Rodrigo Van Kampen fala sobre o desafio de manter uma revista de contos

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
08/03/2017

Formado em jornalismo pela Unesp e morador de Campinas-SP, o escritor e redator publicitário Rodrigo Van Kampen, 30 anos, é o criador e organizador da Revista Trasgo, que já publicou em e-book 13 antologias de contos de sci-fi e fantasia, dando espaço a dezenas de novos autores.

Agora, a equipe coordenada por ele está com um projeto de expansão da Trasgo para outra plataforma: uma campanha de crowdfunding no Catarse que arrecada fundos para a publicação de uma edição impressa da revista, que incluirá três contos inéditos, além de uma seleção de alguns dos melhores textos já publicados em e-book.

Para saber mais sobre o projeto e fazer uma doação (com direito a recompensas especiais), clique no link abaixo:

> Página da campanha da Trasgo no Catarse

rodrigo van jampen trasgoA Taberna conversou com Rodrigo, por e-mail, sobre os desafios de escrever e editar o que outros escrevem, bem como sua relação com a literatura.

A Taberna: Quando começou sua paixão pela leitura? E pela literatura de ficção científica e fantasia em especial? Com que idade e com que obra se deu o estalo?

Rodrigo Van Kampen: Minha mãe é uma leitora voraz de fantasia, então acho difícil dizer quando comecei a ler. A resposta é a tradicional “desde sempre”. Ficção científica é uma paixão mais recente, tem seis ou sete anos. Tenho um carinho por “A Senhora do Trílio”, de M.Z. Bradley. Não é um grande livro, admito, mas é um livro que li bem novo, que me mostrou tudo o que era possível fazer na literatura de fantasia.

A Taberna: Quais os seus gêneros favoritos?

Rodrigo: Sou grande leitor de fantasia e ficção científica em geral. Mas não tenho muita paciência para grandes épicos, prefiro FC e Fantasia urbana, que lidam com os pequenos conflitos pessoais e cotidianos dos seus personagens em um cenário incrível. Dito isso, não fico apenas dentro de um gênero, vario bastante as minhas leituras.

A Taberna: Quais são seus autores e obras favoritos?

Rodrigo: Essa pergunta sempre quebra as minhas pernas. Mas posso citar Terry Pratchett (O Senhor da Foice) e Neil Gaiman (O Oceano no Fim do Caminho), dos quais praticamente não li nada que me desgostou até hoje. Mas também gosto muito de Marion Zimmer Bradley (As Brumas de Avalon), Ursula Le Guin (A Mão Esquerda da Escuridão) e Octavia Butler (Bloodchild). Para puxar os brasileiros, fico com Érica Bombardi (Além do deserto), Felipe Castilho (O Legado Folclórico), Eric Novello (Amores, Exorcismos e uma Dose de Blues), Jim Anotsu (Rani e o Sino da Divisão) e Alliah (Metanfetaedro).

A Taberna: Com que idade você começou a escrever? E a publicar?

Rodrigo: A resposta também é “desde sempre”. Tenho um pequeno troféu de um concurso escolar de contos, que ganhei quando estava na quarta série. Agora, comecei a escrever “de verdade” durante o ensino médio, com um breve hiato durante a faculdade. O primeiro livro foi uma autopublicação, um livreto de 60 páginas com contos, que até tenho algumas edições em casa, mas não mostro para ninguém, são bem medíocres. Passada essa fase inicial, posso considerar minhas primeiras publicações sérias os contos que saíram pelas editoras Draco, na coletânea Futebol, e Aquário, na coletânea O Outro Lado da Cidade. Além disso e outros contos publicados, também tenho uma novela chamada Trabalho Honesto.

A Taberna: Quando e como surgiu a ideia para o lançamento da Trasgo? Como foi colocar o projeto em prática?

Rodrigo: Em algum momento de 2013, eu comecei a ter maior contato com as revistas de contos americanas, como a Lightspeed Magazine, Tor.com e outras. E me perguntei por que não tínhamos projetos semelhantes no Brasil. Sempre gostei muito de contos, de ler e escrever, e não tínhamos espaços apropriados e com curadoria forte para apresentá-los. O que havia era muita autopublicação, o que se torna “terra de ninguém”, fica difícil separar o material de qualidade lá no meio.  Da ideia à primeira edição, foram seis meses.  No início, fiz tudo sozinho, aos poucos foi aparecendo mais gente para ajudar.  A equipe não é a mesma desde o início, mas o Enrico Tuosto e o Rafael Ferraz estão há mais de dois anos na equipe fixa. Somos, então, em três pessoas. Mas também preciso citar os mais de 50 padrinhos e madrinhas e mais de 70 autoras e autores, sem os quais a revista não teria forças para existir.

Trasgo 10 - CapaA Taberna: Como foi a escolha do nome da revista?

Rodrigo: Pensei em três nomes apropriados, fiz uma pesquisa rápida com uns amigos, e pronto. Trasgo é uma criatura do folclore, mas nada impede que seja uma nave, um planeta. É um nome forte e fácil.

A Taberna: O projeto dá retorno financeiro? Quais as principais fontes de financiamento?

Rodrigo: A Trasgo, hoje, remunera todas as pessoas envolvidas, editor, revisores, capista e principalmente autores, que recebem uma porcentagem da arrecadação da revista. No fim, o valor é baixo, cerca de 100 reais por edição para cada uma. É um projeto que traz uma imensa felicidade, mas definitivamente não paga as contas. (Pelo menos não precisamos mais tirar dinheiro do bolso para investir nisso, o que já é uma grande vitória!)

A Taberna: Quais as principais dificuldades dessa empreitada?

Rodrigo: Nossa, várias. Eu poderia passar horas falando aqui. Montar a Trasgo é trabalhoso. É um trabalho braçal que não pode ser automatizado, que envolve ler todos os contos enviados (cerca de 100 a 200 por edição), escolher seis para a publicação, fazer leitura crítica e revisá-los. Depois, ainda temos que montar os e-books, preparar a publicação para o site, além de detalhes de logística, como pedir as biografias, fotos e afins. Sem falar no trabalho em manter a divulgação ativa, principalmente no Twitter e Facebook, que hoje fica mais na mão da equipe. E começa tudo de novo a cada três meses.

A Taberna: Quem participa da comissão que avalia os contos? Como se dá a definição dos textos que entram em cada revista?

Rodrigo: Não é exatamente uma comissão. Nós três da equipe lemos e escolhemos os favoritos. Nós tentamos manter uma diversidade em cada edição, entre autoras e autores, e entre ficção científica e fantasia. Fora isso, não existem regras estritas, nós buscamos a boa literatura de gênero, e escolhemos os nossos favoritos a cada edição.

A Taberna: O envio de contos tem aumentado? Como tem sido, de modo geral, a qualidade do material recebido?

Rodrigo: O envio de contos tem aumentado aos poucos. Às vezes, fazemos campanhas para recebimento de contos, quando o volume aumenta. No entanto, a Trasgo está sempre aberta a submissões, é só enviar o material pelo site.  A qualidade flutua, em algumas edições recebemos muito material ótimo, em outras nós ficamos em dúvida apenas entre os dois ou três contos finais. De maneira geral, acho que a escrita está no caminho certo, mas tem muito a melhorar.  Acho que o maior problema é quando o autor tem pressa, e envia um conto que não passou por uma boa revisão, por uma leitura beta, ou seja, ainda não  está “pronto”.

A Taberna: Qual a edição que teve maior sucesso até hoje?

Rodrigo: Não acompanhamos as estatísticas tão de perto. De modo geral, os favoritos dentre o pessoal que resenha a Trasgo varia imensamente, quase não há consenso. O que achamos ótimo, já que a ideia é fazer uma revista com um pouco para todo mundo.

A Taberna: Quando surgiu a ideia para a Trasgo impressa? Quais critérios foram usados na seleção dos contos que estarão na antologia?

Rodrigo: A Trasgo impressa é um desejo antigo. A revista, sendo somente eletrônica, tem um alcance limitado, já que a leitura digital não tem um público tão amplo no país. No entanto, imprimir é caro e exige uma certa logística de distribuição do material.  A solução foi fazer um livro com todo o material do primeiro ano da revista, foi esse o recorte.  Para colocar uma novidade, acrescentamos três contos escritos pela nossa equipe, inéditos. No fim, é muito material, são mais de 350 páginas do melhor da FC e Fantasia escrita por aqui.

A Taberna: É o primeiro projeto de crowdfunding envolvendo a Trasgo (sem contar o Padrim)?

Rodrigo: Sim, é a primeira vez que tentamos algo parecido.

A Taberna: Como está sendo a rotina de promoção da campanha? O retorno está de acordo com o esperado?

Rodrigo: Estamos investindo muito na promoção da campanha, para conseguirmos viabilizar essa edição. O retorno tem sido muito bom, nós já passamos da metade da meta, mas o tempo está acabando. Nós precisamos agora da ajuda de todos os que conhecem a Trasgo para que nos ajudem a divulgar a campanha, que tragam um amigo para colaborar também, que compartilhe em suas redes sociais. Nós temos bastante esperança e chance de conseguir atingir a meta, mas vai ser uma batalha acirrada, cada centavo, cada apoiador conta.

A Taberna: Quais os projetos para o futuro da Trasgo após essa campanha?

Rodrigo: Nós temos muita coisa na manga! A principal meta é manter o ritmo de uma edição a cada trimestre, que mantemos fielmente desde o primeiro número. Mas também queremos investir em projetos paralelos, como um podcast dos contos narrados, por exemplo. Só precisamos organizar nosso tempo e foco para fazer tudo isso acontecer. Se conseguirmos mais gente nos apoiando no Padrim, também existe a chance de a Trasgo ganhar uma edição extra por ano!

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Para saber mais sobre a revista, colaborar com o projeto e acessar as edições da Trasgo, visite o site oficial:

> trasgo.com.br