Aqui Há Tygres: um conto poético de Ray Bradbury

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
09/04/2015

Nunca subestime um balaio de sebo. Nos tempos em que me sobrava tempo e faltava dinheiro para gastar em livros, eu percorria, metódica e pacientemente, todas as vielas da tradicional Feira do Livro de Porto Alegre, esmiuçando cada balaio de saldos à cata de preciosidades ofertadas quase de graça. E todos os anos eu conseguia, depois de tardes inteiras garimpando, achar vários títulos bons ao preço de R$ 1, R$ 5, três por R$ 10 etc. Hoje, graças a iniciativas como o site Estante Virtual, os amantes dos sebos já não precisam gastar tanto tempo se acotovelando no calor de novembro para encontrar livros baratos.

antologia-do-espaco-livro-contosConheci o conto que é tema desse post, Aqui Há Tygres, do mestre Ray Bradbury, graças a um balaio de sebo em Porto Alegre. A coletânea Antologia do Espaço, publicada em 1975 pela Editora Cátedra, estava lá, mais de 30 anos depois, sendo ofertada por R$ 5 junto a pouco convidativas obras de auto-ajuda, espiritismo e manuais de jardinagem, ou algo assim. O título escrito na lombada amarelada, ladeado pelos nomes Asimov/Clarke/Bradbury/Van Vogt, fez minha mão saltar em sua direção por reflexo.

Aqui Há Tygres é o último conto da coletânea, e um dos melhores.

Ray Bradbury já foi chamado, com muita propriedade, de “o poeta da ficção científica“. Seus textos, escritos em prosa quase lírica, abordam não aspectos tecnológicos e detalhes científicos da exploração do espaço, mas a dimensão humana da aventura sideral. O cenário futurista é um pretexto do autor para tratar de temas do seu tempo e de mazelas e virtudes da humanidade.

Aqui Há Tygres foi publicado originalmente em 1951. O título do conto se deve a uma inscrição que era colocada em certos pontos de mapas-mundi antigos para alertar eventuais viajantes dos perigos de terras desconhecidas e encantadas. Na história de Bradbury, acompanhamos a chegada da nave comandada pelo Capitão Forester ao planeta 7 do sistema solar 84. É um tempo em que a humanidade coloniza o espaço e foguetes desbravadores são enviados para diversos quadrantes do universo em busca de planetas com vocação para abrigar humanos. As missões que não retornam são dadas como perdidas e nunca mais se tenta ir até lá – subentende-se que o planeta de onde ninguém retornou é um ambiente hostil. Aliás, uma ideia semelhante foi explorada por Christopher Nolan em sua aventura espacial Interestelar, em que naves são enviadas a planetas diversos para tentar encontrar um novo lar para a humanidade e os batedores que não dão retorno são descartados.

As semelhanças com Interestelar vão além. O vilão do conto de Bradbury, o astronauta mineralogista Chatterton, é um representante arquetípico do antropocentrismo desenvolvimentista propagandeado por Nolan em seu filme. Ele deseja encontrar riquezas minerais, submeter e moldar o novo planeta à vontade  humana. Mas ele escolheu o corpo celeste errado para isso. O planeta 7 do sistema solar 84 é um organismo vivo.

Tal como o Solaris de Stanislaw Lem, o planeta 7 é capaz de decifrar as mentes dos astronautas e mudar a sua própria forma para interagir com os visitantes. E as interações são bem diferentes dependendo da índole do explorador. Para Chatterton, que tenta violentar a nova terra e extrair do seu chão riquezas minerais destinadas apenas a se converter em dinheiro, o planeta se revela um inferno hostil, com monstros e intempéries climáticas.

Para os demais tripulantes, que se maravilham com seus poderes mágicos, o planeta 7 se mostra um paraíso sedutor, quase como o céu dos muçulmanos, apto a lhes fornecer banquetes e beberagens e prazeres infinitos, e onde até voar como um pássaro é possível.

O que fazer diante de tão arrebatadora descoberta? Ficar e viver o resto da vida como um prazeroso piquenique? Voltar à Terra e contar sobre as maravilhas do planeta 7? O que as corporações, exércitos e governos fariam em relação ao misterioso local? Como um planeta tão temperamental se comportaria ao ser invadido por colonizadores sedentos de riquezas?

Aqui entra a visão de humanidade de Bradbury, tão presente nas páginas dos seus contos. Uma visão ao mesmo tempo pessimista e otimista. Ele costuma descrever com negatividade as sociedades humanas, mas enxerga esperança no indivíduo. Em Aqui Há Tygres, vemos de relance aquela sua ideia de que a humanidade poderia seguir um rumo diferente se começasse de novo, em outro lugar, com um grupo de pessoas puras.

As descobertas da tripulação do Capitão Forester no planeta 7 nos levam a pensar sobre os outros foguetes, aqueles que rumaram para planetas distantes e nunca regressaram. Será que aqueles astronautas morreram em ambientes hostis, como decidiram seus comandantes na Terra, ou desistiram de voltar após encontrarem novos Édens?

Um conto fascinante. Leitura recomendadíssima.
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