Red Son: quando o Super-Homem foi comunista

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
22/03/2016

Estamos acostumados a ver o Super-Homem como um herói identificado com o american way of life, tanto que, em HQs publicadas durante a Guerra Fria, o Homem de Aço chegou a atuar como combatente anti-soviético sob as ordens do presidente dos Estados Unidos.

Mas, pela própria lógica do seu universo, a ‘americanidade’ da personagem é um mero acidente. O bebê Kal-El, o neo-Moisés kriptoniano enviado ao espaço para escapar da destruição do seu planeta natal, calhou de cair em Pequenópolis (Smallville), Kansas, onde foi encontrado por Jonathan e Martha Kent, que criaram como um filho o alienígena que um dia se tornaria super-herói.

E se a trajetória de queda da nave kriptoniana fosse outra? E se, pelo giro natural do planeta Terra, o pequeno náufrago Kal-El fosse resgatado por outras pessoas em outro lugar? E se fosse, por exemplo, uma fazenda coletiva no interior da Ucrânia soviética? Como seria a cabeça da personagem, se moldada em outra sociedade? Como seria o mundo se houvesse um Super-Homem comunista sob o comando de Stalin?

Esta é a premissa de Red Son (no Brasil, Entre a Foice e o Martelo. Para ler a tradução brasileira, clique aqui), HQ em três capítulos criada por Mark Millar e publicada em 2003. A minissérie, que mergulha num exercício de ‘historiografia alternativa’, começa em 1953, ano da morte (na nossa timeline) do ditador soviético Josif Stalin. É neste ano que o mundo é abalado pela notícia de que aURSS tem a seu serviço um super-humano capaz de desequilibrar a balança geopolítica.

A oposição capitalismo x socialismo desperta ainda hoje, mais de duas décadas depois da queda da Cortina de Ferro, muitas paixões e opiniões extremadas. Millar resistiu à tentação de escrever uma peça panfletária e produziu uma obra avessa aos maniqueísmos. Red Son discute o sonho de uma sociedade racionalmente planificada, onde o Estado atue como um protetor dos pequenos, garantindo-lhes segurança, estabilidade e prosperidade.

A utopia soviética implodiu, entre outros motivos, porque não conseguiu cumprir a promessa de construir uma nova sociedade sem classes e sem opressão. A burocracia estatal tornou-se um dragão de infinitas cabeças interessado apenas em proteger e nutrir a si próprio. Os altos burocratas substituíram a nobreza czarista e os figurões capitalistas como classe dominante sustentada à custa da miséria de milhões. E se fosse diferente? E se, em vez de parasitas de terno, a burocracia estatal fosse comandada por um super-herói onipotente e abnegado, disposto a usar todos os seus poderes para garantir a realização plena da sua utopia?

Centenas de anos antes da Revolução Russa, um filósofo inglês chamado Thomas Hobbes escreveu que “o homem é o lobo do homem”. Para ele, a “condição natural” da humanidade, sem Estado, é a guerra de todos contra todos, por isso prescreveu como solução a construção de um Estado forte, um Leviatã, um monstro impessoal capaz de garantir a paz e o cumprimento do contrato social. O problema prático é que, por ser administrado por lobos, esse Estado acaba sendo falho. Red Son apresenta a hipótese de um Estado que não é administrado por um lobo.

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Na HQ, Stalin prepara o Super-Homem para sucedê-lo no poder e instaurar uma dinastia de super-governantes (aliás, há aqui uma interessante coincidência histórica: o sobrenome real do ditador soviético era Djugachvili. Ele adotou para si o nome “Stalin”, que significa justamente “Homem de Aço”). O herói, a princípio, fica relutante, pois não deseja o poder (o governante ideal é aquele que não aspira a governar, teorizou Platão há mais de dois mil anos). Mas, ao  se dar conta da inaptidão do Estado soviético para acabar com o sofrimento do seu povo, ele assume para si a missão de ser o governante perfeito de um Estado (idealmente) perfeito.

A QUESTÃO DA LIBERDADE

O grande antagonista do Super-Homem, como não poderia deixar de ser, é Lex Luthor. Mas, nessa história que nega os maniqueísmos, Luthor não é exatamente um vilão.

Trata-se de um cientista (que depois se torna político) encarregado pelo governo americano de criar uma arma para neutralizar o poder do Super-Homem. Assim, temos em Red Son uma corrida armamentista que, diferente daquela da nossa timeline, que foi baseada na fabricação de bombas atômicas, se dá pela criação de super-combatentes. Luthor dedica décadas a tentar produzir criaturas com super-poderes capazes de rivalizar com os do Super-Homem. Em vão.

Além de derrotar os inimigos criados por Luthor, o Super-Homem ameaça aniquilar os Estados Unidos na arena geopolítica. Sob seu comando, a União Soviética prospera e acaba engolindo quase todos os países do mundo. O ideal de Kal-El é a formação de um próspero Estado mundial sob seu comando.

Super-homem-Entre-a-foice-e-o-martelo-01-de-03-000Parece uma boa ideia ter fartura, segurança e um governante com super-poderes, capaz de resgatar vítimas de um acidente com a mesma presteza com que garante a comida na mesa? Talvez não, se o preço a pagar por essa estabilidade for entregar a liberdade.

O Estado perfeito do Super-Homem é, na prática, uma ditadura. Uma ditadura onde opositores são presos e os dissidentes mais perigosos são lobotomizados e transformados em autômatos.

Incapaz de derrotar o Super-Homem pela força física, Luthor adota outra estratégia: derrotar o seu Estado. O super-cientista ingressa na política e concentra toda a sua inteligência e todas as suas energias na recuperação da economia e dos valores dos Estados Unidos, entre eles a liberdade.

Outros personagens do universo do Super-Homem também estão em Red Son. Lois Lane (aliás, Lois Luthor, pois nessa timeline a repórter se casou com Lex), Lanterna Verde, Mulher Maravilha e Brainiac, entre outros, são algumas das figuras que aparecem, e atuam como peças do xadrez geopolítico jogado por Kal-El e Luthor.

BATMAN X SUPERMAN

E há, sobretudo, a presença marcante do Batman.

O Homem-Morcego aparece em Red Son como um importante antagonista das ideias do Homem de Aço, mas não se trata de um bilionário que sai às ruas para desafiar a morte, e sim de um órfão da repressão soviética, que viu os pais serem mortos pela polícia secreta e se converteu, quando adulto, em um símbolo da luta contra o arbítrio.

Além da oposição global representada pelos Estados Unidos de Lex Luthor, a ditadura do Super-Homem é desafiada internamente pelo terrorista Batman, um radical anarquista em guerra contra o Estado. Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada, berrava Humberto Gessinger.

O Batman soviético, como o de Gothan, sente que não tem nada a perder e está disposto a morrer por suas crenças e seus demônios – no caso de Red Son, sua angústia e seu tormento são provocados pelo Estado que assassinou seus pais e lobotomiza os que não se sujeitam à autoridade.

Caçado pelas forças armadas e pela polícia secreta, o Homem-Morcego acaba sendo pego pelo super-ditador em pessoa, e o confronto entre os dois é um dos pontos altos da minissérie.

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Como é usual, a principal arma do Batman é sua inteligência, e ele consegue usar a tecnologia para fazer frente aos poderes inatos de Kal-El. Não contaremos o desfecho desse confronto para não dar spoilers demais, mas o ponto é que se trata de algo maior que um choque de guerreiros. É um choque de visões de mundo, que repercute fora da arena em que os dois oponentes se enfrentam.

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XEQUE-MATE

O final de Red Son é surpreendente e assombroso. Como não se trata de uma história maniqueísta, o confronto final entre Kal-El e Luthor se dá na arena das ideias e o ditador é levado a refletir sobre o que se tornou o seu Estado perfeito. Não seria o projeto inteiro do Super-Homem o mero passatempo de uma criança alienígena que transforma a humanidade na sua própria fazendinha de formigas?  Ele tem o direito de fazer isso? Como a sua intenção original (garantir às pessoas paz e prosperidade) era boa, Kal-El é capaz de reconhecer que a sua utopia era um erro, pois a paz e a prosperidade que fabricou não eram genuínas, e sim impostas pela força e pelo medo.

Lex, por sua vez, sai vitorioso e funda sua própria dinastia tecnocrata, perpetuando o seu poder e o de seus descendentes no comando da sua própria versão de um super-Estado próspero e estável. Aqui, mais uma vez, não há preto e branco, mas tons de cinza, e o recado parece ser que, independente de quem são os figurões no poder, o povo comum sempre é formado por peões a serviço de reis e rainhas com suas próprias intenções.

O epílogo, que revela ao mesmo tempo o destino da humanidade e a origem do Super-Homem, é de uma engenhosidade espantosa, e merece ser comentado num post específico, a ser publicado nesta Taberna no futuro próximo.