Trilogia Hobbit: a doença do ouro em Peter Jackson

Gustavo Kaspary
Por Gustavo Kaspary
27/11/2015

Inveja e pena sinto daqueles que puderam ver a trilogia de Peter Jackson antes de ler o livro de Tolkien. Invejo, pois tiveram a chance única de assistir a uma obra cinematográfica espetacular aos olhos de quem ainda não se deparou com a fonte original. Tenho pena (e friso que este sentimento é maior do que o primeiro) porque não terão a mesma experiência com o livro como o fariam se o houvessem lido antes do contato com O Hobbit de Peter Jackson.

Digo “O Hobbit de Peter Jackson” porque é a maneira de se referir à trilogia que melhor define seu caráter. “Uma Jornada Inesperada”, “A Desolação de Smaug” e “Lá e de Volta Outra Vez A Batalha dos Cinco Exércitos” são filmes que, afinal, levam a marca e as próprias ideias do diretor acima da fidelidade esperada em relação a O Hobbit de J. R. R. Tolkien.

61-224x300E não pensem que estou sendo covarde ao comparar ou reclamar da infidelidade de uma adaptação cinematográfica que apenas se baseia em uma obra literária (ou seja, que não tem como obrigação retratar de forma exatamente igual o trabalho do qual se derivou), já que ambos são de mídias diferentes, com distintas formas narrativas. Até mesmo a trilogia Senhor dos Anéis difere muito do material original, e, apesar disso, não deixa de ser um feito primoroso do cinema e um exemplo de adaptação. O grande problema da trilogia de O Hobbit não é apenas falta de fidelidade, mas sim a gigantesca, absurda e sem motivo falta de fidelidade.

Essa tamanha falta de fidelidade não é, porém, característica dos três filmes. Uma Jornada Inesperada conseguiu remeter o espírito de aventura encontrado em A Sociedade do Anel, fazendo com que até o mais cético dos fãs adquirisse certa esperança em relação aos próximos dois longas. Não é por menos que não tenha acumulado uma série de críticas negativas como seus sucessores o fariam. Afinal, Peter Jackson, ao menos aqui, aproveita o tempo em demasia não para expor suas próprias criações, e sim para buscar nos mais distintos apêndices que Tolkien escreveu detalhes que consigam sustentar uma adaptação de três horas. Tais detalhes trazidos diretamente dos escritos do professor vêm, infelizmente, recheados de cenas desnecessárias que, ofuscadas pelos pontos positivos do filme, não são considerados ao primeiro olhar.

5-300x161A Desolação de Smaug, em contraponto ao seu antecessor que dera resultados positivos, é um balde de água fria. Não só sai totalmente do tom de O Hobbit, como apresenta pequenas tramas nem um pouco plausíveis. Novamente, fica mais do que visível o desespero do diretor em tentar achar histórias que consigam preencher um enredo que não é capaz de suportar três filmes. O resultado é uma adaptação que se esquece de desenvolver personagens comoBeorn ou o próprio hobbit Bilbo Bolseiro (presentes no livro) e bate na mesma tecla ao introduzirLegolas e Tauriel (esta última, sendo criação de Peter Jackson), personagens com importância mínima no núcleo principal.

E, no momento em que Peter Jackson opta por transformar O Hobbit em uma história sobre uma grande batalha (tal mudança pode ser notada no momento em que há a troca de títulos: Lá e De Volta Outra Vez por A Batalha dos Cinco Exércitos), o significado da trama já não mais existe. Afinal, o longa agora trata unicamente sobre a Batalha dos Cinco Exércitos, que tem duração máxima de dez páginas no livro, deixando completamente para trás a aventura de um hobbit que se vê fora de casa, perdido em uma grandiosa terra. A ambição do diretor em fazer com que O Hobbit fosse uma trilogia tão grandiosa quanto O Senhor dos Anéis foi seu erro fatal e mais aparente no terceiro filme.

VERSÃO ESTENDIDA E A DOENÇA DO OURO EM PETER JACKSON 

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Ponto mais intrigante, irritante, para não dizer outra coisa, é as cenas feitas especialmente para a versão estendida. Em O Senhor dos Anéis, cada parte que ficou de fora não acrescentava grande coisa para a história ou apenas não fazia falta. Já na trilogia de O Hobbit, o leitor ávido de Tolkien sente na pele cada exclusão de significativos momentos da versão de cinema, ainda mais quando as mesmas dão lugar para cenas pouco inspiradas e com o único objetivo de preencher espaços vazios que os próprios filmes trazem à tona.

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Tais cenas, portanto, são apenas mais um exemplo do significado comercial de O Hobbit: pois, se antes a necessidade de uma versão estendida (que retira grande ânimo de assistir ao filme no cinema, vale lembrar) se devia unicamente à falta de tempo, fica notável, se não de maneira até mesmo vergonhosa, que Peter Jackson opta de maneira proposital por descartar passagens importantes da história em prol de uma versão completa.

Em outras palavras, o que primeiramente foi concebido para os mais fervorosos fãs de Tolkien, a versão estendida se assume agora, com a trilogia O Hobbit, um produto feito para todos, vez que apenas com ela é possível uma compreensão completa, satisfatória e plausível da história.