogueiras para fazer sacrifícios humanos em troca de favores de R’hllor, via de regra favores relacionados à morte de inimigos.

Essa espiritualidade representa o maniqueísmo, a crença em um deus terrível que simboliza o bem absoluto que se contrapõe a um mal absoluto, sem meio termo e sem tolerância com outras formas de fé.

P.S:

Uma outra modalidade de “religião nacional” de Westeros é a fé no Deus Afogado, cultuado pelo povo das Ilhas de Ferro e que é uma divindade tão belicosa e faminta de sangue inimigo quanto os marinheiros que a veneram. Como a abrangência dessa fé é bem restrita geograficamente e pouco relevante no contexto de Westeros, não nos estenderemos sobre ela aqui.