Matrix Comics: a guerra contra as máquinas em quadrinhos

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
31/03/2015

the-matrix-comics-Volume_1A trilogia cinematográfica Matrix, uma das mais influentes e citadas obras de ficção científica das últimas décadas, gerou, além de uma enorme variedade de citações e criações de fãs, diversos subprodutos oficiais, como a compilação de curtas de animação Animatrix, o jogo Enter The Matrix e séries de quadrinhos.

Uma dessas séries, a seleção The Matrix Comics, lançada em 2003 pela Burlyman Entertainment (empresa dos criadores do filme), teve tradução publicada no Brasil em 2009 pela Panini. As 12 histórias do Volume 1*, criadas por diversos roteiristas e ilustradores, exploram o universo pós-apocalíptico de Matrix com grande riqueza de traços e concepções diferentes. Vale muitíssimo a leitura.

Conheça as histórias presentes no livro:

Fragmentos de informação

Roteiro: Larry e Andy Wachowski

Arte: Geof Darrow

Simulando uma pesquisa histórica nos arquivos de Zion (a última cidade humana e lar da Resistência), a história reconstitui um dos primeiros episódios do que se tornaria a guerra dos humanos contra as máquinas: o julgamento do robô doméstico B1-66ER, acusado de matar o seu dono.

O conto mistura quadrinhos e narrativa textual, mimetizando transcrições de momentos do julgamento e trechos de reportagens, fragmentos que, somados, nos contam como um androide inteligente usado para serviços abjetos se sentiu humilhado na sua condição de escravo e se revoltou ao adquirir consciência da sua própria mortalidade.

O processo contra B1-66ER influencia e divide a opinião pública americana no debate dos direitos civis: máquinas inteligentes têm direito à cidadania e a um tratamento igualitário? A sentença do caso torna-se uma das centelhas que incendeiam a relação das máquinas com seus senhores humanos.

Em tempo: no universo de Matrix, tudo seria tão mais fácil se os criadores dos robôs inteligentes tivessem dado ouvidos a Isaac Asimov e usado suas Três Leis da Robótica, não?

Preocupando-se com as pequenas coisas

Roteiro e arte:  Bill Sienkiewicz

Misturando ilustração e colagem, Sienkiewicz conta a história de um cara chamado Dez e de Mia, sua namorada que trafica primeiro drogas e, depois, armas. Dez tenta levar uma vida normal e critica as atividades ilícitas de Mia, enquanto ela abraça a transgressão e a criminalidade por entender que há algo muito errado com o mundo.

Um dia, Dez tem uma epifania e consegue perceber a ilusão gerada pela Matrix. É quando ele e Mia enfrentam a violência do sistema.

Uma vida menos vazia

Roteiro e arte: Ted McKeever

O ponto de virada do roteiro de Matrix se dá quando o hacker Neo conhece o guru Morpheus e precisa decidir se toma a pílula vermelha (que representa o conhecimento pleno da realidade e a ruptura radical com o sistema) ou a azul (a aceitação passiva e sem reflexão da vida de ilusão).

A história concebida por Ted McKeever trata de uma personagem que faz o oposto de Neo: ela escolhe engolir a pílula azul e, em vez da dureza do mundo real, vive para sempre a angústia e o arrependimento de ter fugido da verdade.

Golias

Texto: Neil Gaiman

Arte: Bill Sienkiewicz e Gregory Ruth

Apesar de ser uma das melhores histórias de Matrix Comics, Golias não deveria estar na coletânea – por um motivo bem simples: não é uma história em quadrinhos. Trata-se de um conto de Gaiman que recebeu, nas margens das páginas, algumas ilustrações genéricas sem qualquer função narrativa.

Questões formais à parte, é uma leitura recomendadíssima. O conto, escrito em 1999, antes mesmo do lançamento do primeiro filme da trilogia, trata das idas e vindas de um personagem entre a ilusão compartilhada pelos humanos conectados à Matrix e o mundo real, num contexto em que um ataque alienígena contra a Terra ameaça ao mesmo tempo a sobrevivência dos humanos e a das máquinas.

Esperança ardente

Roteiro e arte: John Van Fleet

A história acompanha uma missão da tripulação da nave rebelde Caronte: entrar em um orfanato e resgatar uma órfã chamada Esperança, enfrentando a ameaça dos Agentes da Matrix.

Borboleta

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Roteiro e arte: Dave Gibbons

O célebre desenhista de Watchmen apresenta uma história enigmática, de atmosfera zen e belíssimas imagens, em que planos de realidade distintos se sobrepoem em meio ao sonho de Chuang Tzu: será ele um homem que sonhou que era uma borboleta, ou uma borboleta que sonhou que era um homem?

Uma espada de cor diferente

Roteiro e ilustrações: Troy Nixey

Cores: Dace McCaig

Após a queda de uma nave da Resistência durante um voo de reconhecimento, o único tripulante sobrevivente é resgatado por um velho eremita que parece louco… um Dom Quixote cyberpunk que tem seu próprio plano de ataque contra as máquinas.

Sacou?

Roteiro e arte: Peter Bagge

Com desenhos que não são grande coisa e uma história bobinha, é uma tentativa de metalinguagem: será Matrix só um filme de ficção, ou uma denúncia da realidade oculta? A ideia é boa, mas podia ter sido explorada com mais sutileza.

Não existem flores no mundo real

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Roteiro e arte: David Lapham

A história acompanha a corrida do rebelde Rocket para fugir dos agentes e encontrar uma saída da Matrix enquanto, no mundo real, sua nave é atacada por sentinelas.

A história do moleiro

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Roteiro e arte: Paul Chadwick

Acho que esta é, de todas, a minha história favorita. Trata da jornada dos libertos da Matrix para produzir trigo numa terra devastada e partilhar com os companheiros o pão da esperança. Além do lindo enredo, os desenhos de Chadwick são belíssimos.

Liberdade artística

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Roteiro: Ryder Wyndham

Desenhos: Kilian Plunkett

Cores: Jeromy Cox

Se a história “Sacou?” é uma tentativa tosca de metalinguagem, esta é bem mais inteligente e espirituosa. A artista plástica Raven Underwell cria obras assustadoras, sobre um mundo de pesadelos onde máquinas monstruosas oprimem a humanidade. Será que são mesmo pesadelos, ou realidade?

Caçadores e coletores

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Roteiro e arte: Gregory Ruth

Esta é outra bela e triste visão do futuro pós-apocalíptico de Matrix. Conta a história de uma dupla de coletores de despojos que vagam pela terra devastada para tentar recuperar fragmentos do passado da humanidade – e, eventualmente, convertem-se em caçadores de máquinas.

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* A Burlyman lançou um Volume 2 com novas histórias em 2004, mas essa segunda obra não foi traduzida para o mercado brasileiro.