Um pequeno aspecto de A Chegada

Gustavo Kaspary
Por Gustavo Kaspary
06/03/2017

Há uma parte em particular de Interestelar que me deixa furioso. Quando aparece o buraco de minhoca pela primeira vez. Não me entendam mal, os efeitos especiais são fantásticos. O problema é a reação de cada personagem. Ao invés da mais pura e simples contemplação, um deles começa a explicar como tudo aquilo funcionava e, bem, o efeito visual foi todo jogado no lixo. Preferiu-se atingir o belo e o sublime através das palavras quando bem ali na frente estava um buraco de minhoca. Pessoalmente, excluiria toda a conversa e deixaria as imagens e o movimento fazerem todo o trabalho. Não é só nessa cena que esse fenômeno acontece, mas aí foi mais dorido. Em suma, todas deixam a sensação de que uma grande oportunidade foi negligenciada.

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No primeiro contato visual com os heptapódes, em A Chegada, se dá justamente o contrário. E é a esse pequeno aspecto que me refiro no título: optar por uma ação com pouca conversa e que se expresse pela imagem! Os personagens estão vendo algo novo, extraterrestre e que beira o fantasioso. Nada mais justo que reajam a essa visão não com palavras, mas sim com uma contemplação. Louise fecha o punho, tem a respiração ofegante e está com os olhos lacrimejantes. Isso é uma reação que concilia o verossímil com o estético. Pois a sensação que se procura, a de medo frente a algo nunca visto antes, é expressa de maneira cinematográfica, com movimento e imagem. Nós, os espectadores, não precisamos que ninguém ali diga “estamos com medo” ou “não sabemos o que diabos é isso” porque tudo isso se exprime de maneira mais sofisticada e plausível com a linguagem não verbal. Tudo bem que há algumas palavras jogadas ali e um barulhão de fundo, mas as duas coisas estão subjugadas, ou melhor, trabalham em função do visual e não o contrário.  É a minha parte favorita do filme! Fiquei tão empolgado que, na hora, me lembrei de 2001 e Solaris.

Entretanto, é uma cena que não dura muito e que também não representa o meio de se expressar de A Chegada. Lá pelo meio, há um corte na narrativa para uma explicação da linguagem dos heptapódes que me fez não gostar tanto do filme quanto eu pensei que gostaria. Entendo sua necessidade, e até achei interessantíssimo, mas, de novo, como em Interestelar, fiquei com a sensação de que se poderia arriscar mais pelos meios do cinema, comunicar através de artifícios só possíveis nessa arte.  Mas, repito, entendo a necessidade da explicação pela fala, ainda mais quando se trata de uma adaptação cinematográfica de um conto e quando a história se trata justamente da linguagem escrita/falada. O que eu acho é que, também justamente por se tratar de uma adaptação cinematográfica para uma obra que já tem sua versão literária, é preciso de uma harmonia maior entre a arte cinema e a arte literatura.

Eu não estou dizendo que o cinema deveria banir a linguagem verbal. Se assim fosse, os filmes mudos seriam a melhor coisa da sétima arte (e mesmo eles utilizam palavras).  Só estou me perguntando em que ponto a linguagem falada passa a influenciar negativamente o filme como uma obra visual, dando um tom mais literário do que puramente cinematográfico (como se ler o roteiro fosse o suficiente para a apreciação do filme). Ou melhor, o filme precisa ser avaliado pela característica inerente da sétima arte ou visto como uma obra que abrange aspectos tanto literários quanto cinematográficos? Sua qualidade depende unicamente do movimento? Mas essas perguntas todas eu nem desejo ou poderia responder. Já são tema para outro post, quem sabe. Um mais longo.