Conto: O túmulo no topo da última colina

Gustavo Kaspary
Por Gustavo Kaspary
31/10/2015

A janela do quarto garantia a vista para o cemitério da colina. De dia, a iluminação que entrava em meu recinto não se fazia suficiente para uma boa imagem de tamanha paisagem mórbida. Porém, ao raiar do último brilho solar, ao nascimento da primeira estrela, no exato instante em que o luar atingia seu apogeu, a visão do túmulo na parte mais alta da colina era a mim concedida.

Tal fenômeno, ao menos, ainda é possível ser explicado racionalmente: atrás do mais elevado túmulo, no topo da última colina do vale, descansava o mais belo salgueiro de todo o relevo da Inglaterra. Suas raízes tão profundamente entravam no solo e tão grande era seu tronco que eu não arriscava dizer sua idade. Sua escala, portanto, era de tamanha proporção que a façanha de obscurecer o túmulo através de sua sombra parecia fácil, fazendo com que um viajante mal informado concluísse que o topo da colina era nu. Conclusão errônea, posso garantir.

Escrevendo agora, percebo, embora tarde demais, que meu pavor irracional pelo túmulo não era um sentimento que surgira de maneira repentina. À mercê da bela paisagem proporcionada pelo salgueiro, já havia planejado diversas vezes uma visita ao topo da colina para, talvez, uma leitura sossegada sob a sombra da grande árvore. Estas viagens, entretanto, jamais foram realizadas (ao menos para tal propósito) e, na época, culpava a falta de tempo, sem saber que no fundo de meu subconsciente o medo pela estrutura feita de mármore já havia corrompido minha mente.

Como uma pequena brasa sorrateira que se esconde sem ser vista e que acaba por derivar um grande incêndio, a fobia só me foi revelada de maneira não proposital.  Vez que outra, pegava-me escrevendo, sem consciência, tal qual um homem que dorme acordado e não tem ciência de seus atos, sempre a mesma palavra. E, após o fazê-lo, dirigia-me o mais rápido possível até a janela de meu quarto para observar o túmulo acima da colina, temendo que ele já não mais estivesse lá. Nas vezes em que o estranho fenômeno ocorria durante o dia, impossibilitando uma contemplação necessária de meu sagrado totem, passava o restante do pós-pôr-do-sol inquieto. Ai de mim! Minhas mãos tremiam e dificilmente conseguia manter-me de pé sem um pequeno esforço. Quando finalmente o crepúsculo chegava e uma visão plena de meu túmulo era finalmente brindada a mim, sentia um êxtase inexplicável e via com conforto meus sentidos voltarem ao normal. Esse entusiasmo, porém, era seguido de um pânico ainda mais irracional.

A cada dia que se passava, mais tempo ficava a observar a colina. Se fizesse Sol, esperava ansiosamente a noite. Se a Lua já estivesse brilhando, aproveitava cada segundo admirando a elevação da colina que levava ao topo. Gostava de me imaginar, enquanto olhando pela janela, caminhando, sempre para cima, subindo o caminho ao topo, até poder ver, sem a necessidade de luz lunar, o túmulo banhado pela sombra do velho salgueiro. Não foram poucas as vezes em que, levado pela impetuosa imaginação, realmente cria estar a poucos passos da lápide. Não é preciso dizer que, quando me dava conta de que continuava imóvel dentro de minha casa, o desespero e o medo tomavam-me por completo.

Aconteceu que, em determinado dia, enquanto ansiava pela escuridão ao encontro de minha janela, uma pequena luz apareceu subitamente no topo da colina. Claramente, tratava-se de uma vela e, quem quer que a erguesse naquele momento, estava a observar o túmulo. Pouco a pouco, a chama de curiosidade deu lugar ao mais insensato sentimento de inveja. Afinal, mesmo receando até mesmo cogitar uma visita ao cemitério, havia-me aficionado ao túmulo de tal forma que o pensamento de outra pessoa o reverenciando inflamava um ódio visceral em minha alma. Decidi-me, portanto, subir a colina até seu topo o menos tardar possível.

Toda noite, entretanto, voltava a ver a luz piscando radiante colina acima. Lembro-me bem, hoje, que esta época fora a mais intolerável. A vela acesa, a noite que tardava a chegar, o túmulo que me observava e a impossibilidade de subir o caminho até o topo me fornecia uma dor mesclada com desespero e ódio. Segundo vagas recordações, minha governanta afirmava que, em súbitos ataques de sonambulismo, tentava a todo custo deixar a casa para sabe-se lá o quê, como ela dizia.

Eis que, exatamente em um 31 de outubro, minha memória não falha, a vela não tornou a ser acesa e o túmulo fazia-se visível com as estrelas e o luar, apenas. Finalmente, delirava eu, o caminho está acessível.

Já havia preparado todos meus condimentos (o que incluía uma pá para poder cavar o local, apenas) quando a tempestade começou. A Lua e os astros deram lugar, da maneira mais repentina possível, a extensas e abundantes nuvens cinzentas. Não se via mais sequer ponto no céu que não fosse acinzentado e, com um ritmo cada vez mais crescente e barulhento, a chuva se fez aparente. Vez que outra, era possível ver trovões clareando, por poucos segundos, os céus. O chão de terra batida tornava-se já um emaranhado de lama no momento em que, com o trovão que caíra mais próximo de minha casa, o velho salgueiro entrou em chamas.

Não ligava eu para tempestade ou salgueiro incendiando, vez que o fogo agora iluminava o túmulo de uma maneira que ele nunca fora antes. Abri a porta e pude ver o começo da colina. Já estava dando os primeiros passos cambaleantes quando uma mão me puxara para trás, impedindo meu avanço. Não me esqueço do horror estampado no rosto de minha governanta ao implorar para que eu não saísse durante o temporal, e menos ainda quando, em um movimento súbito, ataquei-a com minha pá. Tirei a vida de um inocente e selei meu destino no exato momento: não iria demorar para que, graças à ausência da governanta, a sina da pobre moça fosse revelada.

Obviamente, não senti remorso algum e nem ao menos olhei para trás. Nada racional ainda restava em mim, e o caminho da colina até o túmulo já estava à minha frente. Foi um longo e árduo percurso, levando em conta de que quem o seguia caminhava como alguém em extremo estado de delírio. Por fim, o túmulo estava à minha frente, com o salgueiro em chamas atrás.

Hoje, sequer penso sobre estes assuntos durante grande parte do dia. Onde vivo e convivo com esses pensamentos agora passados ao papel, não há janelas, salgueiros ou qualquer sinal de túmulo. Abdico, da forma mais cética possível, do que quer que tenha visto ou testemunhado naquele dia, pois são poucas as vezes em que um homem opta por não acreditar naquilo que seus sentidos lhe dizem.  Mas, se fechar os olhos e me concentrar o mínimo que seja,  ainda posso ver a colina com a grande árvore e a maldita lápide, escondendo o que quer que seja no seu interior, repousando em seu topo tal qual os corvos.