As Crônicas Marcianas: a alegoria de Ray Bradbury

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
23/04/2015
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O último que chegar à montanha ganha uma pedra. Ou um saco de areia. Putz, não há sacos

Numa época em que jipes guiados por controle remoto já andaram pelas planícies marcianas e nos mandaram fotos que revelam que o planeta vizinho é um modorrento e pedregoso deserto, por que recomendar um livro em que Marte aparece como lar de uma civilização ancestral, com rios e cidades? Resposta: porque a obra é boa demais.

Escrito por Ray Bradbury entre o final da década de 1940 e o início dos anos 1950, As Crônicas Marcianas aborda, com a singeleza e o lirismo característicos do autor, a empreitada de colonização do Planeta Vermelho por desbravadores humanos.

Naquele tempo, a exploração sistemática e profissional do espaço ainda era mais ficção que realidade: os testes com foguetes estavam na infância e faltavam uns bons anos para a entrada do Sputnik em órbita e mais ainda para o voo pioneiro de Yuri Gagárin, o Adão dos astronautas. Por isso, há que se perdoar o caráter quase lúdico das descrições que Bradbury faz das viagens espaciais, como quando foguetes partem da Terra carregados de tábuas e pregos para construir as primeiras cidades humanas em Marte. Não espere um texto-base do projeto Mars One ao abrir o livro.

Essas licenças poéticas de Bradbury são, aliás, bastante agradáveis do ponto de vista estético. A história da colonização do planeta vizinho é contada com ares de história fantástica, com a mesma riqueza de elementos mágicos das crônicas de viajantes que, na Idade Moderna, conheceram terras exóticas além-mar.

as cronicas marcianasÉ aqui que percebemos que a coletânea de crônicas de Bradbury é, na verdade, uma alegoria para que o autor trate da humanidade e de temas-chave para compreender o seu próprio tempo: o racismo, o colonialismo (o mundo passava por um turbulento processo de independência das colônias das potências europeias na África e na Ásia), a guerra e questões ambientais.

As histórias dos contos e microcontos relacionados de As Crônicas Marcianas se passam entre 1999 e 2026. Ao chegar a Marte, os primeiros colonizadores humanos encontram uma civilização antiga e decadente de humanoides telepatas que sucumbem à chegada dos alienígenas. Tomando posse do novo planeta de modo semelhante à conquista de territórios ultramarinos por seus antepassados navegadores, os neomarcianos criam cidades inspiradas nas cidades terráqueas e tentam construir uma nova sociedade, enquanto na Terra o projeto colonizador e a própria humanidade são ameaçados pelo risco de uma guerra nuclear.

O contato com os últimos nativos marcianos sobreviventes rende belas histórias em que somos colocados diante de um espelho e nossas próprias crenças e visões de mundo são postas à prova, como por exemplo no conto “Os balões de fogo”, que narra a tentativa de catequização de marcianos por padres terráqueos, ou em “O marciano”, que aborda o modo como lidamos com a morte e com a verdade.

Em “O piquenique de um milhão de anos”, vemos, explícita, aquela característica e quase obsessiva ideia de Bradbury de que a humanidade melhoraria se começasse de novo, com um grupo de pessoas puras, em um lugar ainda não contaminado pela maldade. É neste conto que o autor decide deixar de lado a dissimulação e admite que o livro é uma alegoria – e que nós somos os marcianos.