1984: a atualidade de uma distopia

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
01/01/2019

1984 capaO ano de 1984 foi, graças ao livro Nineteen Eighty-Four – ou simplesmente 1984 -, descolado para sempre do calendário ordinário para figurar no imaginário coletivo como a expressão de um futuro terrível. Não importa que estejamos em 2019 ou em qualquer outro ano: 1984 sempre paira sinistramente à nossa frente, como o fantasma de um porvir que tentamos evitar.

Publicado originalmente em 1949, o romance seminal de George Orwell se pretendia mais uma descrição hiperbólica do que acontecia em regimes totalitários da época (em especial o stalinismo soviético) do que uma previsão do futuro. Acabou por tornar-se uma distopia arquetípica, o principal expoente da linha de obras que abordam sociedades dominadas por meio da força e da dor.

Longe de terem ficado para trás, como excessos de um passado autoritário ou de um futuro ficcional absurdo, os elementos centrais do alerta orwelliano continuam assombrando o nosso presente. Trataremos aqui dos principais pontos do romance e de como podemos identificar essas questões no nosso quotidiano.

O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO

A história de 1984 se passa em um mundo dividido em três mega Estados totalitários: Oceania (representando o bloco ocidental), Eurásia (fazendo as vezes de União Soviética) e Lestásia (o equivalente à China Popular). Winston, o protagonista, vive em Londres, uma das importantes metrópoles da Oceania, uma ditadura opressiva onde os cidadãos são constantemente vigiados.

É comum que regimes fascistas adotem o culto à personalidade do líder. Na Oceania de Orwell, o dirigente supremo é o Grande Irmão, a personificação do Partido, expressa na foto de um rosto masculino paternal e austero, com olhar penetrante. “O Grande Irmão te observa”, alertam cartazes espalhados por Londres.

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E, de fato, o Partido emprega um poderoso aparato de vigilância para monitorar cada atividade dos cidadãos. Esse elemento já estava presente nos Estados fascistas da época de Orwell. No caso da União Soviética, há vívidos relatos dessa forma de controle, por exemplo, na clássica obra Arquipélago Gulag, de Alexander Soljenitsin, e nos depoimentos compilados por Svetlana Aleksievitch no livro O Fim do Homem Soviético. No romance 1984, aparecem também esses elementos, como a patrulha constante da Polícia do Pensamento e uma cultura de denuncismo, mas o principal símbolo da onisciência do governo, uma novidade da ficção em relação à vida real, é a teletela, uma espécie de televisão que não pode ser desligada e que transmite imagens ao mesmo tempo em que filma e capta o som de tudo que ocorre à sua frente. Sabedores da ubiquidade das teletelas, os habitantes da Oceania se condicionam a evitar atitudes suspeitas em frente a esses dispositivos e aprendem a procurar lugares não vigiados.

Hoje, passados 70 anos desde a extrapolação de Orwell, a realidade superou em muito a ficção em termos de infraestrutura de vigilância. Além das câmeras de vídeo que estão em cada esquina de nossas cidades, a principal transformação que o escritor britânico não conseguiu prever é que quase todos nós carregaríamos teletelas portáteis para toda parte – e por vontade própria! Se Winston se refugiava em um ponto cego do apartamento que o aparelho não conseguia focar, o equivalente pós-moderno do protagonista costuma levar a teletela consigo aonde quer que vá.

Não temos televisores vigilantes (pelo menos ainda não de forma massiva, mas a indústria está dando os primeiros passos nessa direção, como aponta este link), mas nossos laptops e smartphones possuem câmeras e, mais importante ainda, microfones capazes de monitorar o que fazemos e dizemos mesmo que não saibamos. Toda vez que instalamos um aplicativo no celular, costuma aparecer na tela uma mensagem solicitando permissão de uso de algumas funcionalidades, frequentemente o poder sobre a câmera, o microfone e os arquivos armazenados. Aqui, há uma ligeira sensação de controle e liberdade do usuário: bastaria clicar em “Não” para ficar livre da vigilância, mas a lógica da coisa é que, se é possível acessar os dispositivos remotamente, quem garante que essa permissão seja mais que uma mera formalidade para manter as aparências? Eles realmente precisam do seu aceite para bisbilhotar sua vida?

Veja também:

:: Ilustrações de Jonathan Burton para 1984

É fato conhecido que empresas como o Google e o Facebook utilizam e vendem dados dos usuários (os conteúdos que postamos e até os que digitamos mas desistimos de postar em nossas redes sociais, as pesquisas que fazemos, os likes que damos etc etc etc) para atingir suas metas comerciais. É comum ouvir relatos de amigos que dizem ter falado algo diante de um smartphone ativo ou em modo de espera e em seguida receberam em seu newsfeed do Facebook anúncios de produtos relacionados ao conteúdo da conversa. Já aconteceu comigo também. Que outros apps além do Facebook estão ouvindo e escrutinando minhas conversas?

O que impede que essa infraestrutura de vigilância seja utilizada por governos ou grupos políticos para fins mais mesquinhos que a venda de anúncios? O que nos garante que isso já não está sendo feito? E, aliás, o que impede que essas mega corporações acabem se tornando o próprio governo no futuro próximo?

Episódios como o uso de informações de milhões de pessoas na estratégia de campanha eleitoral de Donald Trump e, mais recentemente, na de Jair Bolsonaro evidenciam que esse temor já deixou de ser um exagero e que as questões suscitadas nos parágrafos acima já encontram ressonância no mundo real.

Aliás, aqui indico uma interessante (e estarrecedora) palestra que toca este tema (tanto pelo viés da vigilância quanto pelo da construção de realidade). Para assistir, basta clicar no link abaixo:

:: TED com Zeynep Tufekci

GUERRA É PAZ

A Oceania está permanentemente em guerra com um dos seus vizinhos – ou pelo menos é o que diz o discurso oficial, já que nenhuma das personagens retratadas na obra saiu dos limites do país para checar essa informação.

O militarismo e a mobilização contra inimigos internos e externos são o feijão com arroz de qualquer Estado fascista e, além de aglutinar o patriotismo e o sentimento de união em torno dos elementos identitários oficiais, legitimam a restrição de liberdades e a perseguição a opositores.

Na Alemanha nazista, o Inimigo do Povo era personificado por judeus e comunistas, principalmente. Na União Soviética,o regime vivia à caça de contrarrevolucionários e denunciando ameaças externas reais e imaginárias. Por quase 50 anos, o bloco liderado pelos Estados Unidos e o encabeçado pelos soviéticos competiram por hegemonia e utilizaram o medo do inimigo para justificar atrocidades e guerras.

Mesmo nos EUA, país celebrado no cancioneiro ocidental como a terra das liberdades individuais, a histeria anticomunista da Guerra Fria justificou, com mais força no período do chamado “Macartismo” (anos 1950), a perseguição e a proscrição de artistas, intelectuais e  profissionais denunciados como supostos comunistas ou simpatizantes.

(Curiosamente, no Brasil este movimento está sendo replicado com mais força agora, mais de 30 anos após o fim da Guerra Fria, quando grupos políticos saem com sofreguidão à caça de “comunistas”. A constante mobilização contra inimigos imaginários, seja contra professores acusados de doutrinação marxista, seja contra gays acusados de solapar os valores tradicionais, seja contra o que quer que se entenda por “bandidos”, seja contra nações vizinhas, segue sendo uma estratégia de governos e grupos autoritários para legitimar suas práticas.)

Finda a Guerra Fria, sepultada a experiência soviética, e após Fukuyama decretar o “fim da História”, eis que o atentado de 11 de setembro de 2001 desencadeia no Ocidente um novo movimento (a Guerra ao Terror) de justificação de ações militares no Exterior e de restrição de liberdades e garantias individuais no plano doméstico. O Brasil, mais uma vez, imitou esse expediente com um delay. Após as grandes e caóticas manifestações populares de 2013, a classe política correu em busca de um dispositivo legal para se proteger da fúria das massas, e o resultado foi uma lei antiterrorismo que pode ser usada para perseguição de indivíduos e de grupos organizados. A ferramenta de controle e repressão está à disposição do governo, com o agravante da histórica colaboração das polícias e do Judiciário no desrespeito aos direitos civis.

Regimes fascistas, da vida real e da ficção, costumam propiciar às massas momentos de catarse e extravasamento do ódio, para domesticar e canalizar essas pulsões em prol dos seus objetivos. Na História, temos vários exemplos, como o estímulo à execração pública e muitas vezes ao linchamento de pessoas identificadas como inimigas do regime: bruxas, hereges, judeus, contrarrevolucionários etc. Em 1984, o Partido organiza verdadeiras “missas” para incentivar os membros a exprimirem seu ódio aos traidores da Revolução, em especial Emmanuel Goldstein, o supremo criminoso ideológico inspirado em Leon Trotsky.

O uso do ódio como estratégia política não apenas não foi extirpado com a derrota dos grandes regimes fascistas do século 20,  como ressurge com força crescente no alvorecer do século 21. Grupos políticos, em especial os de extrema-direita, semeiam (e a cada ano colhem mais frutos) ódio a imigrantes, a usuários de drogas, a homossexuais, a pessoas de religiões diferentes da dominante, a intelectuais ou, aqui no Brasil, aos que são simplesmente identificados como “comunistas” (uma acusação genérica voltada não só aos marxistas genuínos, mas a qualquer pessoa que discorde da linha de pensamento dos próprios acusadores), enfim, contra qualquer inimigo capaz de aglutinar o apoio dos seus seguidores – e com frequência atraem na sua esteira setores da direita mais moderada e até do centro.

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A popularização da internet, nos anos 90 cantada em verso e prosa por pensadores como Pierre Lévy como a via de emancipação das gentes e de construção de uma cultura universalmente colaborativa e solidária, não apenas não impediu a política do ódio como lhe fornece ferramentas eficazes para o linchamento e o “escracho”. Por aqui, as eleições e o dia a dia da política têm sido marcados por uma polarização cada vez mais acirrada e beligerante, em que militantes e simpatizantes de um lado e de outro trocam o debate de propostas e de visões políticas pela guerra de torcidas, muitas vezes descambando para a violência física.

Numa coletividade fundada sobre o ódio, “Love is our resistance”, canta Matt Bellamy, líder do Muse, na faixa-título do álbum Resistance, inspirado no romance distópico de Orwell. Claro que é ligeiramente ingênuo cobrar amor em sociedades marcadas pela desigualdade imposta e por tensões históricas não resolvidas, mas é fato que a aposta no ódio também não está funcionando para melhorar o cenário. Pelo contrário.

IGNORÂNCIA É FORÇA

Em 1984, Winston trabalha no Ministério da Verdade, um órgão governamental incumbido basicamente de… ocultar a verdade, tanto por meio da alteração de registros históricos quanto pela criação e disseminação de notícias falsas.
O controle da informação e seu uso em benefício do regime eram características fundamentais dos fascismos da época em que Orwell escreveu sua distopia. Tornou-se célebre a máxima de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda da Alemanha nazista: “Uma mentira dita cem vezes torna-se verdade”. Por meio do sufocamento da imprensa não alinhada ao pensamento oficial e do controle total sobre as demais instâncias de produção e difusão de discurso, os fascismos que se espalharam por diversos países angariavam apoio popular para suas plataformas atrozes – ou, quando muito, dificultavam uma resistência eficaz da sociedade.

O stalinismo, marcado por constantes expurgos em que a dissidência foi praticamente dizimada e velhos heróis bolcheviques foram transformados pelo governo em Inimigos do Povo, precisou forjar um dispositivo ainda mais elaborado e assombroso: a alteração da História em escala industrial. Registros escritos que continham menções positivas a pessoas tornadas inimigas do regime foram destruídos ou alterados e chegou-se ao cúmulo da adulteração de fotografias para negar a participação dos proscritos em eventos históricos ocorridos poucos anos antes. O caso mais famoso é o do apagamento de Trotsky de fotos oficiais.

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Orwell concebeu as atividades do Ministério da Verdade da Oceania num contexto de tecnologia muito mais rudimentar que a do nosso tempo. Apagar veteranos bolcheviques das fotos exigia manipulação física das imagens. Winston, em sua estação de trabalho, tinha acesso a cópias físicas das notícias que reescrevia para alterar o passado ao sabor dos interesses do IngSoc (o Socialismo Inglês, nome do regime vigente) e em seguida incinerava os papéis.

Hoje, com incríveis ferramentas digitais de edição e criação ao alcance do usuário comum, a manipulação da informação ganha incremento quantitativo e qualitativo. Não apenas aumenta o fluxo de informação falsa, mas agrava-se a dificuldade de atestar sua falsidade.
Uma das expressões do momento é: fake news. O uso de notícias falsas para mobilizar a opinião pública tem se disseminado e foi um tema central tanto da eleição de Trump nos EUA quanto da de Bolsonaro no Brasil.

Uma preocupação a mais para o futuro: a princípio limitada à criação de textos e à manipulação de fotos, a difusão de fake news ganha um viés ainda mais assustador com a introdução de aplicativos que permitem a manipulação realista de vídeos. Um deles, que causou celeuma no começo de 2018, torna possível inserir o rosto de qualquer pessoa no corpo de atores de filmes pornográficos, por exemplo. A gama de possíveis usos desse tipo de ferramenta é ampla e certamente essa tecnologia adentrará em breve a arena política.

Com a disseminação desenfreada das fake news, as próprias noções de realidade e de verdade são solapadas, o que nos leva ao próximo elemento da distopia orwelliana presente no nosso dia a dia.

DOIS MAIS DOIS PODEM SER CINCO

Um dos conceitos centrais do romance 1984 é a noção de duplipensar. Duplipensar é ajustar a mente para acreditar em ideias logicamente contraditórias. Por exemplo: nosso regime mata para defender a vida. Fazemos política ideológica para combater a política ideológica. Doutrinamos as crianças para evitar que as crianças sejam doutrinadas. Tornamo-nos a classe dominante em nome da abolição das classes. Elegemos corruptos para acabar com a corrupção.

Claro que a hipocrisia sempre existiu e podemos citar inúmeros exemplos de líderes políticos e religiosos da vida real que pregam uma coisa e fazem outra, mas no romance de Orwell as personagens realmente acreditam no que dizem e fazem; esta é a força do duplipensar. O’Brien, o carrasco de Winston, de fato acredita estar fazendo o bem quando faz o mal -e sabendo o que são o bem e o mal.

Longe de ser apenas um devaneio criativo de Orwell, o duplipensar está bem em voga na nossa realidade. Em 2016, o Dicionário Oxford elegeu o termo “pós-verdade” como a palavra do ano.  Um conceito cada vez mais atual.
As fake news citadas no tópico anterior não fazem tanto sucesso apenas por aparentarem ser reais; fazem sucesso sobretudo porque quem nelas acredita quer que elas sejam reais. Fatores emocionais e psicológicos ganham cada vez mais terreno em relação à realidade objetiva (por mais problemático que o conceito de “objetivo” seja).

Pode nos causar assombro e perplexidade o fato de pessoas acreditarem que um candidato a presidente pretende dar às crianças na escola mamadeiras com bico em forma de pênis para transformá-las em homossexuais. O ponto é que a pessoa que acredita nisso quer que a informação seja verdadeira, porque ela precisa que o referido candidato ou grupo político seja identificado com tudo que ela mais abomina, pois isso fortalece os vínculos que ela tem com o seu próprio grupo, com a sua própria cultura. Poderíamos formular assim um pouco do que se passa, como um turbilhão, na cabeça do conservador que recebe a foto de uma mamadeira de piroca no Whatsapp: “Não apenas minha religião e meu modo de vida, em suma, tudo em que sempre acreditei estão ameaçados, mas minha própria identidade, o fato de eu ser heterossexual, cristão, adepto de um código moral bem específico, por isso precisamos denunciar e derrotar esse inimigo, já que ele coloca em risco a minha existência e a da minha família”.

Nesse cenário, torna-se cada vez mais difícil promover o debate de ideias, pois as ideias perdem terreno para as emoções e o desejo de anular e derrotar um oponente, o que é potencializado por aplicativos e redes sociais que oferecem mecanismos de recompensa emocional e algoritmos que criam bolhas de conforto e identificação vedadas ao outro, alheias ao contraditório e à dialética. Vivemos um tempo de interdição deliberada das instâncias de debate público e isso serve como uma luva aos interesses de domínio e controle de grupos políticos em busca de poder.
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Em resumo, passaram-se 70 anos desde que Orwell publicou sua distopia e os elementos centrais dessa novela trágica continuam assombrando a realidade.

Entramos hoje em 2019, mas o ano seguinte pode ser 1984.