Star Wars Holiday Special (1978): diferente e estranho, mas profundo

Jefferson Nunes
Por Jefferson Nunes
28/12/2017

Em 1978, o primeiro filme de Star Wars, Uma Nova Esperança, ainda era grande sucesso e os fãs já esperavam ansiosamente por uma sequência. Os executivos da rede de televisão estadunidense CBS propuseram a George Lucas um longa metragem televisivo especial para comemorar o Dia de Ação de Graças (como essa festividade não existe na maioria dos países, Holiday Special é tradicionalmente visto como um especial de Natal, embora não o seja) e para alavancar ainda mais o valor da crescente marca Star Wars.

O processo de produção foi difícil e cheio de contratempos, mas, por fim, o filme foi exibido nos televisores dos Estados Unidos e Canadá no dia 17 de Novembro de 1978. As reações ao especial são em geral bastante negativas em toda a comunidade Star Wars, e o próprio George Lucas, que se envolveu muito pouco com o projeto, ficou bastante decepcionado com o resultado final. Tanto é que a obra nunca recebeu nova edição em meio às inúmeras reedições feitas ao longo do tempo para os filmes e vídeos da franquia, cabendo aos fãs preservar sua memória.

Tradicionalmente visto como um evento bizarro, estranho e dispensável dentro do universo de Star Wars, o Holiday Special traz muitos elementos novos e toca alguns temas que não seriam apresentados em nenhum outro subproduto da série de George Lucas. Por isso, resolvi escrever um texto apresentando o especial e abordando não só as bolas fora, mas também os pontos positivos, que mostram por que o filme deveria ser mais considerado pelos fãs.

UM ENREDO INCOMUM E BIZARRO

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O enredo do Holiday Special se afasta de tudo que seria explorado nos filmes da franquia, mesmo nos feitos por fãs. É, em sua maioria, a exposição do cotidiano da família de Chewbacca (sua esposa Malla, seu pai Itchy e seu filho Lumpy), enquanto esperam a chegada dele e de Han Solo para a celebração do Dia da Vida, festividade dos wookiees que se aproxima do Dia de Ação de Graças estadunidense. A demora deles, causada por um bloqueio imperial ao seu planeta, Kashyyyk, causa a oportunidade de interação da família de Chewbacca com outros personagens, como o mercador local Saun Dann, membro da rebelião e que ajudava a proteger a família wookiee; membros do Império; Leia, Luke, C-3PO e R2-D2.

O especial é recheado de momentos bizarros, como a observação de Lumpy de hologramas de artistas circenses, e de uma espécie de curto (e feio) desenho animado produzido pela Rebelião, aparentemente para incentivar as crianças a ajudarem na luta contra o Império. Como se não bastasse isso, somos obrigados a ver a esposa de Chewie cozinhando um prato à base de carne de Bantha enquanto assiste ao passo a passo da receita feito por Gormaanda (interpretada por Harvey Korman), uma Ana Maria galáctica de quatro braços, e personalidade extravagante (para dizer o mínimo).

Para completar, quando da invasão da casa da família Chewbacca por agentes imperiais, um deles obriga Saun Dann a lhe mostrar uma máquina trazida por ele como presente para Malla, que nada mais é que um reprodutor de vídeo que mostra uma performance da banda Jefferson Starship tocando em um ambiente com luzes neon fortes e extravagantes com alto contraste. Por quê? Jamais saberemos.

 

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Ainda há um ato dispensável na cantina de Mos Eisley, em Tatooine, onde a dona, Ackmena (interpretada por Bea Arthur), tenta fugir das investidas de um cliente carente e só consegue expulsar os fregueses (por causa de um toque de recolher imperial) pagando mais uma rodada, cantando e fazendo trenzinho até a porta do estabelecimento. ARGH!

O evento mais estranho, porém, é a observação do pai de Chewbacca, Itchy, de uma espécie de sonho induzido por uma máquina que estimula a mente, que, por algum motivo, o excita com um chip de memória contendo a apresentação musical meio soft porn, cantada pela atriz Diahann Carroll, vestida com uma fantasia que a faz parecer uma personagem que escapou do Castelo Rá-Tim-Bum! (Sim, soft porn em um programa apresentado na televisão para toda a família).

Com tantos eventos bizarros, é compreensível que o especial seja tão odiado pelos fãs da saga e até por envolvidos nele. O Holiday Special, porém, traz alguns elementos positivos, que o tornam uma peça única dentro de Star Wars.

PONTOS POSITIVOS, ILUSTRE APARIÇÃO

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Uma análise mais profunda do especial de 1978 permite enxergar outras facetas apresentadas por ele. Pela primeira (e única vez) um vídeo de Star Wars mostrou de forma mais detalhada o cotidiano íntimo de uma família sob dominação imperial. Embora esse cotidiano possa ser estranho e desinteressante em muitos pontos, é possível ver a tentativa de se levar uma vida normal mesmo com a tentativa de controle do Império sobre todos os pontos do dia-a-dia.

A pressão da autoridade galáctica não impediu que crenças e tradições dos povos sob sua esfera de influência desaparecessem, como se percebe pela celebração do Dia da Vida wookiee, bem como a prática de sua culinária tradicional. Esses eventos e hábitos funcionavam como forma de resistência dos povos subjugados, reforçando a solidariedade e sentido de identidade do grupo, e alimentando a esperança em uma galáxia livre.

O cotidiano, porém, era permeado por interferências imperiais, como fica claro com o bloqueio de Kashyyyk por causa da detecção de naves rebeldes na área e o anúncio (através de um sistema televisivo) da revista nas casas dos wookiees por agentes do Império. A revista agressiva pelos stormtroopers (inclusive do quarto de crianças), e a observação de qualquer vídeo presente na casa mostram a pressão e esforço do imperador Palpatine para manter a ordem e inibir qualquer tentativa de subversão e apoio à Rebelião.

 

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Um dos pontos mais interessantes do Holiday Special está no desenho animado visto por Lumpy, que mostra uma missão rebelde. Embora o gráfico e modelo dos personagens sejam bem feios, o desenho traz a primeira aparição em vídeo de Boba Fett no universo Star Wars. Aqui, ele já está a soldo de Darth Vader e tenta enganar Han Solo e Luke Skywalker, sem sucesso. Isso demonstra que o crescimento da mitologia de Star Wars estava a pleno vapor – e personagens que se tornariam icônicos dentro da franquia já estavam em estágio avançado de desenvolvimento.

Por fim, embora o Holiday Special seja um capítulo estranho e pouco inspirado da criação de George Lucas, mostra como poucos o modo como a dominação imperial estava profundamente enraizada no cotidiano das famílias da galáxia, tentando controlar qualquer ato visto como subversivo. Mesmo assim, essa dominação não conseguiu destruir a cultura tradicional dos povos que alimentavam a esperança em um dia livre e sem controle pelos agentes de Palpatine.