Fundação e Terra: o romance em que Asimov integra toda sua obra

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
13/09/2016

AVISO: Se você ainda não leu a trilogia da Fundação e a sequência Limites da Fundação, este texto pode apresentar spoilers ou soar incompreensível. Recomendamos que você leia esses livros e só depois volte ao post. Se quer continuar a leitura assim mesmo, vá em frente. Este blogue cultiva e defende a liberdade 😉

Se desejar, leia antes nossas resenhas dos livros anteriores da saga Fundação:

> Trilogia Fundação: a obra magna de Asimov
> Limites da Fundação: Asimov rediscute sua saga

 

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Publicado originalmente em 1986, o livro Fundação e Terra, de Isaac Asimov (lançado no Brasil pela Editora Aleph), marca o desfecho (pelo menos temporal na cronologia da saga, já que o autor escreveria duas prequels depois disso) da jornada iniciada com a trilogia original Fundação, escrita nos anos 1950.

Não se trata de uma obra sobre os rumos das duas Fundações estabelecidas pelo psico-historiador Hari Seldon durante os estertores do Império Galáctico. Nem sobre o que aconteceu com a galáxia depois que o Conselheiro Golan Trevize decidiu adotar o plano do planeta Gaia, de integração holística de todos os seres vivos e inanimados em um único super-organismo simbiótico. Esse desfecho já havia sido apresentado em Limites da Fundação, o livro anterior.

Então, se a história do Plano Seldon (que previa a reestruturação da ordem na galáxia após a dissolução do Império) já tinha se resolvido no livro anterior, para que escrever um novo romance? Asimov utilizou-se dos eventos de Fundação e Terra para atingir três objetivos:

a) explicar o que estava por trás de Gaia e do seu plano para a galáxia;

b) inserir o planeta Terra no contexto do Império e da colonização do espaço pela humanidade; e

c) integrar o enredo de Fundação ao conjunto dos seus escritos de ficção.

Veja também:

> Leia todos os posts sobre Isaac Asimov

ON THE (SPACE) ROAD

Para cumprir essas metas do seu criador, as personagens principais (o já citado Conselheiro Golan Trevize, o historiador Janov Pelorat e a gaiana Júbilo, trio conhecido desde Limites da Fundação) embarcam numa ‘space road trip’ pela galáxia. Fundação e Terra é uma clássica narrativa de viagem, uma jornada possibilitada pela tecnologia do Salto Hiperespacial, que leva nossos heróis por diferentes sistemas estelares apartados por distâncias incomensuráveis, em busca de respostas para a pergunta de Pelorat (a Terra existe de verdade?) e para a de Trevize (por que eu escolhi a solução holística de Gaia para a galáxia?).

As respostas a ambas as questões são dadas à medida que os viajantes passam por diversos planetas e o terceiro propósito de Asimov, a integração entre suas obras, vai sendo cumprido. Em Fundação e Terra, o autor sacramenta que todas as suas histórias de ficção, desde os contos e romances sobre primórdios da exploração de robôs na Terra e sobre a descoberta do salto hiperespacial até a queda do Império Galáctico, 20 mil anos depois, se passam no mesmo universo e na mesma linha do tempo.

O trio de protagonistas refaz, em sentido inverso, a caminhada da humanidade em direção às estrelas, revisitando planetas citados em outros livros de Asimov e resgatando a verdade por detrás de mitos e lendas que o historiador Pelorat garimpa no caldo cultural da sociedade galáctica.

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Uma dúvida que sempre esteve presente na minha leitura de Fundação (onde diabos estão os robôs?) é esclarecida quando o trabalho de investigação de Pelorat, Trevize e Júbilo resulta na descoberta do que está por trás dos diferentes fluxos colonizadores da humanidade e do choque de modelos de sociedade e visões de mundo que perpassa outras obras de Asimov.

A revelação final (que não citarei aqui para evitar spoilers mais violentos) sobre os propósitos de Gaia e o destino que Trevize (e, por meio dele, Asimov) escolheu para a galáxia, como não podia deixar de ser, é uma reafirmação da crença do autor na tecnologia e na ciência como fontes de prosperidade e harmonia social. E uma reafirmação de cânones que perpassam vários escritos asimovianos, sobretudo suas histórias sobre robôs.

UM DESCONFORTO DE LEITOR

Algo que me incomodou em Fundação e Terra, e que já me incomodava desde o livro Segunda Fundação, passando por Limites da Fundação, é a quase onipotência dos poderes mentais dos gaianos – e dos psicólogos da Segunda Fundação.

Em sua saga, Asimov aposta no desenvolvimento da telepatia e da telecinesia como o próximo grande salto evolutivo da humanidade, mas esses poderes me causam uma certa estranheza. Por exemplo, a velocidade com que as ondas mentais (se é que são ondas) viajam por distâncias astronômicas em tempo real.

A única explicação possível para que isso ocorra (excluída a hipótese de que haja deslocamento a uma velocidade infinitamente superior à da luz) é que não haja deslocamento das ondas mentais em absoluto; que o universo inteiro seja um único oceano de pensamento e todas as mentes estejam ligadas umas às outras, independentemente do espaço físico, e então qualquer telepata em Trantor, por exemplo, teria ligação direta com um outro telepata em Terminus (e, ao mesmo tempo, com todas as mentes em qualquer ponto do universo).

Seja qual for a intenção de Asimov ao propor esse contexto, entretanto, isso não compromete a coesão da sua saga e nem a intricada construção da narrativa, que merece todo o prestígio de que goza junto aos amantes de ficção científica e literatura fantástica.