2001, de Arthur C. Clarke: O livro por trás do filme – e vice-versa

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
29/01/2019

Filmes baseados em livros são uma aposta consagrada dos cineastas para criar roteiros calcados em histórias sólidas e bem amarradas, muitas vezes já testadas e aprovadas pelo gosto popular – embora às vezes, e cada vez mais, siga-se o caminho oposto e o livro ganhe fama por causa do filme.

No caso de 2001: Uma Odisseia no Espaço, não estamos falando do mesmo tipo de relação, pois não se trata de um filme meramente inspirado em um romance, mas sim de um trabalho conjunto entre diretor e escritor. Partiu de Stanley Kubrick, o cineasta, a provocação inicial que levou o autor Arthur C. Clarke a escrever aquele que talvez seja o seu livro mais conhecido.

Tornou-se célebre a carta que Clarke recebeu de Kubrick na sua residência no Ceilão, em meados da década de 60. Na época, o cineasta era mundialmente incensado pelo sucesso do seu filme  então mais recente, Doutor Fantástico (1964), enquanto Clarke era um dos maiores nomes da literatura de ficção científica, gozando de prestígio sobretudo por causa do hoje clássico romance O Fim da Infância (1953). A epístola de Kubrick propunha que ele e Clarke iniciassem conversas tendo em vista a realização do “proverbial bom filme de ficção científica”.

Naquele tempo, sci-fi era um gênero B no cinema, coisa de filmes baratos com homenzinhos verdes de pele de borracha e discos voadores toscos. No seu livro “2001: Uma Odisseia no Espaço – Stanley Kubrick, Arthur C. Clarke e a criação de uma obra-prima”, Michael Benson conta como se deu o primeiro encontro entre os dois titãs da literatura e do cinema, uma parceria que viria a transformar para sempre este gênero em um segmento respeitável da indústria. Logo que decidiu fazer um grande filme de ficção científica, Kubrick passou a ler tudo que podia, em busca de um autor-referência – até que seu colaborador Roger Caras, ao saber do projeto, indagou:

— Se você quer um escritor de ficção científica, porque não fala diretamente com o melhor de todos?

— E quem é o melhor? — retrucou o cineasta.

— Arthur C. Clarke.

Caras era amigo de Clarke e, graças a essa proximidade, o contato inicial foi feito. Reunidos em Nova York, onde Kubrick residia na época, os dois iniciaram as tratativas iniciais do que viria à luz, em 1968, na forma de um filme e um romance que revolucionariam a ficção científica. Após muitos debates e a definição conjunta de elementos (calcados em pesquisas científicas reais) que seriam abordados na obra, foi acertado que Clarke escreveria não um roteiro cinematográfico, mas um romance a partir do qual Kubrick teria liberdade para criar. “Tudo que você conseguir descrever eu consigo filmar”, disse o diretor ao romancista, segundo o relato de Michael Benson.

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A base para a história de 2001 foram alguns contos de Clarke, em especial A Sentinela, que trata de um primeiro e enigmático encontro da humanidade com uma inteligência alienígena na Lua: um dispositivo que, ao ser encontrado por exploradores terráqueos, envia um sinal de alarme para seus misteriosos criadores.

Este enredo se encaixa, no livro e no filme, em um panorama geral sobre como se daria o contato da humanidade com outros seres inteligentes de fora do planeta. A odisseia concebida por Clarke, em colaboração muito próxima com Kubrick, perpassa milhões de anos, desde o salto evolutivo de nossos antepassados primatas na África até os primeiros anos da exploração espacial, quando os mesmos seres extraterrestres que estimularam o surgimento da inteligência no Australopithecus africanus dão as boas-vindas ao homem espacial com um enigmático convite a um novo salto.

O livro 2001 apresenta, grosso modo, a mesma estrutura do filme de Kubrick (quem se importa com spoilers deve parar de ler precisamente agora, se bem que revelações feitas 50 anos depois do lançamento das obras já não configuram mais spoiler) :

a) Há 3 milhões de anos, um prólogo sobre como os macacos hominídeos, ao terem contato com um artefato alienígena, aprenderam a usar armas e, com isso, puderam comer carne e ampliar o desenvolvimento cerebral. Personificado no primeiro protagonista, Moonwatcher, está o nascimento do homem;

[Aqui, um parêntese para lamentar a escolha feita por Fábio Fernandes, o tradutor da edição da Aleph, para o nome do protagonista deste primeiro segmento. Na versão de Fernandes, “Moonwatcher” (um diamante literário de Clarke) virou “Aquele-que-Vigia-a-Lua”. Por mais que seja conceitualmente acurada, a tradução é suicida do ponto de vista literário. Imagine contar uma história sobre um sujeito com um nome desses. “E então Aquele-que-Vigia-a-Lua fez tal e tal coisa…” Não dá. Anos atrás, li outra tradução, não lembro de que editora, em que o nome de Moonwatcher foi traduzido como “Amigo da Lua”. Preserva o sentido e é muito mais bonito. Fim da digressão]

b) Após um salto narrativo de milhões de anos, somos transportados para o ano 2001, quando ocorre a descoberta, na cratera lunar de Tycho, de um dispositivo que, ao ser encontrado, envia um sinal de alarme para as profundezas do Sistema Solar;

c) O envio, a bordo da nave Discovery, de uma equipe com a missão de investigar o destino do misterioso sinal alienígena, uma viagem marcada pelo confronto entre os tripulantes humanos e o supercomputador HAL 9000, o cérebro da Discovery;

d) O mergulho do comandante Dave Bowman, único tripulante sobrevivente da Discovery e principal personagem do livro, em um portal interestelar que o leva aos confins do universo, onde encontra, enfim, os criadores dos misteriosos artefatos; e

e) Um epílogo sobre como o contato de Bowman com os alienígenas o coloca em um novo salto evolutivo. Três milhões de anos após a metamorfose de Moonwatcher de macaco semi-morto de fome a senhor da cadeia alimentar, acompanhamos a ascensão do humano para o pós-humano.

As diferenças de conteúdo do livro de Clarke em relação ao filme são mínimas: basicamente a natureza e o comportamento do monólito que influenciou os hominídeos a se tornarem caçadores-guerreiros, a destinação da Discovery (no livro, Saturno; no filme, Júpiter), o modo como se deu o confronto de Bowman com um HAL enlouquecido e, por fim, a viagem do comandante àquele lugar além do infinito onde nasce a criança-estrela.

Já na forma, uma obra difere bastante da outra. Pela própria disparidade de natureza entre o fazer do cineasta e o do escritor, Kubrick tinha como mostrar, com imagens, o que Clarke necessariamente precisou descrever com palavras. Assim, enquanto o longa-metragem de raros diálogos é uma obra imagética e enigmática, que apresenta os elementos da narrativa com pouquíssimas explicações, o livro apresenta uma história com muitos apostos e explanações. Esse foi um dos pontos, aliás, em que Clarke e Kubrick divergiram: ao ver o filme pronto, em 1968, o escritor julgou que as plateias não compreenderiam a proposta. Ele tinha preparado narrações em off para explicar o que estava acontecendo, uma ideia que acabou sendo abortada pelo diretor.

2001, o livro, é praticamente uma descrição comentada do filme. O gênio inventivo de Clarke, sua aposta na tecnologia como via de progresso e a clareza com que explica complicados conceitos científicos – em prosa classuda, ainda por cima – fazem de 2001 um dos romances fundamentais da ficção científica. A obra ganharia, nas décadas seguintes, três sequências: 2010, 2061 e 3001, nenhuma das quais conseguiu igualar a grandiosidade e a complexidade do original.

Pessoalmente, considero o filme de Kubrick melhor que o livro de Clarke, principalmente pela já citada escolha por deixar mais em aberto, envoltas em mistérios, as questões levantadas. Mas o livro de Arthur C. Clarke merece um lugar de destaque no panteão de grandes obras da literatura.