Eu, Robô: o futuro segundo Asimov

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
28/04/2015

O livro Eu, Robô (a mais recente tradução brasileira foi lançada pela Editora Aleph) reúne nove contos interrelacionados de Isaac Asimov, um mestre da ficção científica que dedicou boa parte da carreira a imaginar como o desenvolvimento de robôs genuinamente inteligentes impactaria na humanidade.

(Em 2004, foi lançado um filme com o mesmo nome do livro, estrelado por Will Smith e dirigido por Alex Proyas. A obra, ligeiramente inspirada nas histórias de Asimov, será abordada em um outro post, no futuro próximo.)

eu-robo-alephMuitas das histórias de robôs da literatura e do cinema envolvem a chamada Síndrome de Frankenstein: o temor de que criaturas feitas pelo homem se revoltem contra o criador – com consequências quase sempre catastróficas para nós. Asimov se notabilizou por desenvolver uma contramedida de segurança para nos proteger de nossas criações inteligentes: as hoje célebres Três Leis da Robótica:

1. Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano seja ferido.

2. Um robô deve obedecer ordens de seres humanos, desde que estas que não entrem em conflito com a primeira lei.

3. Um robô deve proteger a si mesmo, desde que isso não entre em conflito com a primeira ou com a segunda lei.

Apesar de parecerem regras fortes e coerentes o bastante para garantir a segurança da operação com robôs, Asimov concebe enredos em que as Três Leis são distorcidas ou burladas. As possíveis brechas nas Três Leis são o mote de quase todos os contos de Eu, Robô.

Há quem diga, como fez P. W. Singer, que as Três Leis são “balela” (para ler o artigo, clique aqui). Ele argumenta, por exemplo, que não é possível, hoje, programar um cérebro robótico com o código asimoviano. Ora, os robôs do universo futurista concebido por Asimov (que escreveu os contos entre os anos 1940 e 1950, ambientando as histórias no século 21) são inteligentes de verdade. Possuem cérebros que o autor batizou de “positrônicos” e são capazes de raciocínio complexo e de reconhecer as diferenças entre eles próprios e os seres humanos. Comparados a eles, os autômatos de hoje são pouco diferentes de torradeiras ou empilhadeiras. A própria possibilidade de relativização do conceito de “humano” levantada pelo articulista não faz sentido nos enredos de Asimov, pois o escritor fala especificamente de uma inteligência artificial avançada a ponto de desenvolver pensamentos abstratos. Os robôs asimovianos entendem muito bem o significado de “não ferir um ser humano”.

Outro ponto defendido por Singer é que boa parte da pesquisa em robótica é hoje financiada por corporações militares e, portanto, matar seres humanos é um dos objetivos do uso de robôs. Não vejo como esse argumento poderia inviabilizar as Três Leis em si. Nas histórias de Asimov, embora o autor não explique como, o cérebro positrônico não funciona sem os três preceitos. As “trilhas positrônicas” são inseridas no cérebro seguindo uma programação que parte das Três Leis, e subtraí-las inviabilizaria o cérebro inteiro.

Mas não é impossível, mesmo no universo de Eu, Robô, que alguma empresa ou indivíduo crie um cérebro robótico diferente dos positrônicos tradicionais e livre das Três Leis. Bom, se alguma empresa ou cientista isolado ousasse dar carta branca a um ser fisicamente mais forte que um ser humano e tão inteligente quanto (ou mais), teríamos problemas.

O fato é que Asimov, com sua visão incorrigivelmente otimista da humanidade, usa algo parecido com as leis de mercado para regular a manufatura de seres inteligentes. Fica subentendido que a sociedade “não aceitaria” a presença de robôs não equipados com as Três Leis. Não haveria, portanto, demanda para robôs perigosos. Tolinho.

Não que as pessoas do futuro criado pelo escritor aceitem numa boa os robôs positrônicos e respeitadores das leis. Na maioria dos contos de Eu, Robô, o uso dos autômatos inteligentes está restrito ao espaço, pois em toda a Terra os governos aprovaram o banimento dos androides devido ao pânico que provocam na população.

Esse estranhamento, quase uma robofobia, aparece já no primeiro dos contos da coletânea, Robbie. O robô que protagoniza a história, uma babá metálica incapaz de falar, cativa a garotinha Glória mas não a sua mãe, enquanto a sua volta o preconceito e o medo das pessoas só aumenta. É aí que descobrimos que, nos primeiros anos do século 21, a humanidade decide restringir o uso de robôs às colônias espaciais, o que só será revisto muitas décadas depois, com a introdução das “Máquinas”, supercérebros que acabam assumindo o governo mundial.

As histórias que compõem a coletânea têm como fio condutor uma entrevista feita com a Doutora Susan Calvin, uma das mais marcantes personagens criadas por Asimov. Psicóloga de robôs, que admira as criaturas de cérebro positrônico e admite gostar mais delas que de pessoas, Susan é uma das principais executivas da U.S. Robôs e Homens Mecânicos, a corporação que domina o mercado de robôs inteligentes.

Ao longo dos contos, conhecemos outros personagens: os engenheiros Gregory Powell e Mike Donovan, que se especializam em se meter em enrascadas com robôs defeituosos por todo o Sistema Solar, e os executivos/pesquisadores da U.S.R.H.M. Alfred Lanning e Peter Bogert, além do clã Robertson, que fundou a companhia.

As histórias de Eu, Robô exploram diversos enredos e possibilidades de falha na nossa relação com seres inteligentes. Encontramos, nos cérebros positrônicos, um espelho (ligeiramente distorcido) da nossa própria racionalidade e, ao final de uma jornada de décadas de erros e acertos, o contato com esses seres acaba melhorando e humanizando um pouco mais a própria humanidade. Talvez o maior defeito de Asimov seja excesso de otimismo. Mas o livro é bom demais.