Do Inferno: uma análise da HQ de Alan Moore e Eddie Campbell

Gustavo Kaspary
Por Gustavo Kaspary
29/01/2016

do_infernoO caso Jack, O Estripador é, ainda hoje, um dos mistérios da história. Os aspectos e as circunstâncias acerca dos cinco assassinatos cometidos em setembro de 1888 criaram uma mitologia que se espelha pela literatura, pelo cinema e pelos quadrinhos. A HQ Do Inferno é um perfeito exemplo dessa mística característica do mito Jack The Ripper.

Com roteiro de Alan Moore e traço de Eddie Campbell, Do Inferno segue a teoria de que Sir William Gull, um renomado médico da época, fosse o assassino em série de Whitechapel. A HQ também se baseia na suposição de que o caso inteiro não passou de uma conspiração da Coroa. (Embora ambas as teorias, tendo como origem principalmente o livro Jack The Ripper: The Final Solution, não sejam levadas a sério pelo próprio Moore, grande parte das informações possuem bases verídicas, sendo encontradas no apêndice.) Sobretudo, Do Inferno é uma história sobre uma investigação, sobre a Londres vitoriana e sobre o modus operandi de um serial killer.

CARACTERÍSTICAS DA TRAMA

Do Inferno não é clichê. Espera-se que uma história sobre um serial killer como Jack The Ripper tenha dois pontos essenciais: um mistério que permeie toda a trama do início ao fim e, para tanto, que a identidade do assassino seja desconhecida do leitor, sendo feita, apenas nas últimas páginas, uma revelação surpreendente. À primeira vista, partir em qualquer outra direção que não esta parece um desperdício. Do Inferno, porém, opta por um rumo totalmente diferente. Logo nos primeiros capítulos, já sabemos quem é o futuro autor dos assassinatos.

Percorrer este caminho, ou seja, o inverso do que se presume quando se fala sobre uma premissa de Jack The Ripper, já produz seu efeito logo nas primeiras páginas. Mesmo com a aparição prematura de Jack, poucos elementos do que conhecemos sobre o caso são encontrados no começo. “Preparação de terreno”, pensa o leitor. Mas não. Conforme passam-se os capítulos e o caráter da HQ continua o mesmo, entender-se-á que a trama que envolve os assassinatos de Whitechapel está mais como um pano de fundo do que como o tema principal de Do inferno. Não significando, contudo, que a mesma não apareça, mas sim que dividirá espaço com vários outros temas tão curiosos quanto (dentre os quais, posso citar: a maçonaria, a cidade de Londres, a passagem de um século para outro etc.).

Embora apareçam de maneira mais abrangente, estes outros núcleos são subordinados ao pano de fundo, à história de Jack, O Estripador. Tomamos, por exemplo, o desbravamento das ruas da Londres vitoriana pelos personagens: durante esta parte, o leitor é agraciado com os mais diversos fatos históricos, detalhes acerca dos monumentos de Hawksmoor e até mesmo sobre a diferença entre o racional e o sobrenatural. Em absoluto, temas que não possuem nada que realmente faça parte do mito que se criou em torno da figura do Estripador. Moore, contudo, faz com que cada tema abordado tenha, de alguma forma, relação com Jack. Em outras palavras, Moore encontra um motivo plausível para tratar dos mais variados assuntos.

Novamente reforçando a ideia de que, mesmo não sejam dispostos de modo que sejam o fator único de Do Inferno, detalhes e elementos históricos do caso Jack The Ripper estão ali. Portanto, uma das coisas mais interessantes na HQ é, após o estudo prévio até sobre o mais ínfimo pormenor acerca dos eventos relacionados ao caso de Whitechapel, encontrar cada informação retratada de uma forma diferente, mas mantendo a sua base. Por exemplo, sabemos que o título Do Inferno refere-se ao remetente na carta que mais provavelmente foi realmente escrita por Jack. Nos quadrinhos, porém, o fato é incrementado: ele escreve tal remetente por sua admiração a Dante. A conclusão é de que, embora detalhadamente fiel, a história possui certa licença poética, não perdendo, assim, seu traço artístico.

Uma vez revelada a identidade do serial killer, e, como consequência, eliminada a possibilidade de gerar suspense através deste meio, Moore consegue suscitar mistério por pequenos enigmas colocados em cada capítulo. Visões, referências históricas, frases que só serão entendidas no final de determinada parte são algumas das artimanhas usadas. E usadas de maneira equilibrada, não de forma desengonçada, e tampouco aparentam ser uma tentativa desesperada de promover um sentimento impróprio à história.

A ARTE DE EDDIE CAMPBELL

“Você conhece bem Londres, Netley?”

“Como a palma da minha mão, senhor.”

“Ah, ah, tão suja quanto, com certeza, mas Londres tem mais facetas: é também símbolo, história e mito.”

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É desta sujeira a que se refere Dr. Gull que se originam os grandes desenhos de Eddie Campbell.  Por vezes, resumem-se a rabiscos onde predomina-se a escuridão:  as sensações de pouca iluminação e péssima visibilidade estão no cerne de Do Inferno. Não é por acaso que os desenhos se tornam muito mais interessantes quando retratam a noite, onde é visto um lampião ao fundo e o restante são apenas trevas.

A representação da Londres vitoriana é o ponto forte da arte de Campbell. A caracterização de personagens históricos conhecidos é interessante, as catedrais da cidade também, mas o principal são as ruas noturnas e desertas, os bares, as residências imundas, o clima poluído.

O QUE É NECESSÁRIO SABER ANTES DA LEITURA DE DO INFERNO

Mesmo com o apêndice inserido por Moore, para o bom andamento da leitura, alguns conhecimentos acerca do caso Jack The Ripper e da Era Vitoriana são necessários. Afinal, embora contendo uma ampla gama de informação, o apêndice não pode ser visto como um guia preparativo para a obra.

Em relação à Era Vitoriana, uma breve pesquisa sobre deve bastar. Os costumes, as vestimentas, os principais personagens históricos. Para aqueles, porém, que querem entender grande parte das referências sem precisar, vez que outra, olhar o apêndice, o trabalho de pesquisa se torna mais árduo: os monumentos de Hawksmoor e a composição da Londres vitoriana (em especial, obviamente, do distrito de Whitechapel) devem ser estudados detalhe por detalhe.

A tarefa se torna mais difícil quando se trata dos assassinatos. Nesse quesito, as informações referentes aos detalhes de cada crime se encontram no apêndice, mas conhecê-las de antemão provoca uma tensão no leitor. Pois, uma vez que já se sabe o destino infeliz de cada personagem, os sentimentos que possuímos por cada um deles no decorrer da leitura se transformam. Logo, a investigação sobre o caso de Jack The Ripper antes do primeiro contato com Do Inferno é essencial.

Após o estudo destes pontos em especial, a leitura de Do inferno fica muito mais fluída. Não nos livra totalmente do uso do apêndice, mas reduz consideravelmente a sua necessidade. Eliminar as consultas ao apêndice é, pelo menos para mim, uma tarefa impossível, vez que Moore faz referência a obras e personagens históricos que nem ao menos possuem informações em português.