A Guerra dos Tronos, de George Martin: o retorno triunfante da alta fantasia

Jefferson Nunes
Por Jefferson Nunes
23/01/2017

Afirmar que a saga literária As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, é uma das séries mais bem sucedidas dos últimos anos, e de maior impacto para a literatura fantástica, é chover no molhado. Resgatando a tradição de J. R. R. Tolkien (autor de O Hobbit e O Senhor dos Anéis) de uma história grandiosa e cheio de reviravoltas, com personagens carismáticos e mundo vasto, a saga de Westeros estabeleceu George Martin rapidamente como um dos grandes nomes da literatura contemporânea, rendendo-lhe muitos prêmios e grande sucesso, especialmente após o início da série Game Of Thrones, da HBO.

capa-livro-A-Guerra-de-TronosComo pontapé inicial da série, Martin lançou A Guerra dos Tronos (Game of Thrones no original, muito mais adequado para representar a história), em 1996, pela Bantam Spectra, mas o livro só chegaria a terras tupiniquins em 2010, pela LeYa, após o sucesso estrondoso da série da HBO. Aqui, já fica evidente a experiência de Martin para prender o leitor e jogar com as personagens para produzir situações poderosas e cativantes.

Para isso, são mostrados muitos elementos distintos, que, mesmo parecendo inconciliáveis num primeiro momento, vão convergindo progressivamente para a construção da história de Westeros e Essos. Assim, é interessante debater sobre alguns desses elementos, que são fundamentais para tornar Guerra dos Tronos (e a série, de uma forma geral) uma história tão especial e envolvente.

FOCO NELES! 

Cada autor costuma orientar sua história dentro de dois tipos básicos de narrativa: em primeira ou em terceira pessoa. Esses dois modos de narração fornecem possibilidades e vantagens diferentes, que podem ser exploradas para contar a história. George Martin, porém, produz um tipo híbrido, que torna o texto bastante interessante. Aqui, cada capítulo é narrado sob a perspectiva de um personagem diferente, o que se repete ao longo do livro, conforme os eventos vão se desenrolando.

A narrativa, porém, é um híbrido de terceira com primeira pessoa, contando a história como se fosse à distância, mas sob a visão da personagem que está envolvido nos eventos do capítulo, incluindo pensamentos e falas próprios dele. Assim, muitas vezes se tem perspectivas diferentes para os mesmos eventos, o que garante ir muito além das tradicionais dicotomias mau/bom, visão correta/visão errada – o que é, com certeza, muito mais rico e instigante que confiar em um único narrador, esteja ele presente como participante da história ou não.

Tudo isso é possibilitado pela primorosa análise psicológica que Martin faz de cada personagem; por cada capítulo ser narrado sobre a perspectiva de uma personagem diferente, se tem visões de mundo muito diferentes, que vão ressaltar certos aspectos dos eventos, e construir a opinião do leitor sobre eles. Dessa forma, a trama vai ser muito mais baseada nas ações individuais que em eventos sobrenaturais e alheios aos seres humanos da história, trazendo elementos muito mais próximos da realidade que outros livros de fantasia.

UM JOGO PERIGOSO E MORTAL

trono de ferro guerra dos tronosO livro, porém, vai muito além: mostra de forma sólida e com profundidade os bastidores do poder, construindo uma teia de relações pessoais e familiares que envolvem, em última instância, a busca pelo poder em si. Tudo é permitido para um aspirante ao poder alcançar seus objetivos, e você não pode confiar em ninguém, porque todos vão fazer o que for necessário para conseguir aquilo que querem. Na guerra dos tronos, tudo é aceito para realizar suas jogadas, mas é preciso tomar cuidado, porque a perda de uma jogada pode custar sua cabeça.

Aqui, não há mocinhos e bandidos no sentido tradicional do termo, e todos podem cometer atos moralmente condenáveis, o que dá à história rumos imprevistos, inclusive contando com a morte de personagens poderosos (marca registrada de George Martin), o que torna os eventos que cada um faz em vida muito mais importantes e significativos e o futuro, sempre incerto. Assim, George Martin consegue construir uma narrativa muito real, verossímil e bem amarrada, que surpreende a cada página, e tem um fator imprevisível raramente visto antes na literatura.

O SOBRENATURAL E A FÉ

Elementos sobrenaturais são fundamentais em uma história de fantasia, mas esse é um ponto em que A Guerra dos Tronos se diferencia de outros livros do gênero. Aqui, há o foco em traços do período medieval, com eventos reaalistas e bem “pé no chão”. Poucos são os momentos em que acontecem eventos sobrenaturais, que se concentram mais na Patrulha da Noite, uma irmandade de degredados vestidos de negro, que defende os reinos dos homens de selvagens que vivem do outro lado da Muralha, um imenso muro de gelo e pedras, com mais de duzentos metros de altura e quase 500 km de extensão (Martin inspirou-se na Muralha de Adriano, construída durante a ocupação romana da Inglaterra, para elaborar a ideia). Ali, nem tudo é o que parece e, junto com o frio mortal, começam a acontecer eventos macabros e assustadores, que apontam que tempos sombrios estão vindo novamente.

Também há toques sobrenaturais do outro lado do Mar Estreito (mas de forma mais sutil num primeiro momento), onde Daenerys Targaryen e seu irmão Viserys, últimos da dinastia Targaryen, que controlavam os Sete Reinos de Westeros, tentam encontrar apoio em seu caminho para sua terra natal e a conquista do Trono de Ferro. Aqui, o exótico e o diferente são parte integrante da paisagem, e houve comparações dessas terras com a Ásia, embora George Martin negue a relação.

Por a história ser tão focada no realismo, os momentos sobrenaturais ganham mais relevo e destaque, já que representam uma quebra total da normalidade e do que os homens consideram verossímil e capaz de ocorrer, contrapondo-se completamente aos outros momentos da trama. Assim, eles vão parecer mais sombrios e impactantes e trazer maior complexidade à história.

 

guerra dos tronos 2Outro elemento muito interessante trazido por Guerra dos Tronos são os traços religiosos que, eventualmente, aparecem. Muito mais do que apenas um “enche linguiça”, as passagens em que são descritos ritos religiosos e orações são muito interessantes, pois demonstram a firme crença de algumas personagens nos deuses e em seu auxílio.

Há duas crenças principais em Westeros: a dos Deuses Antigos e a Fé dos Sete. Os Deuses Antigos estão representados em bosques com represeiros que têm faces esculpidas e são venerados no Norte de Westeros e Pra-lá-da-Muralha, mas, antes da chegada dos Ândalos, eram venerados por toda Westeros. Não há nomes para esses deuses, nem sacerdotes ou ritos institucionalizados, o contato é apenas entre o crente e os represeiros, através de preces silenciosas.

A Fé dos Sete, por outro lado, foi trazida pelos Ândalos do outro lado do Mar Estreito, e destruiu as crenças locais, tornando-se predominante, menos no Norte e nas Ilhas de Ferro (que adoram o Deus Afogado). A crença é composta na existência de sete deuses (embora alguns septões afirmem que sejam apenas sete manifestações do mesmo deus), cada um personificando uma virtude, como o Pai (que representa a justiça), a Mãe (que encarna a piedade), o Guerreiro (que representa a força no combate) etc.

Diferente da fé nos Deuses Antigos, a Fé dos Sete é composta por uma burocratização, com a centralização no Alto Septão, que lidera os demais Septões de Porto Real, formando-os e preparando-os para serem enviados pelos Sete Reinos. A Fé dos Sete tinha importante papel política, já que servia para aconselhar reis e senhores, enviar corvos com mensagens importantes para todos os castelos dos reinos, curar os enfermos, ensinar os filhos dos senhores as letras e lendas, realizar ritos como casamentos, funerais etc.

Enfim, logo se percebe que os elementos de fé não foram colocados no livro apenas para servir como fundo e deixar os livros mais grossos, mas se interpenetram dentro da trama e são importantes no andamento dos acontecimentos, fazendo parte da vida das personagens e podendo influenciar suas ações. Além disso, as Irmãs Silenciosas (uma das ordens ligadas aos Sete) eram responsáveis pela preparação dos mortos para o funeral, função muito importante em uma sociedade marcada pela guerra.

Com todos esses elementos (e vários outros não abordados nesse texto), Guerra dos Tronos é uma obra densa, poderosa e rica em detalhes (que seriam aprofundados nos livros seguintes), mas já apresentam George Martin como um autor muito maduro, que sabe jogar com as expectativas e surpresas para prender o leitor. Uma obra que renovou o interesse pela fantasia, e mostrou que a literatura fantástica ainda tem muito a oferecer. Indispensável!