Terminator Genisys é um belo upgrade na franquia

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
17/07/2015

poster-terminator-genisysSou, por princípio, favorável à proibição das pesquisas eleitorais de intenção de voto e dos trailers com spoilers. O caso do trailer de Terminator Genisys, em se tratando de spoilers, é um escândalo.

Caso o leitor ainda não tenha visto o filme nem o trailer, me desculpe, mas, se o próprio estúdio não teve escrúpulos, eu também não terei: o teaser simplesmente entrega diversas revelações que fariam o espectador cair da cadeira, como o fato de que, ao voltar ao passado para proteger uma indefesa Sarah Connor, o soldado Kyle Reese chega lá e acaba salvo por ela, que já é uma guerreira treinada e acompanhada por um exterminador T-800 reprogramado; ou que o sacrossanto e mítico líder da Resistência, John Connor, foi transformado em um tipo de exterminador híbrido, parte homem, parte máquina. É como se o trailer de O Império Contra-ataca revelasse que Darth Vader é pai de Luke Skywalker. O quê? Você não sabia? Putz!

Se, por um lado, entrar na sala de cinema sabendo desses spoilers tirou um pouco da emoção, por outro, o trailer teve um impacto muito positivo na minha experiência ao assistir ao filme:

1) A minha expectativa era a pior possível; por isso, era difícil que o filme me desapontasse. Minha impressão, que expressei no post O que esperar de Terminator Genisys, era de que os roteiristas tinham batido num liquidificador todos os elementos da saga, acrescidos de um alucinógeno em pó. Na real, eles liquidificaram mesmo os elementos, mas em vez do alucinógeno acrescentaram uma deliciosa essência de baunilha.

2) Como o trailer entregou praticamente tudo da trama, a recompensa do espectador vem a cada momento em que esses elementos já conhecidos de antemão são bem amarrados e explicados de forma coerente. E isso acontece ao longo de todo o filme. O time de roteiristas arrebentou (ou melhor, uma pergunta ficou sem resposta, ou a resposta apareceu e eu não percebi: quem – ou o que – reprogramou e enviou ao passado o T-800 que salvou Sarah? Talvez os futuros filmes da franquia respondam isso).

UMA FRANQUIA QUE REFLETE SOBRE SI MESMA

Terminator Genisys é um reboot (ou talvez possa ser chamado de sequência, pois a lógica da franquia é a de que sempre se pode voltar no tempo e refazer as coisas mais uma vez) que, mais do que repetir a jornada original de Kyle Reese para proteger Sarah Connor de uma máquina assassina em 1984, rediscute os eixos centrais da saga.

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Um dos maiores lapsos dos filmes anteriores, que era seguir sempre a mesma linha do tempo, foi revisto. Se as máquinas comandadas pelo supercomputador Skynet apostaram numa viagem ao passado para matar a mãe do líder da Resistência antes que ele nascesse, é evidente que mesmo uma mudança na trajetória de um único indivíduo pode afetar a História e gerar um futuro alternativo. Terminator Genisys lida com diversas linhas do tempo possíveis, e duas dessas linhas se cruzam quando Kyle está no vórtex temporal e a História é alterada diante dos seus olhos, quando um Infiltrado parece capturar John Connor.

Assim, a Los Angeles de 1984 em que ele aterrissa não é a mesma para a qual foi mandado. É uma cidade muito mais perigosa para viajantes no tempo, onde não apenas Sarah já é uma guerreira treinada desde a infância por um T-800 como o próprio Reese é aguardado por um T-1000 com a missão de matá-lo.

Salvo por Sarah e por “Pops”, o exterminador interpretado por Arnold Schwarzenegger, que ela trata como pai, Reese se une à dupla para uma viagem ao futuro, com o objetivo de destruir a Skynet antes que ela nasça. Aqui, outro elemento da saga, a misteriosa Máquina do Tempo, é discutido e repaginado. A série The Sarah Connor Chronicles já havia proposto a ideia de construção, por enviados do futuro, de um dispositivo de viagem temporal. No filme, esse ponto foi bem explorado.

Sarah pretende ir a 1997, ano de ativação da Skynet na linha do tempo original da franquia, mas Reese, graças à convergência que experimentou ao passar pelo vórtex temporal, tem memórias que apontam 2017 como o ano de nascimento do líder da revolta das máquinas.

A natureza da Skynet também passa por um upgrade. Se nos dois primeiros filmes o antagonista da humanidade era um supercomputador e no terceiro era uma rede nos moldes da internet, em Terminator Genisys o vilão surge como sistema operacional multiplataforma, o que dá um caráter profundamente atual à saga, numa época em que cada vez mais pessoas usam smartphones, redes sociais e armazenamento em nuvem.

Um dos pontos fundamentais para entender o encadeamento das linhas do tempo do novo filme é que a Skynet aprende com seus erros e se reinventa. Logo, a escolha da companhia Cyberdyne pelo onipresente sistema operacional Genisys prepara o novo cérebro eletrônico para conhecer seus futuros inimigos e aprender com eles. Quanta informação, sobre nós mesmos e sobre o mundo que nos circunda, despejamos diariamente nas redes sociais e no Google Drive, no iCloud, no One Drive ou em outros serviços virtuais? Se uma corporação desejasse criar um cérebro artificial capaz de compreender profundamente a humanidade, um sistema operacional integrado a um banco de dados em nuvem seria uma bela maneira de coletar dados.

O FIM DO MANIQUEÍSMO

A franquia Terminator (com exceção de alguns elementos ventilados pela saga The Sarah Connor Chronicles) sempre tratou a guerra dos humanos contra as máquinas por um viés maniqueísta, de “nós contra eles”. Nunca se discutiu o cânone de que a Skynet é maligna e a humanidade, vítima.

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Terminator Genisys tem uma abordagem mais inteligente e equilibrada. John Connor, convertido num híbrido entre homem e máquina (outra ponte com um mundo real onde usamos cada vez mais próteses físicas e digitais) apresenta a sua própria existência como uma “evolução” do ser humano e propõe uma pax skynetica: a transformação de todas as pessoas em híbridos graças a uma espécie de nanorrobô parece ser a saída das máquinas para pôr fim à guerra.

Claro que essa hibridização ainda parece “uma coisa fora da realidade”, como diz minha mãe a respeito de todos os filmes de sci-fi e fantasia, mas já engatinhamos em algumas áreas de pesquisa, como próteses (agora, feitas até em impressoras 3D), marca-passos, estudos sobre órgãos artificiais, engenharia genética e até mesmo os gadgets que, se ainda não são acoplados ao nosso corpo, estão sempre ao alcance da mão. É muitíssimo provável que essa nossa relação com a tecnologia e com produtos tecnológicos acabe interferindo cada vez mais na nossa escalada evolutiva.

OK, a solução proposta pelas máquinas a Sarah e Reese (sermos todos hibridizados à força por nanorrobôs que nos coloquem sob o comando de um cérebro artificial) não parece nem um pouco vantajosa à primeira vista, mas a Skynet e seu porta-voz John Connor têm razão quando dizem que a humanidade não lhes deixa muitas alternativas à guerra total.

Segundo Connor, as pessoas “sempre tentam matar o que não entendem”. Como desmenti-lo? Temos uma longa história de genocídios e destruição de seres animados e inanimados. “Atire primeiro, pergunte depois” tornou-se um lema da humanidade desde que aprendemos a manejar pedras e criar lanças.

As artes refletem essa tensão. A ideia de que o surgimento de uma inteligência não humana, criada por nós ou não, resultaria em conflito e destruição mútua é tema recorrente na literatura e no cinema, seja enfocando animais inteligentes, extraterrestres, máquinas ou monstros feitos pelo homem. Os filmes Terminator, com seu mote de inevitabilidade da guerra contra as máquinas, também valem como alegoria para a obsessão da humanidade pela criação de inteligência artificial, o que pode ser a busca por um espelho, de cujo reflexo podemos não gostar nem um pouco. A franquia, uma das mais emblemáticas a explorarem esse plot, ganhou em complexidade com os pontos levantados no último filme.

EM RESUMO:

Terminator Genisys é eficaz como produto de entretenimento, complexo, divertido, empolgante e visualmente atrativo – e rediscute com maestria os elementos tão queridos pelos fãs da saga. E a Emilia Clarke tá DEMAIS no papel de Sarah Connor.

P.S.

spoiler-alerta

Depois de digerir um pouco mais o filme, acaba me ocorrer que Terminator Genisys abre mão de uma das dimensões fundamentais dos primeiros capítulos da saga: o componente trágico.

No primeiro filme, Reese morre para salvar sua amada. No segundo, o T-800 que ocupa o papel de figura paterna de John se sacrifica para evitar que sua CPU caia em mãos erradas. No terceiro, Sarah já está morta, vitimada pelo câncer. Terminator Salvation é uma bomba tão lamentável que o próprio filme é uma tragédia.

Já no lançamento mais recente, ninguém morre. Sarah e Reese são salvos por um deus ex-macchina muito cretino: um “quarto do pânico” a cujo sistema de travamento a Skynet, inexplicavelmente, não tem acesso. E o exterminador/pai/sogro Pops mergulha em uma piscina de metal líquido que resiste a uma explosão colossal e em seguida emerge como um T-1000 novo em folha. E todos acabam o filme como uma família de comercial de margarina.

OK, John Connor acaba exterminado, mas ele, tecnicamente, já não era o filho do casal de protagonistas nem o líder da Resistência. Sua morte (a do final do filme) não causou nenhum pesar aos seus pais. Pelo contrário.

Essa dimensão trágica, pensando bem, faz falta em Terminator Genisys. Pô, é uma luta contra máquinas inteligentes e o que está em jogo é o destino da humanidade. Todo mundo escapar praticamente sem nenhum arranhão soa meio fake.