Encontro com Rama: Clarke nos leva a explorar um mundo fantástico

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
21/03/2019

O livro Encontro com Rama (atualmente editado no Brasil pela Aleph), de Arthur C. Clarke, é uma espetacular demonstração do gênio inventivo e da grande habilidade do escritor britânico como contador de histórias instigantes e intrigantes.

Publicado em 1972, o romance, como é praxe em se tratando das obras de Clarke, é ambientado em um contexto futuro crível e coerente, um universo de elementos bem amarrados.

Encontro com Rama, como tantas outras histórias do autor, aborda o primeiro contato da humanidade com inteligências extraterrestres – no caso, com uma gigantesca espaçonave cilíndrica que passa pelo Sistema Solar com destino e propósitos ignorados. A bordo da nave Endeavour, a tripulação liderada pelo Comandante Norton realiza um “rendez-vous” com o bólido espacial (o título original do livro é Rendezvous With Rama) e Clarke nos leva junto com os astronautas na exploração de um mundo misterioso e deslumbrante.

UM CENÁRIO VEROSSÍMIL E CIENTIFICAMENTE ACURADO

Todos os que acompanham histórias de ficção científica – ou debates sobre o futuro da exploração espacial – sabem que o uso (ou não) de gravidade artificial a bordo de espaçonaves é uma das questões fundamentais a serem resolvidas na conquista do espaço.

Uma das soluções clássicas para gerar a sensação de gravidade em espaçonaves é o uso da aceleração centrífuga (aquele conteúdo de Física que a gente estudou no Ensino Médio mas não sabia direito para que servia porque nenhum professor pensou em passar um bom filme de scifi para ilustrar). O conceito é lindamente simples: a tal “força centrífuga” (que um dos personagens cientistas do livro de Clarke insiste em dizer que não existe; ele chama apenas de “inércia”) faz com que qualquer corpo no interior de um cilindro giratório seja empurrado em direção às paredes. É o que comprime nossas roupas molhadas contra as paredes furadas do cilindro da máquina de lavar – e é o que, no ambiente sem gravidade do espaço, permitiria que astronautas praticassem sua corrida matinal numa boa:

Clarke, aliás, como demonstra o frame acima, é um dos pioneiros na introdução desse conceito na ficção científica, já que ele é autor, em parceria com cineasta Stanley Kubrick, da história de 2001: Uma Odisseia no Espaço, que no final da década de 60, apresentou uma estação espacial circular giratória e uma nave com um habitat em formato “roda de hamster”, o que justificava com rigor científico a presença de pessoas caminhando tranquilamente em meio à gravidade zero do espaço.

Rama, um cilindro giratório de cinquenta quilômetros que contém em si um mundo inteiro, é tão grande que a própria curvatura da parede é difícil de ser percebida por quem por ela caminha. Numa analogia apresentada pelo próprio Clarke, o chão infinito de Rama parece tão plano quanto a parede interna de uma garrafa parece uma planície para uma formiga que por ela caminhe.

Depois de entrar pela escotilha no centro do polo norte do cilindro, a tripulação depara com um microcosmo aparentemente morto e mumificado pelo longo tempo singrando a gelada vastidão do espaço. Rama seria, para frustração inicial dos exploradores da Endeavour, um sarcófago itinerante, carregando para sempre os restos mortais da civilização que a construiu.

No entanto, à medida que o gigantesco cilindro se aproxima do Sol e sua parede de um quilômetro de espessura gradualmente permite que a radiação e o calor tenham efeitos sobre o interior, Rama desperta, para estupefação dos astronautas e do leitor que os acompanha. É aqui que entra em cena o supracitado gênio inventivo de Clarke. Com sua prosa elegante e didática, o autor nos insere nos mistérios de Rama.

Criar um mundo alienígena completamente alheio aos nossos referenciais é um desafio a qualquer contador de histórias. Como agregar elementos que possam ser reconhecidos por olhos terráqueos sem que a cultura alien fique parecendo forçosamente antropomórfica?

Clarke se sai muito bem na tarefa. Sua descrição do microcosmo de Rama é equilibrada na relação entre estranhamento e familiaridade. Lá estão coisas que reconhecemos, como o oxigênio no ar, luzes artificiais, o assombroso Mar Cilíndrico, estruturas que se assemelham a cidades e até uma curiosa fauna especializada. Mas persistem mistérios que nem o final do livro responde (o romance, com desfecho em aberto, é o início de uma mini-saga que teve outros títulos publicados por Clarke, em parceria com Gentry Lee): quem são, onde estão e quais são os objetivos dos ramanos? Qual a função das curiosas estruturas encontradas pelos astronautas? Qual é a origem da gigantesca espaçonave e qual o seu destino? E como funciona o seu mecanismo de propulsão?

Como é característico de outras belas obras da ficção científica, Encontro com Rama apresenta mais perguntas que respostas. É uma experiência de contato com o improvável e com o inesperado, de contemplação e assombro. Isso, aliás, ajuda a garantir a atualidade e a perenidade da história.

O FATOR HUMANO

Um outro ponto em que Clarke consegue, com grande competência, evitar que o seu livro fique datado, é o contexto geopolítico que permeia o enredo.

Publicado em plena Guerra Fria, quando havia o justificado temor de que uma guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética inviabilizasse qualquer esperança de um futuro para  a humanidade, Encontro Com Rama se passa num futuro em que a raça humana superou as divisões no âmbito planetário e colonizou quase todas as regiões do Sistema Solar.

Não que as tensões políticas não tenham sido transpostas para o espaço. A autoridade oficial da vizinhança sideral, a PU (Planetas Unidos), inspirada na ONU, é uma instância de poder que muitas vezes fica impotente diante de colônias isoladas como o governo do planeta Mercúrio, uma belicosa e espartana comunidade que, graças à abundância de minérios e energia do seu pequeno planeta, detém grande poder militar.

Norton, o comandante da Endeavour, um admirador do explorador James Cook (o navegador que descobriu tantas terras a bordo do navio que empresta o nome à nave do livro), tenta se colocar acima dos interesses políticos e da tensão que acompanham a passagem de Rama pelas cercanias do Sol.

O veterano astronauta também evita ser um mau visitante, buscando explorar Rama sem destruir ou comprometer a sua estrutura. Nomeado fortuitamente um embaixador cultural da humanidade no primeiro contato com visitantes das estrelas, Norton tenta deixar uma boa impressão da nossa espécie, e Clarke se vale dessa situação para discutir, en passant, o tema de uma ética do cuidado.

O final do livro que conta este primeiro contato com os ramanos, que poderia à primeira vista parecer um anticlímax pela ausência de explicações e de grandes revelações, casa perfeitamente com a proposta de Clarke e pode ser considerado o desfecho ideal para a trama do capítulo inicial: se Rama é um mundo andarilho, contemplar sua passagem já é para nós um fim em si mesmo.