Fundação: a obra magna de Asimov

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
15/06/2015

fundacao-asimov-capaEm 1966, a trilogia Fundação, de Isaac Asimov (publicada no Brasil pela Editora Aleph), recebeu o Prêmio Hugo especial de melhor série de ficção científica e fantasia de todos os tempos. Claro que premiações e rankings são sempre arbitrários e subjetivos, e o risco de equívoco é ainda maior quando a distinção se refere não ao ano de publicação, e sim a “todos os tempos”. Mas é inegável que a saga criada por Asimov está, no mínimo, no panteão das melhores criações da literatura.

Mais que uma saga de ficção científica, Fundação é uma colagem de referências e estilos. Asimov transpõe para um futuro distante, numa comunidade de planetas colonizados por humanos que abrange toda a galáxia, a história do declínio do Império Romano, crônicas de viajantes, histórias de piratas e discussões sobre determinismo e livre arbítrio, imperialismo e geopolítica.

A trilogia original, composta por Fundação, Fundação e Império e Segunda Fundação, foi publicada até 1953. A partir dos anos 1980, Asimov lançou outras quatro obras da saga, como sequência e prólogo dos acontecimentos narrados nas três primeiras: Limites da Fundação, Fundação e Terra, Prelúdio à Fundação e Origens da Fundação (todos os títulos serão resenhados nesta Taberna no momento oportuno).

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Os eventos de Fundação começam por volta do ano 12 mil da Era Galáctica, que, por sua vez, teve início muitos milênios após a partida dos primeiros colonizadores espaciais humanos da Terra. Asimov fez, a partir da década de 1980 (do nosso próprio calendário, claro) alguns ajustes para sincronizar as datas de todas as suas obras. Assim, todos os seus romances e contos fazem parte do mesmo universo de Fundação e se situam na mesma linha do tempo.

O PODER DA PSICO-HISTÓRIA

O fio condutor de toda a saga é o chamado Plano Seldon, um intricado algoritmo matemático e sociológico criado graças ao uso da psico-história, que é, no contexto de Fundação, uma ciência capaz de prever, com rigor matemático, os rumos de uma sociedade – ou, pelo menos, as probabilidades de se ir por um ou outro caminho. Obviamente, o comportamento de uma única pessoa é completamente imprevisível, mas as grandes populações se comportam, de acordo com a psico-história, seguindo padrões que podem ser calculados e antecipados.

Utilizando-se dessa poderosa ferramenta, o psicólogo Hari Seldon, criador da nova ciência, prevê a queda do Império Galáctico sediado no planeta Trantor e subsequentes 30 mil anos de anarquia e caos até o estabelecimento de um novo império capaz de garantir paz e estabilidade a toda a galáxia. Para reduzir a apenas mil anos o tempo necessário para a edificação do segundo império, Seldon estabelece um plano, considerando matematicamente todas as idas e vindas das populações dos milhões de planetas habitados da galáxia e prevendo formas de resolver as crises de modo vantajoso aos objetivos de reagregação.

fundacao-e-imperioA psico-história e seus usos motivam uma reflexão sobre o determinismo. Se é possível prever o futuro, sobra espaço para a liberdade? O Plano Seldon mantém salvaguardada a autonomia de indivíduos isolados, mas qual será o efeito, sobre esses mesmos indivíduos, da descoberta de que, não importa o que desejem fazer, os rumos da sociedade galáctica, incluindo em linhas gerais a sua participação como atores sociais, já estão traçados com mil anos de antecedência?

Evidente que Seldon não desejava que as massas soubessem que ele havia previsto com tanta probabilidade de acerto o destino da humanidade. Por isso mesmo, a imensa maioria dos seus próprios seguidores ignora os pormenores da psico-história. Como parte do seu plano, Seldon cria duas Fundações. A primeira, sediada no longínquo e árido planeta Terminus, é maior e se dedica a desenvolver as ciências físicas e a tecnologia, mas desconhece a matemática necessária para fazer previsões. A segunda, menor e envolta em mistério, e com localização indeterminada, é composta unicamente por psicólogos/matemáticos e se ocupa das ciências da mente.

Os membros da primeira Fundação, que é conhecida simplesmente como “A Fundação”, já que sua irmã gêmea é uma incógnita, sabem do Plano Seldon e, portanto, se consideram destinados a preparar a galáxia para o Segundo Império. Há, aqui, referências ao materialismo histórico e até a culturas de predestinação, como a dos judeus, que se consideram O Povo Escolhido, ou à doutrina do Destino Manifesto, que considera o expansionismo dos Estados Unidos um sinal de que os norte-americanos são, eles e não necessariamente os judeus, O Povo Escolhido.

Saber da existência do Plano, o que por um lado aumenta a confiança dos membros da Fundação e os leva a superar diversas crises, por outro acaba gerando suas próprias crises, pelo simples fato de que as pessoas, de modo geral, não suportam saber que não são plenamente livres. Assim, essa tensão dialética entre a necessidade dos indivíduos de afirmarem sua liberdade e os movimentos involuntários da coletividade, com destaque para as disputas entre a primeira e a segunda Fundações pela primazia do poder na galáxia, testa a cada instante os limites do Plano Seldon.

SUA MAJESTADE, A CIÊNCIA

Depois de prever a queda do Império e os posteriores 30 mil anos de caos na galáxia, o que faz Hari Seldon para tentar minimizar os estragos? Aposta na ciência. A Fundação estabelecida em Terminus, com a justificativa oficial de elaborar uma “Enciclopédia” capaz de abarcar todo o conhecimento da galáxia, tem na verdade o intuito de desenvolver tecnologia e ciência em si, e servir de centelha capaz de espalhar a chama por todos os sistemas planetários.

A escolha de Seldon por Terminus não é gratuita. O planeta, situado na borda da galáxia e carente de recursos minerais, era apto a forjar uma sociedade cuja única defesa e trunfo fosse a tecnologia. Por conviverem com a escassez de matéria-prima, os cidadãos da Fundação precisaram, desde sempre, investir na miniaturização das suas máquinas e no comércio com outros planetas.

Prosseguindo a analogia estabelecida por Asimov com a queda do Império Romano, se a queda do Império Galáctico representa o ocaso dos Césares, a atividade científica e comercial da Fundação em Terminus representa, ao mesmo tempo, o papel dos mosteiros que preservaram a ciência na Idade Média e a influência dos mercadores que integraram culturas e continentes na Idade Moderna.

segunda-fundacao-asimovAlém disso, ao pairar como fonte de conhecimento e desenvolvimento sobre diversos sistemas planetários, com uma benevolente e ao mesmo tempo ameaçadora autoridade informal, o papel da Fundação se assemelha ao desempenhado pela Igreja Católica em mil anos de Cristandade. A diferença é que, na saga de Asimov, os milagres realmente acontecem, mas operados pela tecnologia.

LIMITES

A Fundação, evidentemente, não é uma receita de Asimov para a humanidade. O escritor transpôs para o universo de ficção científica elementos da história e da psicologia das sociedades humanas e não necessariamente considera justos o tipo de governo e organização defendidos por Hari Seldon.

Por que, afinal, o criador da psico-história defende a instauração de um segundo império? Será necessário o domínio de milhões de planetas por um forte governo central para que haja paz na galáxia? Em última análise, podemos dizer que a razão primeira de Seldon ao elaborar o seu plano foi criar um mecanismo para que uma classe em especial – a dos psico-historiadores – ascendesse à condição de casta dominante da sociedade galáctica. É uma aposta na “aristocracia” (o “governo dos bons”, em bom grego), ou uma referência à República de Platão, obra do filósofo grego que estabelece que o Estado perfeito é aquele governado – adivinhe – por filósofos.

Além desses questionamentos sobre o sentido que Asimov quis dar a Fundação, há na obra outros pontos que provavelmente estão lá sem querer, por inevitáveis limitações do autor (algo de que ele mesmo se dá conta a posteriori, tanto que discute e/ou revê alguns desses pontos nas obras subsequentes):

O machismo: quando Asimov concluiu a trilogia original, a sociedade em que ele vivia era, ainda mais que a nossa, machista e patriarcal. Esses elementos transparecem na sua obra. O domínio dos homens em Fundação beira o absurdo, já que sua narrativa, que se passa dezenas de milhares de anos no nosso futuro, descreve uma sociedade mais machista e desigual que a de agora, 2015. Uma humanidade que evoluiu tanto de 1953 até hoje no que diz respeito à igualdade de gênero provavelmente evoluirá muito mais nos próximos milênios, algo que Asimov não conseguiu antever.

Questões sexuais: do mesmo modo que a liberação da mulher, a aceitação dos homossexuais pela sociedade não foi prevista pelo autor. Hoje, é comum que filmes, romances e seriados apresentem pelo menos um personagem declaradamente homossexual, pois isso faz parte da cultura atual. No universo da trilogia original de Fundação, ainda impera o modelo de família tradicional composto por marido e mulher e não há personagens assumidamente homossexuais – e isso num contexto em que diversos núcleos familiares são citados. A omissão da homossexualidade nas páginas da trilogia não se trata, pois, de mero acidente. Asimov quis mostrar famílias. Mas todas elas são patriarcais-heterossexuais. De novo, a culpa não é do escritor, que apenas reproduziu na sua arte o caldo cultural em que estava imerso.

O nível de desenvolvimento tecnológico e o impacto da tecnologia no senso comum: se você dissesse a algum terráqueo do início do século 20 que, dentro de pouco mais de 50 anos, qualquer ponto do planeta poderia ser visitado em questão de horas, talvez fosse chamado de louco. Do mesmo modo, revoluções como a corrida espacial ou a criação da internet e da telefonia celular transformaram radicalmente o mundo em intervalos de tempo curtíssimos. Imagine o que acontecerá em milhares de anos.

Apesar disso, o salto tecnológico dado pelas sociedades mostradas na saga Fundação não parece ser tão grande em algumas áreas, e a narrativa tem episódios inexplicáveis. Por exemplo, quando o Império Galáctico se fragmenta, diversos sistemas planetários “esquecem” a tecnologia nuclear e passam a usar carvão e petróleo de novo. Mesmo no núcleo do antigo Império, as centrais energéticas são obsoletas e os seus engenheiros sabem operá-las porque foram adestrados para isso, mas são incapazes de construir novas versões. O imperador moribundo é atendido por curandeiros charlatães em vez de médicos.  Ao mesmo tempo, os avanços tecnológicos de Terminus são considerados “feitiçaria” e “magia” por povos de sistemas vizinhos. É bem improvável que sociedades tecnológicas acostumadas ao voo hiperespacial e ao uso de campos de força considerem bruxaria a criação de um reator miniaturizado, por exemplo.

Aqui, de novo, temos que ter em mente que Asimov estava usando a sua saga como alegoria para eventos da nossa história real, por isso é importante que a ciência cause estranhamento a alguns personagens, mas esses pontos acabam, sem querer, causando estranhamento ao leitor.

Uma galáxia em que todos falam a mesma língua: no contexto de Fundação, qualquer pessoa de qualquer planeta da galáxia parece apta a falar sem problemas com qualquer outra pessoa de qualquer outro planeta. E elas não têm sequer um peixe-babel, o tradutor instantâneo concebido por Douglas Adams em O Guia do Mochileiro das Galáxias. Isso também é um pequeno absurdo que Asimov deixou escapar. É evidente que um império que abrangesse milhões de planetas espalhados por distâncias estelares teria muitos (e sérios) problemas de comunicação. Mais tarde, no livro Limites da Fundação, Asimov se dá conta desse deslize e diz que há milhões de dialetos nos diversos sistemas planetários, mas que há um “Padrão Galáctico” compreendido por todos – o que ainda é um deslize, embora menor.

Veja também:

> Limites da Fundação: Asimov rediscute sua saga
> Fundação e Terra: Asimov integra toda sua obra

CONCLUSÃO

Apesar de ter pequenas e explicáveis limitações, a saga da Fundação merece a reputação e o respeito de que goza entre os apreciadores de ficção científica. Asimov conseguiu escrever uma narrativa vigorosa, com um enredo que condiz com a grandiosidade da aventura e dos conceitos que quis explorar. Se não é a maior saga de todos os tempos, está, com certeza, entre as maiores, aliando a profundidade do conteúdo à beleza da forma.

Um P.S. urgente

spoiler-alerta

Em tempo: ia esquecendo de falar da Segunda Fundação. Ao se embrenharem na psicologia e nas ciências da mente, os matemáticos/psicólogos da Segunda Fundação, guardiães do Plano Seldon e futuros governantes da galáxia, acabam por desenvolver poderes telepáticos, tanto para se comunicar quanto para influenciar o comportamento de terceiros. É, no mínimo, irônico que uma saga baseada na exaltação das ciências físicas e no culto à tecnologia chegue ao fim depositando a esperança da galáxia nas misteriosas e, até hoje, impossíveis capacidades ~mentálicas~ de um pequeno grupo de telepatas. É um exercício de humildade e autocrítica de um conhecedor e divulgador da ciência que sabe que os cientistas não têm respostas para todos os enigmas do universo.

E essa posição fica ainda mais evidente em Limites da Fundação, a primeira sequência da trilogia a ser lançada. Mas isso é assunto para outro post.