Solo: Star Wars na jugular da nostalgia

Jefferson Nunes
Por Jefferson Nunes
28/05/2018

O filme Solo: A Star Wars Story, o aguardado spin-off da saga Star Wars que conta aventuras da juventude de Han Solo antes do seu aparecimento em Uma Nova Esperança, teve estreia num dia de muito frio na porção mais ao sul do Brasil, mas o que foi mostrado na telona esquentou a sala de cinema rapidamente. O filme superou minhas expectativas e trouxe todos os elementos que os fãs esperariam em um filme estrelado pelo cafajeste mais querido de Star Wars, como o presente texto (sem spoilers pesados) aponta.

VELHOS NOVOS AMIGOS

O filme, dirigido por Phil Lord, Christopher Miller (demitidos por diferenças criativas com a LucasFilm), e, posteriormente, por Ron Howard, trouxe tudo aquilo que os fãs da saga já esperavam: o passado de Han Solo (interpretado por Alden Ehrenreich), a narrativa de como ele saiu de seu planeta natal, Corellia, encontrou Chewbacca (Joonas Suotamo) e conquistou a legendária nave Millennium Falcon do trambiqueiro Lando Calrissian (Donald Glover).

O percurso, porém, foi recheado de momentos tensos, desvios de rota e muita improvisação (ao melhor estilo Solo de ser). Ehrenreich, que dá vida ao jovem contrabandista, conseguiu absorver o estilo e a classe de Harrison Ford e fazer uma releitura moderna e jovial da personagem, adicionando seu próprio estilo. Solo, aqui, aparece como um jovem sonhador, ambicioso e corajoso, mas ainda em construção, já que, diferente do personagem no período na cronologia da saga em que foi vivido  Harrison Ford, ainda lhe falta a experiência para enfrentar as situações com maior desenvoltura.

Donald Glover também entregou uma boa atuação de Lando Calrissian e soube colocar em cena toda a classe, sofisticação e canalhice da personagem interpretada, na trilogia clássica, por Billy Dee Williams. Embora sua participação não tenha sido tão grande quanto alguns esperavam, foi fundamental para o desenvolvimento da trama e permitiu entender vários pontos de seu relacionamento passado com Solo, citadas em O Império Contra-Ataca.

Joonas Suotamo, por fim, traz vida a Chewbacca, substituindo o clássico Peter Mayhew (já o fez n’Os Últimos Jedi), e seguiu muito bem o legado da personagem, trazendo, porém, um Chewie mais raivoso e rebelde, dividido entre a lealdade àquele que o ajudou (Solo) e a possibilidade de seguir seu próprio caminho e vingar seus conterrâneos oprimidos pelo Império.

OS NOVATOS COMPETENTES

Solo também trouxe uma série de novos elementos que conseguiram renovar o universo de personagens carismáticos  da saga Star Wars, assim como Rogue One antes dele. Emilia Clarke, a Daenerys de Game of Thrones e a Sarah Connor de Terminator Genisys, teve um papel de destaque como Qi’Ra, parceira amorosa de Solo, e importante para a trama, trazendo para Star Wars toda sua elegância e experiência e reforçando os papéis femininos fortes tradicionais da saga.

qi ra emilia clarke han solo

Woody Harrelson como Tobias Becket, Thandie Newton como Val, Rio Durant (com voz de Jon Favreau) e Enfys nest (interpretada por Lily Newmark), dentre outros, trazem nova vida aos coadjuvantes da saga, e apresentam a pluralidade da galáxia, tanto em termos de povos e raças quanto de interesses que moviam suas ações.

Uma grata surpresa aparece com Phoebe Waller-Ponte, que dá vida a L-337 (ou só L3), uma robô que vive com Lando e tem enorme personalidade, dialogando com temas da atualidade, como feminismo, liberdade aos oprimidos pela rebelião e protagonismo feminino. A Disney mostra que está mesmo sintonizada com o debate público do seu tempo. Assim como K-2SO de Rogue One, a participação de L3 na história quebra com a tradição de robôs aparecendo como meros criados que seguem cegamente as ordens dos seus proprietários, colocando-os como agentes reais da trama, que podem se recusar a seguir ordens ou fazer coisas que seus donos reprovam.

Dryden Vos, por fim, interpretado por Paul Bettany, aparece como um grande vilão da trama, e, de forma competente, mostra os laços invisíveis que unem os interesses da galáxia,e o quanto estes podem mudar dependendo das circunstâncias, para garantir a sobrevivência e a influência.

DELICIOSAMENTE PREVISÍVEL

Solo, como já dito, apresenta uma trama com elementos bastante esperados pelos fãs, o que lhe dá um tom previsível em vários momentos, já que precisa contar traços da vida de Solo citados em diversas ocasiões nos filmes anteriores de Star Wars. Esse fator, porém, foi muito bem trabalhado pelos produtores do filme, e a conexão desta história com o restante da franquia aparece de forma bastante natural, sem forçar frases de efeito como O Despertar da Força fez em alguns momentos.

O lado cômico, já esperado para um filme centrado em Han Solo, acontece naturalmente também, o que torna a experiência bastante prazerosa, deixando a impressão de um tom leve e despretensioso para o longa, sem ter o destino da galáxia em jogo como tema principal. Além disso, por mais que tenha um lado previsível, o filme é cheio de plot twists  que o tornam surpreendente em vários momentos.

A história também desenvolve um plot interessante ao tratar do submundo galáctico que existe em paralelo ao poder imperial, e que define muito dos rumos da galáxia. Aqui, não é um sabre de luz que vai definir a guerra, mas os interesses em choque e as mudanças de lado, o blefe e a habilidade de negociação. Todos estão ligados por interesses, e, ao mesmo tempo, todos têm seus próprios interesses, o que vai influenciar no como e no porquê de suas ações.

Isso torna o filme bastante complexo e o aproxima de Rogue One, ao mostrar as engrenagens ocultas que alimentam a guerra do e contra o império de Palpatine, e a complexidade de detalhes e de pessoas que movem essas engrenagens e sustentam a galáxia longe da influência imperial. Todos são mocinhos e vilões ao mesmo tempo, todos têm duvidas de suas ações, e agem, muitas vezes, de forma impensada e improvisada, conforme as circunstâncias, para salvar a pele, o que aponta e aproxima o filme da complexidade própria do ser humano.

han solo chewie

Como segundo spin-off da saga, Solo mostra que aprendeu com a fórmula de Rogue One, e reforça que é bem possível contar uma boa história do universo de Star Wars sem envolver Jedi, Sith ou o destino da guerra como tema principal. A obra acerta em cheio na jugular da nostalgia, pelas conexões que traz com os outros filmes de Star Wars, e consegue surpreender com os novos elementos trazidos e com os acontecimentos diferentes do que os fãs da saga esperavam.

A lição de Rogue One foi bem aprendida, e, felizmente, se tornará a essência dos novos filmes de Star Wars: divertidos e sempre superando as expectativas. Vida longa aos “a Star Wars story”!