Androides sonham com ovelhas elétricas? – o livro por trás do filme

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
23/03/2015

livro-androides-sonham-com-ovelhas-elétricas-alephNão dá pra falar do livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick, sem fazer comparações com Blade Runner, a estupenda adaptação cinematográfica da obra, levada às telas por Ridley Scott em 1982. O livro, lançado no Brasil pela Editora Aleph, tem o mesmo fio condutor do filme (a jornada do anti-herói Deckard para matar androides fugitivos numa Terra suja e decadente), mas o que mais chama a atenção são as diferenças entre o romance de Dick e sua versão filmada.

O livro foi publicado originalmente em 1968 e a ação se situa no ano de 1992 (2019 é o tempo escolhido para ambientar Blade Runner). O contexto em que vivem os personagens de Dick é o de uma Terra devastada pela Guerra Mundial Terminus, um mundo onde a poeira radioativa dizimou praticamente todas as espécies animais, provocou mutações na espécie humana (dividida entre os normais e os “especiais”) e onde a única esperança de felicidade parece ser emigrar para as colônias do Sistema Solar, um privilégio vedado aos especiais.

Essa divisão em castas e os outros planetas representando o novo Eldorado também aparecem no filme de Scott, embora não haja menção a uma guerra mundial e a impressão que fica seja de que a decadência da Terra é uma consequência natural da superpopulação e poluição.

A SOLIDÃO DA ESPÉCIE HUMANA

Outra singularidade do livro, expressa já no título, é a importância dada pelas personagens aos animais. Bichos de diversas espécies, aparentemente todos sintéticos, também são mostrados em Blade Runner, e lá fica claro que ter um espécime real em vez das imitações artificiais é caro demais para pessoas comuns. Mas, no romance de Dick, a relação de humanos com animais tem papel central, é uma obsessão das personagens. O protagonista, o caçador de recompensas Deckard, tem uma ovelha “elétrica” (um animal mecânico, artificial) no terraço e isso o oprime. Ele teme que os vizinhos descubram que seu bicho de estimação não é real e, veja só que ironia, precisa matar (androides) para juntar dinheiro para poder comprar vida (um animal autêntico).

Talvez uma das coisas mais estarrecedoras da distopia concebida por Dick seja essa gritante solidão da espécie humana. Depois de destruir quase todas as coisas vivas, o homem se vê tristemente sozinho num mundo onde a única forma de sobreviver é abraçar a artificialidade: colônias no espaço, fuga dos ambientes abertos para escapar da poeira venenosa e até a criação de imitações das formas de vida, desde animais sintéticos até pessoas de mentira.

Muitos fogem dessa angústia pela via religiosa. Não por acaso, a religião dominante do universo retratado no romance, o mercerismo (um plot ignorado no filme), é baseada numa jornada de penitência e purificação. Uma humanidade com tantos pecados tem muito a expiar. Por meio da Caixa de Empatia, um dispositivo de realidade virtual e estímulo sensorial, cada adepto do mercerismo pode se fundir com o profeta Wilbur Mercer – e, ao mesmo tempo, com todos os outros crentes – e dividir suas agruras e alegrias na escalada de uma montanha em que nunca se atinge o cume. Na sua caminhada sempre inconclusa morro acima, Mercer se assemelha a um Sísifo pós-apocalíptico que oferece ao seu séquito a empatia e a misericórdia como vias de salvação.

O INIMIGO NO ESPELHO

Podemos dizer que outra diferença crucial entre o filme e o livro é o papel dos androides Nexus 6 na trama. Se em Blade Runner estes têm papel central, com a recusa da mortalidade motivando os “replicantes” a transgredirem a lei e enfrentarem o caçador que tenta “aposentá-los” (um eufemismo para a sua “morte”), numa alegoria da própria condição finita do homem do desafio das criaturas ao Criador, no livro os androides aparecem para realçar o pior da espécie humana. Incapazes de empatia, de identificação e de comiseração com o sofrimento alheio (uma condição detectada no exame de perguntas e respostas Voigt-Kampff, o meio mais confiável de diferenciar humanos de replicantes), os androides, apresentados como máquinas orgânicas egoístas e insensíveis, são como um espelho em que a humanidade não quer se ver refletida – por isso mesmo eles são menos tolerados que animais de mentirinha. Para afirmar o que os diferencia dos androides, reforçando suas supostas vantagens sobre os replicantes, os humanos buscam a empatia, a comunhão com outros humanos e com outros seres viventes (ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, desprezam os humanos especiais).

Mas, para os últimos habitantes da Terra moribunda – pelo menos para os que estão familiarizados no trato com as criaturas humanoides artificiais -, negar seu parentesco com os androides não é tão simples. Enquanto no filme de Scott o teste Voigt-Kampff é apresentado como infalível, o romance de Dick traz, como é característica das suas obras, uma realidade com mais nuances.

O trecho em que Deckard é levado para o que seria uma agência policial rival, onde não é possível dizer com certeza quem é humano e quem é androide, evidencia a falibilidade das técnicas de identificação e coloca sob suspeita todas as personagens: se é possível que um androide desconheça a própria natureza e se é possível implantar memórias artificiais (o que ficou claro na visita à Companhia Rosen e no caso da lânguida replicante Rachael Rosen), quem está seguro de ser um Homo sapiens genuíno?

(Aliás, é hoje consenso que o enigmático final de Blade Runner significa que o próprio Deckard, o caçador de androides, é um replicante, o que já foi reconhecido por Ridley Scott. No livro, não há nada que indique isso claramente.)

UM DECKARD DE CARNE E OSSO

Fiel à opção de Ridley Scott por homenagear o estilo de filme policial noir, Blade Runner apresenta um Deckard durão, estoico, frio e insensível como uma rocha, mas que exala seu sex-appeal de macho dominante. No romance de Dick, temos um protagonista mais “humano”.

Um Deckard casado, que se preocupa em animar a esposa deprimida, que anseia pela compra de um mascote vivo de verdade, que hesita em ir para a cama com a androide Rachael, por quem se apaixonou, que tenta, no fim da caçada, se fundir com Wilbur Mercer e expiar seus próprios pecados.

No livro, como no filme, o confronto final de Deckard com os replicantes fugitivos é travado no decrépito prédio de apartamentos onde vive, sozinho, o especial J.R. Isidore (no filme, ele se chama J.F. Sebastian e tem outro tipo de degeneração física). Solícito e carente, acostumado com a hostilidade com que é tratado pelos humanos sadios, Isidore se identifica com a condição de párias dos Nexus 6 e, também por se sentir atraído pela beleza da androide Pris, ajuda a esconder e proteger o grupo liderado por Roy Baty. O que recebe em troca é o desprezo dos seus hóspedes. Incapaz de empatia, Roy manipula e explora Isidore.

Mas o líder androide do livro não se assemelha, nem de longe, ao poderoso e inspirado antagonista encarnado por Rutger Hauer no filme – pois o cerne do romance de Dick é mais a jornada de anti-herói de Deckard que o drama dos replicantes. O Roy do romance, ainda que seja um líder cruel, era, antes de fugir para a Terra, um trabalhador comum da colônia humana em Marte e não um poeta guerreiro que viu naves de combate em chamas no ombro de Órion, como seu equivalente em Blade Runner.

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Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? é um dos melhores livros de Philip K. Dick. Por meio da jornada de Deckard e da sua caçada em uma Terra devastada, o autor propõe diversas reflexões sobre o que nos faz humanos, sobre o sentido da tecnologia, sobre a vida e a morte. Livro e filme são obras bem diferentes criadas a partir dos mesmos pressupostos, ambas magistrais, ambas igualmente cheias de méritos.

BONUS TRACKS: a edição do livro lançada pela Aleph traz vários extras imperdíveis: uma carta de Philip K. Dick ao produtor do filme Blade Runner, a última entrevista concedida pelo autor e um posfácio do escritor Ronaldo Bressane.