Entropia e ética ambiental: uma breve reflexão sobre a indiferença

Senhor D
Por Senhor D
15/01/2019

ENTROPIA ACELERADA

É possível reverter a entropia total do universo? Eis a última e mais importante pergunta. Teria sido proferida pela primeira vez em maio de 2061, quando foi enunciada durante uma conversa entre bêbados parcialmente preocupados com o remoto fim da existência. Qual existência? Toda.

A grande questão foi direcionada à inteligência artificial singular MULTIVAC, que com suas milhas e milhas de carcaça luminosa, fria e ruidosa, havia sido a responsável pelo sucesso da resolução de toda escassez energética da humanidade. O problema da entropia total, entretanto, ainda não estava ao alcance do dispositivo, de modo que a resposta mecanizada foi: “DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA”.

Dados insuficientes para resposta significativa, disse o supercomputador forjado na imaginação do escritor Isaac Asimov. Apesar de toda estrutura tecnológica, fundamentada em um plano geral de circuitos que há muito haviam crescido além do ponto em que um humano solitário poderia sequer tentar entender, MULTIVAC desfrutava naquele momento de um sentimento familiar aos homens: o de não saber.

O conto “A Última Pergunta” foi publicado pela primeira vez em 1956. A história começa com um debate entre dois homens embriagados que — pode-se dizer que em última instância — discutem o status ontológico do “infinito”. Crente em uma suposta (quase) onipotência tecnológica, um deles pensa que a vida humana está garantida para sempre, visto que todos os problemas de energia e de alimentação foram supridos graças a MULTIVAC. O outro, mais ponderado, adverte que “para sempre” é tempo demais. Até as estrelas morrerão um dia, rebate ele. E mesmo que a humanidade sobreviva o suficiente para testemunhar o extinguir do último feixe de luz, nada poderá fazer para evitar a escuridão que emergirá em seguida. Escuridão metafórica, por óbvio, uma vez que o vazio do nada, ao que se supõe, nada pode aparentar.

Fora do campo ficcional, o calendário ocidental vigente marca data relativamente distante a 2061. Distante em termos humanos, evidentemente. Para o padrão cósmico, quatro décadas (ou um pouco mais, ou um pouco menos) são um instante. Quatro décadas são o agora. Conversas otimistas como a empenhada pelos bêbados asimovianos também parecem longínquas. Os problemas terrestres são mais urgentes, com perspectivas bem menos positivas. Conforme o filósofo austríaco Fritjof Capra (2006, p.14),

Defrontamo-nos com toda uma série de problemas globais que estão danificando a biosfera e a vida humana de uma maneira alarmante, e que pode logo se tornar algo irreversível. Temos ampla documentação a respeito da extensão e da importância desses problemas. Quanto mais estudamos os principais problemas de nossa época, mais somos levados a perceber que eles não podem ser entendidos isoladamente. São problemas sistêmicos, o que significa dizer que estão interligados e são interdependentes.

Há quem negue a urgência da situação. Na verdade, hoje em dia, há quem negue qualquer coisa. Entretanto, independentemente da proliferação de “fatos” particulares e adaptáveis eclodidos nesta era da pós-verdade, a realidade se impõe. E a realidade, vale dizer, é um ente básico da existência, mas é dotada de extrema indiferença para com significações privativas variadas.

A realidade é inconveniente (e a verdade também pode ser, diria o Al Gore) e impertinente: perfura quaisquer tentativas que visam a ignorá-la. Mas há quem, ao contrário, deseje encará-la. Nesses primeiros dias de 2019, por exemplo, foram divulgados novos dados sobre o aquecimento global (ênfase: aquecimento GLOBAL, de maneira alguma “aquecimento em escala plana”). As novas medições, feitas com o auxílio de uma rede internacional de 3,9 mil flutuantes lançados nos oceanos a partir do ano 2000, mostraram aquecimento mais acentuado desde 1971 — maior, inclusive, do que o calculado pela mais recente avaliação da Organização das Nações Unidas (ONU), levantada em 2013. Os cientistas responsáveis (cientistas chineses e norte-americanos, vejam só) deixaram claro no estudo, publicado na revista Science , que “registros observacionais do calor interno do oceano mostram que o aquecimento está acelerando” e que “o aquecimento global está aqui e já tem grandes consequências. Não resta dúvida, nenhuma!”. Mas quem liga para o que os cientistas dizem, certo?

Entropia total do universo. Difícil conceber preocupação tão ampla e, ao mesmo tempo, tão sincera e humildemente despretensiosa — principalmente levando-se em consideração que a entropia parcial e bem menos remota de nossas florestas e oceanos já seria — ou deveria ser — o bastante para aterrorizar povos e nações.

E que bom seria se aterrorizasse, proferiria a sensatez. E olha que não são apenas oceanos mornos e florestas calvas que preocupam: excessiva concentração urbana, crescimento demográfico e populacional, miséria, falta de habitação e higiene, esgotamento de matérias-primas, crise energética (venha logo, MULTIVAC!), muros, guerras e conflitos de toda ordem. Tudo isso leva a crer que sensatez não bastaria, pois existe também, conforme Capra (2006, p.14), uma crise de grave também de percepção.

“Em última análise, esses problemas precisam ser vistos, exatamente, como diferentes facetas de uma única crise, que é, em grande média, uma crise de percepção. Ela deriva do fato de que a maioria de nós, em especial nossas grandes instituições sociais, concorda com os conceitos de uma visão de mundo obsoleta, uma percepção da realidade inadequada para lidarmos com nosso mundo superpovoado e globalmente interligado. (CAPRA, 2006, p. 14)”

No conto de Asimov, uma analogia interessante insurge em meio ao diálogo dos embriagados. Discorre, a analogia, sobre o tolo que, surpreendido pela chuva, corre até um grupo de árvores e escolhe uma destas para se abrigar. Ele não se preocupa que a árvore fique encharcada e pare de conter a água. Quando isso acontecer, pensa ele, basta se refugiar na árvore ao lado. Eis a similaridade em vigor: quantos são os que, hoje, pensam igual ao tolo? Quantos vivem a ilusão de que, quando a coisa ficar feia, bastará trocar de árvore? Quantos não percebem que as árvores já se encharcaram e que a floresta disponível é a mesma — e é a única? Trocar de “floresta” ainda é alternativa disponível apenas na ficção científica — e por mais devotos à tecnologia que sejamos, é provável que esse cenário não se modifique até 2061.

Pode ser que o Guia do Mochileiro das Galáxias tenha razão. Quem sabe, seja verdade que a Terra se resuma a um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, que gira em torno de um pequeno sol amarelo e esquecido situado além dos confins inexplorados da região mais brega da borda ocidental da galáxia. Pode ser verdade, também, que o ser humano não passe de uma forma de vida tão extraordinariamente primitiva que ainda considera relógios digitais uma grande ideia. Mas ainda que esse planetinha seja insignificante e praticamente inofensivo, de acordo com o guia concebido por Douglas Adams, por ora, este planetinha é o único à disposição. Então, caso a Terra seja poupada da extinção total e artificial (que poderia ocorrer, entre outras razões, em prol da construção de uma via expressa intergaláctica), seria aconselhável que seus habitantes (ou, pelo menos, a parte autointitulada racional de seus habitantes) entendessem a gravidade da situação. Ou será que não?

ÉTICA AMBIENTAL

Entender a gravidade da situação. Pode ser que esse seja um ponto essencial para quem pensa os problemas ambientais. Afinal, fora o fato de descender de primatas extraordinariamente primitivos, o que mais impede a humanidade de perceber e relevar o cenário no qual se encontra?

Há vastas possibilidades de explicação e incontáveis configurações de resposta. Alguns podem estar apenas desinformados. Outros podem (preferir) não acreditar nos indícios. Alguns, além de não se importar, podem escolher se aproveitar das circunstâncias para tentar invalidar, a partir das mais diferentes motivações, o discurso dos que se importam. Outros, ainda, podem apenas e simplesmente não dar a mínima. Os motivos, portanto, parecem diversos. E são diversos. Então, se a ideia de algum autoproclamado “bem-intencionado” seja a de promover uma ética ambiental, talvez seja importante saber a quem ou com que se está falando. Se os obstáculos são diferentes, as abordagens também devem ser.

Sob uma perspectiva mais inclinada ao relativismo, as quatro posturas supracitadas (que, vale lembrar, não são as únicas) são compreensíveis. O ceticismo é concebível, assim como a ganância, a ignorância e a indiferença também o são. Esta última, porém, a indiferença, parece ser, sob certo aspecto, se não a “motivação” (ou não-motivação) menos justificável, a mais instigante. Por essa razão, é justamente à indiferença para com os problemas ambientais que estes parágrafos se dedicam. O que fomentaria essa indiferença? Ou, ainda, que estímulos faltariam ao indiferente?

Antes de tentar uma resposta (ou duas, ou três), quiçá seja razoável entender as concepções e valores daqueles que pregam o oposto da impassibilidade do indiferente. Quais seriam, então, os embasamentos de quem sustenta uma ética ambiental? Ou, um passo atrás: afinal, o que seria ética ambiental?

De acordo com Holmes Rolston III (2007, p.557), professor de filosofia da Universidade do Colorado (EUA),

“a ética ambiental consiste em teoria e pratica sobre preocupação apropriada com valores e deveres em relação ao mundo natural. Segundo explicações clássicas, a ética diz respeito a pessoas relacionando-se com pessoas em justiça e amor. A ética ambiental parte de preocupações humanas com uma qualidade ambiental, e alguns pensam que isto molda a ética como um todo. Outros sustentam que, além das preocupações inter-humanas, os valores estão em jogo quando os humanos se relacionam com animais, plantas, espécies e ecossistemas. Segundo essa visão, os humanos devem julgar a natureza considerável moralmente nela mesma, e isto orienta a ética para novas direções”.

Sob essa perspectiva, pode-se se dizer que a ética ambiental se opõe a uma postura antropocêntrica. O Guia do Mochileiro já alertava para o fato de o homem, erroneamente, se considerar o ser mais inteligente da Terra quando, na verdade, ocuparia somente a terceira posição nesse quesito. Porém, contrariando Douglas Adams, a ética ambiental poderia, inclusive, contestar esse tipo de listagem hierárquica que envolve os ocupantes desse planeta. Porque o homem não estaria além da natureza: o homem faria parte dela. Mais do que isso: o homem SERIA a natureza. Quem pensa diferente a respeito desse ponto contraria uma ética ambiental profunda, abarcando, no máximo, uma ecologia rasa, que segundo Capra (2006, p.17), é…

…”antropocêntrica, ou centralizada no ser humano. Ele vê os seres humanos como situados acima ou fora da natureza, como a fonte de todos os valores, e atribui apenas um valor instrumental, ou de “uso”, à natureza. A ecologia profunda não separa seres humanos – ou qualquer outra coisa – do meio ambiente natural. Ela vê o mundo, não como uma coleção de objetos isolados, mas como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconectados e interdependentes. A ecologia profunda reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os seres humanos apenas como um fio particular na teia da vida”.

A ética ambiental, portanto, está amparada na ideia de que não é correto que o homem se coloque acima da natureza. Pois, ao se compreender como parte do ecossistema, automaticamente entende que prejudicar o planeta é prejudicar a si mesmo. Este seria, quem sabe, um bom argumento contra uma postura meramente gananciosa e egoísta. Todavia, o mesmo argumento parece insuficiente para opor-se à passividade da indiferença pela indiferença. Que diferença faz ao indiferente fazer ou não fazer parte da natureza?

DIREITO À INDIFERENÇA

Não parece haver apenas uma forma de estado de indiferença. A indiferença pode ser puramente niilista, afinada ao discurso de que se a Terra é insignificante (e praticamente inofensiva), os seres que nela habitam também devem ser insignificantes (e extraordinariamente primitivos). Esse nível de indiferença parece ser o mais difícil de contornar. Até porque, segundo Nietzsche, o niilismo é uma doença grave de nossa época — e abrange aspectos que se espalham para muito além dos preceitos da ética ambiental — ou até de qualquer ética concebida até este ponto da história.

Um pouco de filosofia trágica, talvez, pudesse remediar essa “doença”, esse niilismo. Afinal, o trágico, não se deprime ao atestar a insignificância da vida. Pelo contrário: o trágico afirma a vida apesar de sua insignificância e iminente condenação. O pesquisador brasileiro Rogério de Almeida (2013, p.58) explica que:

“Os pseudotrágicos, como prefere Clément Rosset, são os que veem a precariedade da existência (sua insignificância e pequenez), mas não conseguem afirmá-la, lamentando-se da ausência de sentido, de necessidade e de princípio. Os trágicos da afirmação, como Lucrécio, Montaigne, Baltazar Gracián, Nietzsche e Rosset, afirmam a vida incondicionalmente. Elegem a alegria como prova de afirmação: adesão ao real, mesmo quando este se mostra desagradável”.

Rust Cohle, de True Detective, é um exemplo de pseudo-trágico. Na visão dele, os homens e mulheres são coisas que operam sob a ilusão de ter um eu-próprio, uma acreção de experiência sensorial, e foram programados para pensar que são alguém quando, na verdade, todos são ninguém. A coisa mais honrável para a espécie humana, segundo Rust, seria negar essa programação. Parar de se reproduzir. Caminhar, de mãos dadas, até a extinção, em direção a uma última meia-noite. Irmãos e irmãs deixando tudo para trás. Rust acredita que a consciência humana foi um erro calamitoso na evolução. A consciência gerou autoconsciência: a natureza criou um aspecto dela separado de si. A humanidade, segundo Rust, não deveria existir de acordo com a lei natural.

Rust, ao proferir tais pessimistas palavras, admite que prefere acreditar que a insistência em continuar vivo se deva à tarefa auto-imposta de testemunhar aquilo que é passível de testemunho. Mas ele sabe que, na verdade, vive porque não é capaz de contornar sua programação. (Sabemos que alguns infelizes são).

Para além da indiferença niilista, para além da mera programação, há um tipo de indiferença que mais parece estar conectada a uma postura que convém chamar de egoísmo. Todo egoísmo, grosso modo, envolve uma série de cálculos acerca das possibilidades. Afinal, o egoísmo — independentemente do grau em que se estabelece — preza pelos ganhos próprios. O egoísta indiferente, porém, pode agir de forma mais branda, ou seja: não ativa e não reativa. O que isso quer dizer? Vejamos: se todo egoísmo envolve algum tipo de cálculo acerca das possibilidades, o egoísta indiferente aos problemas ambientais pode justificar sua postura unicamente na avaliação de que não será afetado pelas prováveis calamidades que assombram os ambientalistas. Trata-se de uma indiferença fundamentada na lógica, que pode ser, inclusive, demonstrada silogisticamente:

Premissa 1: só devo me preocupar com as grandes catástrofes ecológicas se houver risco de eu ser diretamente afetado por estas;

Premissa 2: é improvável que eu ainda esteja vivo quando as grandes catástrofes ecológicas atingirem um nível que me afete diretamente;

Conclusão: não devo me preocupar com catástrofes ecológicas.

Obviamente, a interpretação de “diretamente afetado” é ampla e demasiadamente subjetiva. Mas o indiferente aqui referido não está preocupado com semântica. Genericamente falando, é possível interpretar que tal indiferença está pautada egoisticamente na ideia de que “não devo me preocupar com o que vai acontecer com a Terra se o que vai acontecer com a Terra só vai acontecer quando eu não estiver mais nela”. Para Fritjof Capra (2006, p. 15), que prega a sustentabilidade como meta, o homem deveria se empenhar para criar “ambientes sociais e culturais em que podemos satisfazer as nossas necessidades e aspirações, sem diminuir as chances das gerações futuras”. O indiferente, porém, parece discordar. Não está convencido do ideal de “amar o mundo independentemente de estar ou não no mundo”. Para o indiferente ecologicamente egoísta, a Terra só tem valor quando pode ser desfrutada. Não haveria, assim, nenhum compromisso de preservá-la para as futuras gerações. Não há razão para defender um mundo no qual minha existência não está efetivada, dirá o egoísta ecologicamente indiferente.

Dito isso, cabe a reflexão: de que modo a ética ambiental, enquanto filosofia prática, poderia refutar ou contrariar essa concepção? Em outras palavras: é verdadeiro dizer que o homem é responsável por preservar o planeta para seus sucessores?  A importância de se preservar o mundo não seria apenas um axioma longe de qualquer consenso?

De um ponto de vista ético-ambiental, talvez as questões acima não sejam plenamente apropriadas. Isso porque são visivelmente antropocêntricas. Uma ética ambiental profunda não se limitaria a contemplar apenas as futuras gerações de seres humanos, mas sim a toda vida terrestre — o que não significa abrir mão dos critérios de juízo e valoração que diferenciam as espécies. Como diria Rolston (2007, p. 557) :

“A ética ambiental, a mais altruísta das éticas, leva em conta todos os outros organismos vivos. Isso de modo algum nega mudanças e graus de importância e valor. Dadas nossas necessidades biológicas, nós humanos também precisamos encontrar nosso caminho no mundo, e isso requer que defendamos a nós próprios (contra plantas venenosas) e apreendamos valores presentes em plantas e animais, para alimentação e abrigo. Os humanos fazem isso não só como agentes biológicos, mas como agentes morais. Temos, por assim dizer, um direito a comer. Também temos a responsabilidade de respeitar as vitalidades da fauna e da flora à nossa volta. Uma ética plena inclui todo organismo vivo”.

A questão se expande, mas segue insolúvel. O homem de hoje é responsável pela vida terrestre de amanhã? Faz diferença se as ações de agora prejudicarão a vida para daqui a cem anos? Há um impasse evidenciado nesse ponto. Mas uma possível saída para sua resolução parece estar contida em um termo basilar presente no próprio enunciado: vida.

ALTERIDADE ATIVA

Aquele que se sentir justificado a desconsiderar o valor da vida — seja a do presente, seja a do futuro –, também se sentirá justificado a ignorar os problemas ambientais. O imbróglio, abordado por essa perspectiva, parece de simples resolução. A indiferença frente à crise ecológica se resumiria, desse modo, a um reflexo da ausência de alteridade. Alteridade, portanto, seria um conceito-chave à ética-ambiental. E a indiferença, claramente, se opõe à alteridade.

A indiferença, nesse contexto, pode ser apenas mais uma manifestação da infantilização geral e regressiva que, segundo o filósofo francês Félix Guattari (autor do best seller “Ponto de Mutação“, que também virou filme), atinge a humanidade e implode a relação da subjetividade com a exterioridade (seja social, animal, vegetal ou cósmica). Mas se opor à alteridade não implica simultaneamente a negação da ética de forma mais abrangente. A indiferença, muitas vezes, parece ser uma escolha, uma opção de conduta, que parte de princípios inclinados à negação do outro.

A indiferença em relação às futuras gerações — e ao futuro como um todo — se resume a uma indiferença pela vida do outro. O que está em jogo, no fim das contas, não é o planeta. Pois, ao que tudo indica, o planeta deve continuar em órbita, com a mesma massa e tamanho de sempre — pelo menos enquanto o Sol não arregar ou der para trás. É o ser humano que corre o risco de deixar de existir — e parece disposto a levar consigo outras tantas espécies à extinção. Mas o homem é menor que o planeta. É intuitiva e perceptivelmente evidenciado: a Terra tem condições de prosseguir sem o ser humano, mas o ser humano não tem chance de prosseguir sem a Terra – pelo menos não por ora, pelo menos não fora da cabeça de autores como Isaac Asimov, Douglas Adams e outros.

O problema da entropia total do universo parece distante, mas a entropia parcial e artificial da natureza, aquela criada pelo próprio homem, está em andamento, embora ainda seja reversível – ao menos de acordo com dados mais otimistas — que já não são tantos assim. Porém, para o bem do próprio homem (principalmente o homem do futuro), seria bom torcer que o número de indiferentes não supere o daqueles que se importam. E àqueles que se importam, o exercício de uma práxis baseada na ética ambiental parece extremamente aconselhável. Lembrando sempre que a alteridade, nesse caminho de união entre teoria e prática, seria um conceito capital.

Apesar de tudo, no fim das contas, a indiferença frente aos problemas ambientais é uma opção tão questionável quanto tantas outras formas de comportamento. A extinção, ao que parece, se avizinha — seja daqui a cem anos ou daqui a dez trilhões. É compreensível (embora essencialmente questionável) que nem todos se assombrem da mesma forma — o que não necessariamente implica abandono de ativismo por parte dos mais alarmados entre os nossos. A alteridade é uma opção à indiferença, não uma imposição. Da mesma forma, a indiferença e o egoísmo (egoísmo não necessariamente pautado nos valores objetivistas do randianismo) estão disponíveis a quem não engole movimentos altruístas.

E para além desses já alongados parágrafos, para além dos problemas mais emergenciais, aos preocupados com a reversão da entropia total do universo, a resposta de MULTIVAC (que em determinado ponto do futuro ficou conhecido simplesmente como ‘AC’) segue disponível no âmbito do universo asimoviano:

“A matéria e a energia se acabaram e, com elas, o tempo e o espaço. AC continuava a existir apenas em função da última pergunta que nunca havia sido respondida, desde a época em que um técnico de computação embriagado, há dez trilhões de anos, a fizera para um computador que guardava menos semelhanças com o AC do que o homem com o Homem. Todas as outras questões haviam sido solucionadas, e até que a derradeira também o fosse, AC não poderia descansar sua consciência. A coleta de dados havia chegado ao seu fim. Não havia mais nada para aprender. No entanto, os dados obtidos ainda precisavam ser cruzados e correlacionados de todas as maneiras possíveis. Um intervalo imensurável foi gasto neste empreendimento. Finalmente, AC descobriu como reverter a direção da entropia. Não havia homem algum para quem AC pudesse dar a resposta final. Mas não importava. A resposta – por definição – também tomaria conta disso. Por outro incontável período, AC pensou na melhor maneira de agir. Cuidadosamente, AC organizou o programa. A consciência de AC abarcou tudo o que um dia foi um Universo e tudo o que agora era o Caos. Passo a passo, isso precisava ser feito. E AC disse: ‘FAÇA-SE A LUZ!’. E fez-se a luz.”

REFERÊNCIAS

ADAMS, Douglas. O Guia do Mochileiro das Galáxias. Tradução de Paulo Fernando Henriques Britto & Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Sextante, 2009.

ALMEIDA, Rogério. O trágico da existência na filosofia de Cioran. In: Religare 10 (1), mar. 2013: p.52-59.

ASIMOV, Isaac. A última pergunta.

CAPRA, Fritjof. Ecologia Profunda: um novo paradigma. In: A teia da vida. Tradução. Newton Roberval Eichemberg. São Paulo: Cultrix, 2006.

GUATTARI, Félix. As três ecologias. Tradução de Maria Cristina F. Bittencourt. Campinas: Papirus, 1990.

ROLSTON, Holmes. Ética ambiental. In: Compêndio de Filosofia. São Paulo: Edições Loyola, 2007: p. 557-571.