As Cavernas de Aço: Asimov discute a vocação da humanidade

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
25/04/2016

As Cavernas de Aço, de Isaac Asimov (publicado no Brasil pela Editora Aleph), é tradicionalmente descrito como “o primeiro livro da Série dos Robôs”.

Isso porque o romance introduz as aventuras do detetive Elijah Baley e do seu parceiro robô, Daneel Olivaw, num contexto em que as colônias rebeldes do planeta Terra no espaço (os chamados “Siderais”), que desenvolveram uma cultura e uma economia ultratecnológicas baseadas na integração das pessoas com robôs positrônicos, se opõem ao planeta-mãe, uma sociedade super-povoada, autocentrada, decadente e intolerante com os robôs.

as cavernas de aco aleph asimovPublicado originalmente em 1954, ainda nos primórdios da Guerra Fria, As Cavernas de Aço é uma narrativa que usa o clássico estilo de romance policial como fio condutor de uma trama que opõe dois projetos de Estado, tal como acontecia no mundo real, que se dividia entre os modelos capitalista (liderado pelos Estados Unidos ) e socialista (comandado pela União Soviética).

A história se passa em Nova York, mas uma Nova York bem diferente da que hoje conhecemos (e da que o mundo conhecia em 1954). Nesse cenário, a Terra tornou-se, uns poucos milhares de anos no futuro, um planeta-Estado formado por Cidades (assim mesmo, com C maiúsculo) subterrâneas, as tais “cavernas de aço” que dão ao romance seu título. Para otimizar a produção de recursos e a coordenação de esforços para tornar sustentável a ocupação de um planeta super-povoado, a humanidade abandonou a superfície para viver em comunas tecnológicas fortemente reguladas e interdependentes, onde o indivíduo perde força e passa a ser apenas uma peça da engrenagem autocentrada.

Nessa Nova York subterrânea, o assassinato de um emissário dos planetas Siderais, cometido na Vila Sideral (espécie de território diplomático situado na superfície), coloca em risco as relações da Terra com suas colônias no espaço. Designado para investigar o caso, o policial Elijah Baley precisa lidar com sua própria aversão a robôs e trabalhar em cooperação com Daneel Olivaw, um androide Sideral quase indistinguível de um ser humano. Como é característico das narrativas policiais, Baley faz o tipo durão e obstinado, que transita num cenário em que praticamente todos são suspeitos.

A GENTE NÃO QUER SÓ COMIDA

Ao esmiuçar as motivações dos assassinos potenciais, Baley (e, por meio dele, Asimov) analisa as causas da intolerância dos terráqueos aos robôs e as razões da sua rixa com os Siderais, e acaba refletindo sobre a própria opção dos terráqueos de abrirem mão de desbravar o espaço para se fecharem em suas conchas de aço. Enquanto os Siderais (que representam o empreendedorismo e o pioneirismo tecnológico) são pintados como desbravadores (embora também com falhas, com uma cultura beirando o estéril), os terráqueos aparecem como os infelizes membros de uma sociedade estagnada, que retrocedem a crenças supersticiosas e que vivem apenas para trabalhar pela própria subsistência, num círculo vicioso fadado à extinção.

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Um ponto que chama a atenção no romance é o destaque dado pelo autor à alimentação das personagens. Asimov já escreveu dezenas de outros livros e contos que dão pouquíssimo ou nenhum espaço para refeições. Por que, então, essa obsessão pela comida em As Cavernas de Aço?

Parece claro que a intenção do autor é demonstrar o quanto da energia da Cidade é gasto em atividades de manutenção da vida – ou seja, vemos uma humanidade e uma Cidade que não vivem, mas sobrevivem. Boa parte da economia e da ciência das titânicas coletividades de aço são destinadas à pesquisa de “leveduras”, como são descritas as substâncias que constituem a base de toda a alimentação da população. Além disso, as refeições, rigidamente fracionadas, são feitas em gigantescos refeitórios coletivos, o que rompe com um dos elementos mais “sagrados” da nossa sociedade: o reconfortante jantar em família. Em 1954, aliás, esse cenário soa MUITO como a repetição da clássica propaganda anticomunista de que o socialismo acabaria com a privacidade das famílias e todos teriam de dividir os apartamentos e as salas de jantar com estranhos.

Como é característico de diversas obras do autor, em As Cavernas de Aço há essa tensão entre o indivíduo e a coletividade e modelos conflitantes de sociedade são colocados em xeque: de um lado, a sociedade ultratecnológica mas de baixa natalidade e escassa renovação dos Siderais; de outro, o coletivismo estagnado e fadado à extinção dos terráqueos. O Velho nos oferece, como é de seu feitio, uma terceira via: uma síntese entre a tese e a antítese. Sua saída para o dilema estabelecido entre as Cidades e as colônias estéreis é uma redescoberta do espaço e do espírito desbravador do homem, uma busca por planetas habitáveis onde a humanidade possa voltar a se expandir e a se desenvolver.

A mensagem de As Cavernas de Aço é a de que sempre se pode voltar atrás de escolhas individuais e coletivas quando estas limitam a plena realização das nossas potencialidades. Para Asimov, esse otimista incorrigível, o ser humano é grande demais para um único planeta e não é vocacionado a morrer no subterrâneos, mas sim a conhecer as estrelas e povoar a galáxia. A humanidade viverá para cumprir sua profecia?