Star Wars – Os Últimos Jedi: uma saga amadurece e se perpetua

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
29/12/2017

O Episódio 8 de Star WarsOs Últimos Jedi – representa uma surpreendente guinada  no rumo da saga, aprofundando e rediscutindo elementos-chave do universo criado por George Lucas ao mesmo tempo em que tem o cuidado de apresentar uma certa estrutura e certos momentos sem os quais os fãs se sentiriam ludibriados. Preserva a essência de Star Wars e ressignifica vários pontos, injetando sangue novo e assegurando o vigor da franquia.

A DISNEY MOVIMENTA SUAS PEÇAS E DIZ: “XEQUE”

Star Wars, que já é, há décadas, uma franquia de produtos materiais e imateriais de estrondoso sucesso, tornou-se, graças à visão estratégica da Disney, um evento. Todo dezembro, os fãs sabem, sai um novo capítulo, seja episódio oficial ou spin-off e, no ritmo em que as coisas andam (cada filme injetando um bilhãzinho a mais nos cofres do Império, pelo menos), isso continuará por décadas.

Eventos culturais desse tipo seguem uma liturgia: há o anúncio da data, as informações cuidadosamente divulgadas e/ou “vazadas” pelos produtores (que geram uma cascata de manchetes sobre novidades no elenco, fotos de produção, trailer, teaser do trailer, premiere do trailer, figurino etc), o rebuliço do fandom na forma de memes e teorias, todo o buzz midiático que prepara o lançamento: o evento tem um tempo de maturação que é fundamental para o seu sucesso.

Como já escreveu Henry Jenkins em Cultura da Convergência, produtos culturais episódicos costumam fomentar um jogo entre fãs e produtores, em que o fandom tenta descobrir o desenrolar dos fatos antes que estes sejam exibidos enquanto os criadores alimentam os fãs com pistas falsas ou verdadeiras e usam o feedback da comunidade para repensar e repaginar o produto.

Nesse sentido, Os Últimos Jedi foi uma jogada ousada e inteligente da Disney: o filme sugere que os fãs peguem tudo aquilo que tanto valorizaram ao longo de dois anos de debates e… joguem fora.

[Há alguns spoilers leves a partir daqui]

Esta ideia é apresentada por Luke Skywalker já no primeiro ato do filme: a icônica cena de Rey lhe estendendo seu velho sabre de luz, com olhar suplicante, que me fez chorar e vislumbrar uma relação de paternidade ao final do Episódio 7, é reprisada e, na sequência, o que faz o lendário mestre Jedi? Examina despreocupadamente a arma e a joga longe, num gesto sem qualquer emoção.

A Skywalker também cabe nos “dar a real” sobre vários outros elementos “sagrados” do universo de Star Wars, que são, um a um, desmistificados e criticados. Uma das coisas que sempre me incomodaram na saga é a ênfase dada a combates singulares de esgrima, como se uma guerra de proporções galácticas pudesse ser decidida numa luta de espadas. No novo filme, Luke também se dá conta do absurdo disso e recusa-se a ajudar Rey dizendo algo como: “Você espera que eu vá, de sabre na mão, enfrentar a Primeira Ordem Inteira?” Outras questões sobre a Força e a Ordem Jedi também são desconstruídas pelo mestre desiludido, que, eventualmente, fará autocrítica sobre o seu próprio pessimismo (com uma ajudinha marota do espírito de Yoda – um dos bem-vindos fan services do filme) e verá que também está exagerando na sua postura resistente e negativa.

Outro banho de água fria dado pelos produtores no fandom foram as revelações (ou melhor, a ausência de revelações) sobre as origens de Rey e de Snoke. A comunidade de fãs estava desde 2015 se remoendo em debates sobre quem era Snoke e quem eram os pais de Rey. Inúmeras teorias mirabolantes foram aventadas, deixando em polvorosa as redes sociais e fóruns por dois  anos inteiros. O Episódio 8 desilude os teorizadores ao negar origens estrondosas/bafônicas tanto a Snoke quanto a Rey: a ex-catadora de sucata é apenas a filha de anônimos catadores de sucata e o Supremo Líder é só um cara, não precisamos saber quem é ele. Assim como Yoda mostra a Luke que ele estava olhando para o lugar errado ao tentar compreender o rumo que deveria tomar, o roteiro do filme parece dizer ao fandom: vocês estavam se importando com o menos importante (claro que as origens de Rey e Snoke ainda podem ser desmentidas em futuros filmes, pois palavras podem ser negadas, mas o ponto é que há coisas mais importantes na saga que exames de paternidade).

star wars 8 ultimos jedi rey


UM PRODUTO CULTURAL BEM PENSADO E BEM EXECUTADO

Os Últimos Jedi funciona bem como filme e como episódio de Star Wars: a receita de sucesso do “blockbuster família” é seguida à risca, com doses calculadas de humor, ação, emoção, clichês e recompensas ao espectador. Colagem autorreferencial permitida por décadas de convivência da saga com o fandom, o filme traz, é claro, o que não pode faltar: duelos de sabre de luz, droides e aliens fofos/cômicos, saltos no hiperespaço, dogfight de caças estelares, a Millennium Falcon se enfiando em algum cânion estreito, gente sendo estrangulada  com uso da Força, os bordões inesquecíveis e o espírito de rebeldia e ousadia que caracteriza a Resistência.

Rogue One, o spin-off lançado em 2016 (e que é o meu filme favorito da saga) trouxe sangue novo à franquia e tornou Star Wars mais “adulto”. O Episódio 8 mostra que a Disney aprendeu com Rogue One. Um dos aprendizados foi abordar a luta dos rebeldes de modo mais duro e verossímil, dando destaque aos sacrifícios individuais de combatentes anônimos, outro foi romper um pouco com o maniqueísmo e o tom monocromático das forças antagonistas. Como em Rogue One, o Episódio 8 mostra tanto a Primeira Ordem quanto os Rebeldes como coletivos heterogêneos e cheios de nuances, estruturas em que a insubordinação de comandados e a competição entre comandantes rivais têm papel importante na guerra.

Algo que chama a atenção é a aparente inutilidade de todo o arco de Finn: praticamente tudo que o ex-Stormtrooper tenta fazer dá errado e, à primeira vista, pode parecer vã toda a sua jornada, em que é acompanhado pela obstinada Rose, para tentar localizar um decodificador e desativar o sistema de rastreamento da Primeira Ordem – e, mais tarde, sua tentativa também frustrada de destruir o canhão-aríete. Mas a luta perdida de Finn e Rose é parte da mensagem de fé e esperança da Resistência (e do filme). E o seu exemplo contagia crianças escravas e espalha a centelha da revolução para lugares inesperados, mantendo viva a luta contra o mal na galáxia.

Um outro ponto a ressaltar no filme é a sintonia com as transformações culturais e sociais pelas quais o mundo passa. Já na primeira sequência, Os Últimos Jedi demonstra estar bem atento às lutas identitárias que pautam o debate público: quando os pilotos rebeldes começam a responder ao comandante Poe Dameron, a primeira pessoa a aparecer em cena é uma mulher e a segunda é um homem negro. E não se tratam de “laranjas de amostra” só para a Disney dizer “Viram? Temos mulheres e negros no elenco!” Não, a distribuição étnica e de gênero na cadeia de comando é muito mais igualitária que nos primeiros filmes. Se em 1977 Uma Nova Esperança inovou ao apresentar uma protagonista feminina tão forte como Leia (com o porém de ela ser uma fêmea solitária em meio a dezenas de líderes machos), a Resistência comandada pela General Leia em 2017 é cheia de mulheres porreta botando pra quebrar.

Ciente da heterogeneidade do novo público e da busca por representatividade de cada segmento, a Disney oferece reconhecimento e espaço a quase todas as demandas identitárias – até a questão do veganismo é tocada, na cena parte cômica, parte triste em que Chewbacca é convencido a não comer um suculento porg assado.

Outro ponto que rompe com o maniqueísmo (de novo na esteira de Rogue One) e que insere o Episódio 8 em questões socioeconômicas do nosso tempo é a crítica aos conglomerados que lucram com a venda de armas aos dois lados da guerra.

Enfim, Os Últimos Jedi é um  filme surpreendente e até imprevisível, dentro dos limites de imprevisibilidade do universo Star Wars: Luke não se comporta como a gente espera, nem Rey, nem Leia, nem Kylo Ren, nem Snoke. A dança dos aprendizes Rey e Kylo entre o lado obscuro e o lado luminoso da Força se dá de um modo interessante e inesperado e o espetáculo de poder demonstrado pelo mestre Luke no final consegue enganar tanto seu ex-aprendiz quanto o espectador: mesmo estando tudo na cara, só quando a revelação nos é feita é que entendemos o ardil de Skywalker.

Um evento notável, esse filme. Longa vida à saga.