A Dança do Universo: Física além das teorias

Ana Melo
Por Ana Melo
19/02/2016

marcelo-gleiser-a-danca-do-universoA Dança do Universo é um livro do físico brasileiro Marcelo Gleiser, publicado pela Companhia das Letras, que aborda a busca pelo conhecimento sobre o universo, da mitologia à mecânica quântica. Não se assuste, entretanto, recordando-se com horror das provas de Física do Ensino Médio, pois, mais do que um livro de divulgação científica, esta é uma história sobre a humanidade e seu fascínio pelo universo.

O professor e pesquisador narra a história de cientistas como Galileu, Newton e Einstein, para citar alguns dos mais conhecidos, enfatizando suas motivações e as crenças pessoais que os levaram a grandes descobertas. Gleiser salienta semelhanças entre ciência e religião, no que diz respeito à ânsia por explicar o universo, mesmo que de maneiras distintas. Ele destaca, ainda, que, enquanto alguns cientistas foram inspirados por sua fé, outros tinham a própria ciência como uma forma de espiritualidade.

O livro é dividido em cinco partes:

“Origens”: Nos primeiros capítulos, Gleiser aborda as primeiras tentativas da humanidade de explicar o universo, através da mitologia e da filosofia. Ainda que não científicas, essas ideias comprovam a curiosidade inata dos seres humanos, independentemente da época e do povo. Entre os pensadores citados nesta etapa, estão Platão, Demócrito, Pitágoras e Ptolomeu.

“O Despertar”: Aqui, o autor se refere ao despertar da ciência em meio à Idade das Trevas. É interessante observar as motivações dos cientistas da época e seus avanços na compreensão não apenas do universo, mas também do nosso lugar nele. Gleiser aborda também os conflitos entre ciência e religião, como a teoria do heliocentrismo, em vez do geocentrismo. Assim, acompanhamos a história e as descobertas de, principalmente, Copérnico, Kepler e Newton.

“A Era Clássica”: Essa parte do livro é, possivelmente, a mais densa das cinco, já que, por abordar uma grande diversidade de cientistas e descobertas, é focada mais nas próprias teorias que nas pessoas que as desenvolveram. Nesses capítulos, Gleiser explica conceitos de eletromagnetismo e ondulatória, a partir das ideias de Carnot, Maxwell, Coulomb e Faraday, entre outros.

“Tempos Modernos”: Essa é minha parte favorita do livro, tanto pelos conteúdos fascinantes – teoria da relatividade espacial e mecânica quântica –, quanto pela abordagem apaixonada de Gleiser. Nesses capítulos, torna-se clara a grande admiração do autor por Einstein, uma de suas inspirações para também tornar-se um físico. Além disso, são abordados Planck, Bohr e Heisenberg, para citar alguns.

“Modelando o Universo”: A última parte do livro aborda as teorias contemporâneas sobre o universo de físicos como Hale, Hubble e Shapley. É, ainda, nesses capítulos em que Gleiser expõe seu ponto de vista sobre as discussões acerca das grandes questões existenciais.

Para de fato compreendermos a importância das descobertas ressaltadas no livro, o autor precisa, naturalmente, explicar algumas teorias da física. No entanto, mesmo para quem não tem, a priori, interesse pelo assunto, não creio que seja um problema. Embora a escrita de Gleiser não seja tão fluida e eloquente quanto as de outros escritores do gênero, suas explicações são, ainda assim, bastante claras e acessíveis. E, ainda, como o próprio autor ressalta:

“Assim como em música não é necessário saber ler uma partitura
para poder apreciar a beleza de uma sinfonia, em física tampouco
se precisa saber resolver uma equação para apreciar a beleza de uma teoria.”

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Enquanto lia o livro, não pude deixar de lembrar das palavras do astrofísico Carl Sagan no prefácio de seu livro 19. Nele, Sagan recorda sua experiência na escola e critica o ensino superficial da ciência por seus professores. “A divisão pormenorizada era ensinada como uma receita culinária”, sem explicação do porquê do método utilizado, exemplifica.

Dessa forma, para quem também já enfrentou esse problema, o livro apresenta uma forma diferente de encarar a física, a astrofísica e outras ciências naturais: não como fórmulas a serem decoradas para uma prova, mas como o trabalho de seres humanos tentando encontrar algum sentido em seu enigmático universo.