As Crônicas de Gelo e Fogo: a negação do maniqueísmo

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
10/04/2018

[O texto tem alguns spoilers – mas bem leves – para quem ainda não leu os livros. Mas quem acompanha a série já ultrapassou os eventos dos livros há muito tempo, então nem faz diferença 😉 ]

A saga As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R.R. Martin, que inspirou a série do HBO Game Of Thrones, trouxe diversas contribuições para a literatura de fantasia e uma delas é a negação do maniqueísmo.

É comum que histórias do gênero apresentem uma luta do “Bem” contra o “Mal” em termos monocromáticos e com personagens sem muitas nuances. Vilões são, via de regra, poços de maldade desprovidos de qualquer traço de virtude, enquanto os heróis são valorosos campeões da moral y dos bons costumes, sem espaço para meio-termo.

Nas milhares de páginas que Martin usa para narrar o Jogo dos Tronos disputado em Westeros e Essos, a coisa é bem diferente. Ao construir com esmero e riqueza de detalhes cada uma das muitas personagens marcantes da saga, o autor se assegura de que todas elas terão nuances e praticamente nenhuma pode ser considerada completamente boa ou completamente má.

Quem pode ser considerado um malvadão puro-sangue nos livros? Talvez apenas o Príncipe (e, em seguida, por um curto período, Rei) Joffrey e Sor Gregor Clegane, A Montanha Que Cavalga. E, ainda assim, talvez esta seja a nossa impressão apenas porque Martin não os descreveu em profundidade nem os tornou protagonistas de seus próprios capítulos. Quem garante que um passeio às memórias da infância de Joffrey na Fortaleza Vermelha ou reminiscências que resgatem a formação da personalidade da Montanha não gerariam empatia no leitor?

Creio que se pode estabelecer uma regra nesse caso: se uma personagem de As Crônicas de Gelo e Fogo parece absolutamente boa ou absolutamente má, é porque apareceu pouco na história. Basta que passe mais tempo sendo descrita e surgirão as inevitáveis nuances. Muitas foram as personagens a respeito das quais mudei de ideia quando Martin contou um pouco mais sobre elas – e principalmente quando passaram a protagonizar seus próprios capítulos, ocasião em que a história passa a ser contada do seu ponto de vista.

dc6e4bd97095d2059a4bd36e975a5969f5934594_hqAté a Rainha Cersei, que a princípio é descrita como uma figura perigosa, calculista e dissimulada, sem um traço de humanidade, quando vista sob a lupa do protagonismo muda de tonalidade. Vemos a esposa preterida pelo marido em nome da lembrança de uma noiva morta há muito tempo, a filha de um lorde que foi criada desde sempre para ser vendida em casamento ao senhor que pagasse o maior preço, a herdeira de uma casa poderosa que não pode assumir o lugar que deseja no comando da família por não ter nascido homem. Vemos a menina assombrada pela sinistra profecia de Maggie, a Rã, que a tornou paranoica sobre o próprio destino. Difícil não se solidarizar com ela.

E seus irmãos? Jaime, o Regicida, que no começo julgamos ser apenas um vaidoso e cabeça-oca espadachim, um consorte secreto que comete qualquer atrocidade ordenada pela amante, aos poucos vai se transformando em um dos cavaleiros mais valorosos e mais sábios de Westeros, à medida que os acontecimentos o fazem refletir sobre o seu papel no Jogo dos Tronos. Tyrion, que parece desde o início ser o melhor dos Lannister, até por ser o que mais sofreu na vida devido à condição de anão, também é capaz de cometer assassinatos sem pestanejar, seja para defender a família que o despreza, seja para manter seu lugar no jogo, seja por ciúme.

A regra também vale em sentido oposto: entre os heróis, ninguém é desprovido de falhas de caráter e há muita ambiguidade moral. Martin talha, pouco a pouco, com uma complexidade que aumenta à medida que os calhamaços engrossam em número de páginas, heróis muito humanos, que mesmo quando defendem ideais e causas nobres sucumbem a paixões e vícios, a intrigas e disputas por poder ou pela primazia sobre outros membros da famílias.

E mesmo personagens que não protagonizam seus próprios capítulos também adquirem nuances quando aparecem mais de perto. Quando descrito pela boca de Sam, Lorde Randyll Tarly parece ao leitor uma pessoa horrível que obriga o próprio filho a vestir o negro da Patrulha da Noite por não aceitar que este não tenha vocação para cavaleiro. Quando o patriarca é colocado, enfim, em cena, lidando com suas obrigações de comandante militar e administrador de terras conquistadas, vemos outro Randyll: um senhor duro mas justo, razoável e sagaz, cumpridor do código de honra dos cavaleiros. A regra vale para outras dezenas de personagens que aparecem e reaparecem na complexa trama tecida com tanto cuidado pelo autor.

Há aquela frase atribuída ao documentarista Eduardo Coutinho: “Se, ‘de perto, ninguém é normal’, outra formulação possível é que, ‘de perto, todo mundo é normal’”. Em As Crônicas de Gelo e Fogo, Martin faz mais ou menos isso: mostra que, quando visto do seu próprio ponto de vista, quando analisado em todas as vicissitudes que formaram sua consciência, ninguém é totalmente bom ou mau.

P.S.

Dou-me conta de um possível viés maniqueísta na saga, representado pela sinistra e paulatinamente agressiva invasão dos Outros (white walkers, na série), os zumbis de gelo que ameaçam a segurança de Westeros e que seriam um mal absoluto contra o qual toda a humanidade deveria se unir.

Porém, é preciso colocar esta questão em suspenso até que os livros finais sejam publicados (se é que um dia serão), pois a guerra contra os Outros ainda não começou na série literária e Martin é bem capaz de tirar da cartola  – ou melhor, do quepe – capítulos narrados do ponto de vista dos zumbis, dando conta de suas motivações e apresentando-os como uma sociedade heterogênea e cheia de nuances.