Conto: Fugindo para a morte

Senhor D
Por Senhor D
31/10/2015

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A história que vou contar agora aconteceu há bastante tempo, em um lugar não muito distante. Era um dia nublado de Halloween, como hoje, e o bairro daquela pequena cidade estava toda enfeitada de abóboras sorridentes, esqueletos de plástico e teias de aranha feitas com algodão desfiado.  As casas da vizinhança exibiam a decoração a rigor, com exceção de uma, a da família Robinson.

Enquanto as crianças do bairro aguardavam ansiosamente o início da caça aos doces, os Robinsons se preparavam para partir. Dentro do carro, a família se acomodava completa: o pai, a mãe, a filha adolescente, o bebê e o cachorro. Pelo retrovisor, a imagem da casa trancada desaparecia conforme se afastavam. Era certo que a propriedade seria alvo de traquinagens da garotada naquela noite. Não que se importassem, só queriam estar longe quando chegasse a noite que consideram a mais insuportável do ano.

* * *

A viagem seguia tranquila,  com meio caminho já percorrido. Não tardariam em chegar ao destino, provavelmente antes do anoitecer, como planejaram. Acomodados na velha perua, eram o retrato de uma família tradicional e feliz. O pai conduzia com cautela e prazer. A mãe cantarolava as músicas que o rádio tocava, baixinho para não acordar o pequeno que dormia no banco de trás, em sua cadeirinha especial. A filha mantinha o rosto colado no vidro da janela, olhando a paisagem ao som dos fones de ouvido. Entre ela e o bebê, se aconchegava o cãozinho marrom, peludo e preguiçoso que tinham de estimação.

Tudo corria bem, até que, de repente, um barulho no motor reclamou a revisão não realizada.  A fumaça que se esgueirava pelo capô dava indícios da gravidade. Aquele veículo não andaria nem mais um quilômetro.

* * *

O desenrolar de uma série de coincidências improváveis é o combustível das histórias mais fantásticas. Infelizmente para os Robinsons, nem sempre essas coincidências são boas. Enquanto a mãe embalava o bebê, na tentativa de acabar com o choro de sono interrompido, e o pai tentava, inutilmente, consertar o irreparável, a filha adolescente contabilizava as desventuras: “Primeiro o carro estraga neste fim de mundo, depois a gente descobre que não tem sinal de celular na região e, por último, o Tobby corre para o meio do mato e desaparece. Isso só pode ser um pesadelo”, pensou ela antes de avistar a nuvem escura e cheia de más intenções que vinha escondendo o azul do céu.

* * *

Era uma tempestade daquelas. Escondidos dentro do carro, os Robinsons sentiam o chacoalhar do veículo pela ventania – ao menos a suspensão estava boa, puderam verificar pelo balanço da lataria. A escuridão da noite só era perturbada pelo brilho dos relâmpagos, que cortavam o céu e urravam de uma nuvem para outra. As tentativas da mãe de tranquilizar a todos relembrando fatos divertidos do último Natal não estavam surtindo efeito. Estavam com medo, com fome e cansados. Aquilo não deveria estar acontecendo.

* * *

Todos gritaram de susto ao ver aquela figura parada do lado de fora do carro. Não tinham visto o homem chegar, de modo que só notaram sua presença quando ele bateu na janela do motorista. Encharcado, o estranho vestia um capuz escuro e segurava um guarda-chuva capenga. Era impossível identificar seu rosto, apenas a silhueta se desenhava entre um trovejar e outro.

Se os Robinsos não estivessem com tanto medo, jamais teriam entrado naquela caminhonete. Muito menos teriam aceitado passar a noite na casa de um estranho mal encarado. Mas estavam apavorados, continuavam cansados, com fome e, agora, também com frio. E ainda tinha o bebê. Eles temiam pelo bebê.

Por todas essas razões, aceitaram a carona, o jantar e o teto.

* * *

Depois da refeição de cardápio humilde, ainda à mesa iluminada por um único e esforçado lampião, agradeceram ao anfitrião pela ajuda e hospitalidade. O homem apenas mexeu a cabeça, de forma sutil, quase imperceptível. Apesar de todo apoio, os Robinsons não pareciam à vontade na companhia do estranho. Talvez fosse expressão rude, talvez fosse a cicatriz que dividia o rosto, talvez fosse a roupa surrada, talvez fosse sua imponência ou o mau humor aparente. Também poderia ser o excesso de pelos nas narinas e nas orelhas ou as sobrancelhas coladas. Não sabiam bem o que era, mas não confiavam plenamente nele.

20151031_154003A casa também não ajudava a tranquilizar. Era uma construção grande, com dois andares e uma escada interna, mas estava em ruínas. Ali, naquela residência, as teias de aranha não eram de algodão desfiado. Essas teias de aranha, que se emaranhavam junto ao pó de todos os cômodos, vinham de apenas um lugar: da bunda das aranhas.

Sem energia elétrica por causa do temporal, o homem levou de castiçal em riste os Robinsons até o quarto. A luz bruxuleante das velas deixava o ambiente ainda mais sombrio e apavorante. “Teria sido boa ideia?”, pensavam em coro.

Com um “boa noite” sem nenhum rastro humanidade, o estranho se despediu, deu as costas e desceu a escadaria com seus cerca de cem quilos divididos por m dois metros de altura. Os Robinsons ainda não sabiam, mas na próxima vez que vissem o homem, ele estaria segurando um machado brilhante e afiado.

* * *

Era meia madrugada quando a chuva foi embora, dando espaço para a Lua perder a timidez e se exibir entre rastros de névoa. Estava redonda como uma esfera de prata, brilhando exuberante na escuridão do céu.

No domicílio que abrigava os Robinsons, o silêncio foi interrompido por uivos aterrorizantes. Eram gritos de dor e fúria, e vinham do andar de cima. Acordado pelo barulho descomunal, o dono do casebre passou a mão no machado que descansava ao lado da lareira e subiu correndo pelas escadas. Estariam seus hospedes sendo atacados por lobos? Isso era impossível, respondeu a si mesmo. Independente do que fosse, não permitiria que ninguém que estivesse sob seus cuidados fosse ferido ou morto, muito menos na propriedade que onde viveram seus pais.

Munido da inconsequência que brota dos destemidos, o homem estourou a porta a pontapés. Ao entrar no quarto, o machado em punho, foi posto em choque pela monstruosidade que testemunhou.

20151031_151623bcTrês criaturas rosnavam, ameaçadoras, em sua direção. Eram figuras animalescas, enormes, uma masculina e duas femininas. Qualquer um de nós pensaria se tratar de lobisomens. E foi exatamente o que ele pensou: “São lobisomens, uma família inteira de lobisomens, e eu os trouxe para cá”.

Sem muitas opções, o homem tentou golpear com o machado o monstro que estava mais próximo, provavelmente a filha adolescente do casal, mas não teve muito sucesso. A aberração obstruiu o golpe sem esforço aparente, e com uma dentada quebrou o cabo da ferramenta em pedaços. Antes de cair em desespero, ele ainda reparou em uma quarta criatura no canto do quarto, esta muito menor que as outras, mas tão agressiva quanto. Não demorou a entender que se tratava do bebê, que pelo visto também herdou a maldição. Desarmado, o homem fez o que lhe cabia fazer: correu.

Descendo as escadas em fuga, derrubou ao chão tudo o que encontrou pelo caminho na esperança de atrasar os monstros. Correu ensandecido em direção à porta que dava para o pátio. Ficou surpreso ao perceber que os lobisomens não estavam o perseguindo. Quem sabe, tinham se lembrado do socorro que ele lhes prestou na noite anterior, de como tinha sido bondoso e solícito.

Os monstros estavam no andar de cima, parados no corredor do lado fora do quarto. Apesar de estarem imóveis, ainda mantinham o olhar insano e os rosnados ensurdecedores. De qualquer forma, o homem entendeu aquilo como um gesto de clemência. Cruzou a porta e correu.

Ele fugia com determinação, sem reduzir o ritmo, resistindo ao impulso de olhar para trás. Continuava correndo, um pé depois do outro, até que sentiu uma dor insuportável no pescoço, algo como uma mordida. Não havia dúvidas, pensou, as feras me alcançaram. O homem acusou o golpe e caiu se contorcendo de dor. A criatura que o atacou continuava com os dentes cravados no seu pescoço, dilacerando sua carne e arrancando estalos dos ossos. Quando sentiu que a pressão das presas diminuía, já era tarde.

* * *

Lamentou por morrer justo na noite em que saiu da frente da lareira em meio a uma tempestade para prestar socorro a quem quer que estivesse dentro daquele carro parado na estrada. Carro do qual, à distância, ele enxergava apenas os faróis acesos. Não se importou com a chuva que castigava a terra. Vestiu a capa de borracha, entrou na caminhonete e fez o que achava certo, o que deixaria seu pai orgulhoso. Será que pelo menos agora ele encontraria o pai? O homem nunca voltou para contar.

* * *

Antes do último suspiro, procurou em volta pelo monstro que o atacou. Para sua surpresa, não encontrou nenhum dos lobisomens que enfrentou na casa. A única e última coisa que avistou foi um pequeno cãozinho parado à sua frente com a boca ensopada de sangue. Ainda pôde ler o nome escrito em letras douradas na coleira do animal: “Tobby”.

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Texto e ilustrações: Senhor D