Duna, de Frank Herbert: um feliz casamento de forma e conteúdo

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
03/01/2019

O livro Duna, de 1965, romance que funda a cultuada saga espacial de Frank Herbert (no Brasil, a série é editada pela Aleph), é uma daquelas obras literárias em que a forma é tão importante quanto o conteúdo. A história complexa é contada de um jeito instigante e envolvente, em que o autor-narrador nos trata como se fôssemos íntimos daquele universo coeso e bem construído.

Duna, a despeito de ser ambientado em um Império galáctico situado milênios no nosso futuro, é uma clássica história de capa e espada, uma space opera que transita entre a ficção científica e a fantasia, um épico sobre Casas nobres e seus feudos, sobre a disputa pelo trono imperial – e é, talvez em primeiro lugar, um conto sobre religião e misticismo.

OS PILARES QUE SUSTENTAM UM RICO UNIVERSO

O enredo central de Duna repete uma clássica fórmula de sucesso em romances épicos: o jovem Paul, primogênito dos Atreides, perde o pai, assassinado em um complô arquitetado pelos Harkonnen, uma Casa nobre rival, e, proscrito, busca o apoio dos fremen, um indômito povo do deserto, para tentar vingar a morte do Duque Leto e conquistar o trono do Imperium (e aqui não incorro em spoilers porque o próprio Frank Herbert narra a história antecipando, por meio de lampejos proféticos, o que acontecerá no decorrer e mesmo ao fim da trama).

Num futuro longínquo, em que a humanidade colonizou a galáxia e esqueceu a Terra, estabeleceu-se um império que domina a vastidão do espaço, num contexto marcado pela tensão entre diversos atores:

:: A autoridade imperial, personificada pelo imperador-padixá Shaddam IV, da Casa Corrino, senhor do planeta-prisão Salusa Secundus, onde são recrutados e treinados os Sardaukar, formidáveis guerreiros que fazem as forças imperiais serem consideradas imbatíveis.

:: As Casas nobres que compõem o Landsraad e que controlam planetas inteiros como feudos. As mais proeminentes no romance são a Atreides do planeta Caladan, encabeçada pelo Duque Leto, e os Harkonnen de Giedi Primo, seus inimigos, que têm como líder o Barão Vladimir.

:: A Companhia CHOAM, uma empresa multiplanetária que tem as Casas nobres como acionistas e que controla o comércio do mélange, a valiosíssima especiaria que é o centro da economia imperial.

:: A Guilda Espacial, poderosa corporação que detém o monopólio das viagens interplanetárias.

:: As Bene Gesserit, misto de ordem religiosa e organização de ensino, que atuam tanto no auxílio das Casas quanto em prol de seus próprios objetivos: um programa de melhoramento genético por meio de reprodução cruzada de filhos da nobreza, visando a gerar o Kwisatz Haderach, o encurtador de caminhos, uma espécie de Messias capaz de vencer o espaço e o tempo.

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Duna, como já dito acima, é tanto uma space opera quanto um romance de capa e espada, e isso só soa verossímil porque Herbert tramou um complexo pano de fundo para sua história.

Os guerreiros lutam usando facas e espadas por ser uma era em que todos utilizam escudos corporais formados por campos de força que tornam inúteis as armas lançadoras de projéteis. Entretanto, esses escudos são vulneráveis à penetração de objetos a baixa velocidade, como uma facada ou um golpe de espada, e assim está justificada a escolha do autor por essa forma de combate singular tão tradicional e estilosa.

Veja também:

:: O universo de Duna em belas imagens de Mark Molnar

Os equipamentos de proteção individual também desencorajam o uso de “armaleses”, projetores de laser que podem causar explosões de magnitude nuclear se seus raios colidirem com escudos ativos, devido ao que Herbert chama de “efeito Holtzmann”.

Por fim, a manutenção dos combates no nível cavalheiresco dos épicos medievais se dá também pela chamada “Convenção”, o acordo assinado pelas Casas para banir as armas nucleares dos conflitos entre membros do Landsraad.

Não apenas na questão bélica a narrativa de Duna se assemelha aos clássicos de capa e espada. Também não há no romance, a despeito de se passar num futuro distante, computadores e máquinas inteligentes. O narrador nos conta que as máquinas pensantes foram destruídas e proibidas milênios antes dos eventos do livro, no chamado “Jihad Butleriano”, de sorte que toda computação é feita pelos Mentat, homens treinados desde a infância para atuar como conselheiros dos líderes e que são, na prática, máquinas humanas de cálculo de probabilidades e derivações lógicas.

As “bruxas” Bene Gesserit, com suas habilidades físicas e mentais adquiridas em anos de treinamento, também atuam como conselheiras, tutoras/professoras e “proclamadoras da Verdade” (detectoras de mentiras).

UM DESERTO QUE É UM PLANETA

O controle sobre a produção e o comércio de mélange (comumente chamada apenas de “a especiaria”) é de vital importância para o funcionamento do Império, não apenas pelas propriedades geriátricas e prolongadoras da vida da substância, mas sobretudo pelos poderes de presciência adquiridos com a ingestão, o que é fundamental para que os pilotos da Guilda Espacial consigam conduzir as naves no complicado voo interestelar. Sem especiaria, sem Império.

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E a especiaria só floresce em um único lugar da galáxia: o inóspito planeta Arrakis, chamado de “Duna” pelos nativos, um mundo desértico com um equilíbrio ecológico muitíssimo peculiar.

O oceano de dunas de Arrakis é dominado por uma titânica criatura: o verme de areia, chamado de Shai-Hulud e adorado como um deus pelos fremen, o povo do deserto. Os vermes de areia e sua forma larval, as trutas de areia, são os desencadeadores do ciclo que leva à eclosão da especiaria. Colher a substância é uma arriscada operação cujo principal passo é evitar ser devorado por vermes de areia, e mesmo com o monopólio da Companhia Choam e a mobilização de forças de segurança oficiais, contrabandistas se aventuram nas areias arrakinas para tentar lucrar com o mélange.

Veja também:

:: Shai-Hulud: concepções artísticas do verme de areia de Duna

A narrativa de Duna começa com a mudança da Casa Atreides para Arrakis, para assumir o controle do planeta por ordem imperial, em meio a um complô arquitetado pelo Barão Vladimir Harkonnen para assassinar o Duque Leto e aniquilar a família rival.

Os Atreides, simbolizados pela águia em um estandarte verde, são suseranos considerados austeros, justos e leais aos seus súditos, o que granjeia uma fidelidade incomum dos membros da Casa, dos quais os mais destacados são o velho Mentat Thufir Hawat e os guerreiros Duncan Idaho e Gurney Halleck.

Após o assassinato de Leto, acompanhamos a fuga de Paul, seu filho adolescente, para as profundezas do deserto de Arrakis. Ao lado da mãe, Lady Jessica, uma concubina Bene Gesserit que desobedeceu a Irmandade para tentar fazer do seu filho o Kwisatz Haderach, Paul se une ao povo fremen e, ao experimentar os poderes da presciência, enfrenta o destino de liderar a conquista do império.

Inspirados, tanto nos costumes quanto na linguagem, em povos do deserto como os hebreus e os árabes, os fremen tiveram seu modo de vida e sua visão de mundo moldada pelas terrivelmente austeras condições de vida em Arrakis, o planeta que adotaram como lar após vagarem, como párias do espaço, por outros sistemas estelares.

Profundamente religiosos e supersticiosos, e com um forte senso de comunidade, os fremen são adaptados à ecologia do planeta e são os únicos que conseguem sobreviver no deserto profundo, graças à tecnologia que desenvolveram para aproveitar toda água possível: utilizam roupas chamadas trajestiladores, que reciclam toda a umidade exalada pelo corpo (urina, suor, até a respiração) para ser bebida pelo usuário; quando acampam no deserto dormem em tendestiladoras, vedadas para aproveitar a umidade do ar; usam coletores de vento para condensar qualquer resquício de umidade do ar e chegam ao cúmulo de aproveitar os fluidos presentes nos cadáveres (nosso corpo é cerca 70% água) por meio do processamento nas chamadas “destilarias fúnebres”.

É em meio aos fremen que Paul Atreides encontra seu lar e sua vocação para a liderança. Tornado comandante supremo e venerado como um deus, adota o nome Muad’Dib, em homenagem a um roedor do deserto, e, com a força dos poderosos guerreiros de Arrakis, busca a vingança e a conquista do do império.

UMA PROSA INTRIGANTE, UM UNIVERSO DE MISTICISMO

Duna não é um livro leve e fácil de ler. Autorreferencial e propositalmente enigmático, o texto de Frank Herbert se dá a conhecer aos poucos, com uso e abuso de neologismos que não são explicados de primeira. O autor parece falar para iniciados nos mistérios do universo que criou, o que gera uma cumplicidade com o leitor e uma recompensa a cada vez que o sentido de um termo ou expressão é desnudado.

Assim, vamos nos acostumando, à medida que somos capturados pela história, a compreender expressões como gom jabbar, kanly, dagacris, Missionaria Protectora, bled, sietch, criador, zen-sunita, alam al-mithal, naib, etc. O uso corriqueiro dessas expressões evita o didatismo que acomete certos autores e garante autenticidade aos diálogos – sem prejuízo da compreensão da trama pelo leitor.

Além disso, Herbert teceu para a narrativa de Duna um grosso pano de fundo de lendas, cânones religiosos e profecias. A história da edificação do império galáctico, com a sacramentação dos dogmas na Bíblia Católica de Orange, as menções sempre enigmáticas ao Jihad Butleriano e à peregrinação cósmica dos fremen, a semeadura espiritual das Bene Gesserit, as citações de obras fictícias que abrem cada capítulo são todas blocos sólidos que o autor utiliza para edificar sua vultosa obra.

Ao evoluir espiritualmente nos caminhos da presciência, na sua leitura acurada dos sentidos do Tempo, o protagonista Paul/Muad’Dib reflete sobre o lugar do homem no universo e nos leva junto em suas indagações metafísicas.

Um ponto que, a princípio, me causou algum estranhamento foi justamente a importância da religião para as personagens. “Como é possível que uma sociedade acostumada ao voo interestelar seja tão dependente de mitos e dogmas religiosos?”, me perguntei. Em um epílogo atribuído a um narrador inserido na linha do tempo e no universo em que se passa a história, Frank Herbert explica sua escolha pela centralidade da religiosidade na narrativa de Duna. E diz que, longe de afastar as pessoas da senda da religião, a colonização do espaço as aproxima do místico. Num contexto em que se pode, pelo transe do mélange, enxergar o entrelaçamento dos fios do tempo e contemplar os rumos ainda não traçados do devir humano, como tirar a razão do autor?

Essas questões envolvendo a relação da humanidade com o universo e com o divino são melhor desenvolvidas nas sequências do livro. Mas isso já é tema para outros posts.