Carl Sagan e o ceticismo

Ana Melo
Por Ana Melo
05/06/2015

O astrônomo, astrofísico, astrobiólogo, professor, escritor e cosmólogo Carl Sagan (1934 – 1996) foi, além de tudo isso, um dos maiores divulgadores da ciência de todos os tempos. Em sua série Cosmos e em dezenas de livros e artigos publicados, ele procurou fazer as pessoas se interessarem pela ciência, além de alertar para os riscos que seu mau uso pode trazer. Em O mundo assombrado pelos demônios, Sagan critica a superstição e as pseudociências, sobretudo no que se refere à possibilidade de vida extraterrestre, e apresenta, como o próprio subtítulo revela, “a ciência vista como uma vela no escuro”.

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> Passado e presente da série Cosmos

Mesmo com 509 páginas (na edição publicada pela Companhia de Bolso), O mundo assombrado pelos demônios é rápido e fácil de ler. Carl Sagan – em alguns capítulos, com sua esposa, Ann Druyan – escreve de maneira clara e precisa, trazendo dados, exemplos, citações e histórias para o apoiarem. Ele demonstra seu amor pela ciência a cada capítulo e faz o leitor se apaixonar também.

“Já existem maravilhas demais lá fora,
sem que precisemos inventar alguma.”

Sagan começa escrevendo sobre as diferenças entre ciência e pseudociência, e por que esta, em geral, é mais popular. Ele explica que as pseudociências se baseiam na credulidade e ignoram evidências importantes. Contudo, elas costumam ser muito mais reconfortantes, pois “nutrem as fantasias sobre poderes pessoais que não temos e desejamos ter” e “renovam nossa confiança na centralidade e importância cósmica do homem”. O autor, no entanto, argumenta que é possível encontrar uma conexão profunda com o universo através da ciência e reforça sua máxima: “somos feitos de matéria estelar”.

o-mundo-assombrado-pelos-demoniosUm dos pontos centrais do livro é a questão do ceticismo, principalmente aplicado à discussão da existência de vida extraterrestre. Sagan trabalhou muito com o assunto durante sua vida e sustenta que, justamente por querer encontrar evidências para isso, precisa ter muito cuidado ao analisá-las. Ao longo de sete capítulos, o autor apresenta argumentos para mostrar que não há provas reais que comprovem a existência de alienígenas e que as experiências de contato já relatadas podem ser explicadas racionalmente.

Um dos melhores capítulos é “O dragão na minha garagem”, cuja metáfora é muito conhecida e usada para defender o ceticismo. Sagan propõe a seguinte situação: Imagine que eu diga que há um dragão vivendo em minha casa. Você certamente vai querer verificar. Quando chegamos à minha garagem, no entanto, você não vê nada, e eu lhe digo que é um dragão invisível. E assim seguimos, você inventando métodos para comprovar, e eu, desculpas. “O que estou pedindo a você é tão-somente que, em face da ausência de evidências, acredite na minha palavra.”

Ele amplia, então, a metáfora: “Vamos supor que não seja apenas eu. Vamos supor que vários conhecidos seus, inclusive pessoas que você tem certeza de que não se conhecem, lhe dizem que há dragões nas suas garagens – mas, em todos os casos, a evidência é enlouquecedoramente impalpável”. Enquanto na primeira situação se julgaria a pessoa louca, na segunda, já poderia se desconfiar de que haja alguma verdade. Dessa forma, essa ideia pode ser aplicada a muitas situações reais, como a questão de vida extraterrestre, as pseudociências e até as religiões.

Carl Sagan escreve também uma espécie de guia para o ceticismo, citando o que cientistas devem ou não fazer e os cuidados necessários no método científico. Ele apresenta uma lista de falácias muito usadas, como o apelo à ignorância (“a afirmação de que qualquer coisa que não provou ser falsa deve ser verdade, e vice-versa”) e a confusão de correlação e causa (“Por exemplo: Um levantamento mostra que é maior o número de homossexuais entre os que têm curso superior do que entre os que não o possuem; portanto, a educação torna as pessoas homossexuais”). O autor ainda afirma que, para um bom cientista, é necessário o “casamento do ceticismo e da admiração”.

No prefácio do livro, Sagan conta que seus professores da escola não o inspiravam a procurar conhecimento ou a questionar o que aprendia. “A extração da raiz quadrada era dada com reverência, como se fosse um método entregue outrora no monte Sinai. A nossa tarefa era simplesmente lembrar os mandamentos. Obtenha a resposta correta, e esqueça se você não compreende o que está fazendo.” Nos últimos capítulos, ele aborda a educação como um meio para fazer um país evoluir. Ele defende a divulgação científica e critica o ensino e a falta de investimento em ciência nos Estados Unidos.

“Faz exatos 20 anos que o livro foi publicado, e minha impressão ao ler foi que ele tinha sido escrito ontem”, comenta o biólogo Pirula em seu vídeo sobre a obra. De fato, muitos dos problemas que Carl Sagan aponta a respeito da superstição e do ensino, por exemplo, ainda se percebem hoje. Assim, a leitura é obrigatória tanto para os apaixonados pela ciência quanto para quem vive “assombrado pelos demônios”.