The Visit: a retomada de Shyamalan (escrevi certo?)

Senhor D
Por Senhor D
26/11/2015

M. Night Shyamalan (escrevi certo?) precisava recuperar prestígio, superar fracassos recentes. Para isso, investiu em uma obra autoral, de baixo orçamento, com potencial criativo e experimental. Para não ter erro, escolheu terror e suspense, gêneros com garantia de público cativo. Juntou uma série de conceitos batidos a um enredo com relações familiares pouco exploradas, incluiu suas convicções cinematográficas e, voilá, temos A Visita (The Visit), que estreia nesta quinta-feira (26/11) nos cinemas brasileiros.

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Quando digo “recuperar prestígio” e “superar fracassos recentes”, a referência é especificamente aos dois filmes imediatamente anteriores a The Visit, os infortúnios intitulados O Último Mestre do Ar (2010) e Depois da Terra (2013). Inclusive este último, estrelado por Will Smith e seu herdeiro, é o primeiro longa que Shyamalan (escrevi certo?) dirige sem que o roteiro tenha sido escrito por ele próprio — o que pode atenuar a culpa do indiano, mas não o redime totalmente. O fato é que as duas produções são carentes de estilo e rasas de conteúdo, contradizem o DNA impresso na filmografia do cineasta. Por isso, tratemos essas duas tranqueiras como exceção. Afinal, Shyamalan (escrevi certo?) ainda tem crédito (se não com as grandes produtoras, pelo menos com os fãs).

Grosso modo, um filme autoral é aquele que tem no diretor sua principal fonte criativa. Assim, podemos dizer que Shyamalan (escrevi certo?) é um autor autoral (sic). Independente de obter recursos generosos ou não, Shyamalan (escrevi certo?) conseguiu colocar identidade em sua obra, soube forjar uma marca — gostemos nós ou nem tanto. E como há quem diga que a carência financeira é mãe da inventividade, o modesto orçamento de 5 milhões de dólares foi o bastante para o diretor se reinventar de mais do mesmo — em A Visita, Shyamalan (escrevi certo?) mostra que isso é possível.

O longa conta a história de um casal de irmãos que visita a casa dos avós, que até então não conheciam. A irmã mais velha resolve fazer do passeio um documentário, gravando a viagem e a estadia na casa dos simpáticos velhinhos. Aos poucos, porém, os idosos vão se mostrando pessoas misteriosas, estranhas — para não dizer perturbadores. As coisas vão ficando cada vez mais assustadoras, enquanto nós, os espectadores, testemunhamos tudo através das lentes da adolescente.

O enredo é simples, recorrente, mas cheio de possibilidades. Também ganha pontos por explorar uma relação familiar “avós e netos”, grau de parentesco pouco batido no suspense/terror. Por outro lado, a produção aposta no manjado found footage, subgênero que, dizem, já deu o que tinha que dar. Shyamalan (escrevi certo?) discorda, achou que podia contribuir ao “câmera amadora” e desenrolou assim sua trama de suspense. No fim das contas, ainda que sem acrescentar nada ao estilo, o cineasta garantiu na base do roteiro que a premissa do “documentário” funcionasse, criando situações plausíveis para o uso da câmera e conexões certeiras para a montagem das tomadas.

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Partindo ao que interessa, falemos do terror, falemos do suspense.

Diferente do termo “horror”, a palavra “terror” como gênero cinematográfico remete à sensação de medo, ansiedade ou tensão que antecede o acontecimento, a experiência aterrorizante. E Shyamalan (escrevi certo?) sabe trabalhar com isso. Coloca as crianças em uma situação que apenas nós, do lado de cá da tela, sabemos ser perigosa. Quando as supostas vítimas se dão conta do risco iminente, o tarde demais já está próximo. Não que isso seja novidade, mas nem todos conhecem os macetes para fazer funcionar. Com atuações convincentes, principalmente da ala feminina, o diretor consegue despertar sensações honestas no espectador, não apelando para sustos apelativos — ainda que eles estejam ali, os sustos.

Os momentos de suspense, principalmente no recolher da noite, são reforçados por respostas e ações críveis por parte dos irmãos, que quebram a maldição da burrice que atinge os mocinhos e as mocinhas do cinema de horror. A narrativa refinada prende atenção até o previsível plot twist. Não que saibamos o que vai acontecer. Longe disso. O mistério é bem guardado e a surpresa funciona. Com “previsível” quero dizer que sabemos que haverá uma surpresa. Plot twist, não é segredo, é uma convicção de Shyamalan (escrevi certo?), para não dizer vício. Não que haja problema na insistência pela “grande virada”. Não, o problema surge a partir dela.

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Assim que abrimos a boca com o espanto da revelação e pensamos “agora fodeu”, as coisas desandam. E desandam rápido. Explico.

Shyamalan (escrevi certo?) estava atrasado para buscar o filho na escola ou, quem sabe, tenha deixado a geladeira aberta em casa. Uma dessas razões explicaria o porquê de tanta correria. Porque a resolução da história é apressada, apressada, apressada. Tão apressada que, por consequência, acaba tornando-se simplória, fácil e anti-clímax. Não dá tempo de saborear a angustia dos momentos finais, angustia que foi tão bem construída ao longo do filme mas tão mal aproveitada em seu desfecho. Se algumas das boas cenas da parte final fossem estendidas, talvez levaríamos mais em conta essa boa obra de terror no futuro. Boa obra de terror porque, apesar do final atropelado, A Visita serve para mostrar que o ainda jovem diretor M. Night Shyamalan (escrevi certo?) não perdeu o jeito.

Cotação:

Três-Dinamites