Rogue One: o lado sujo (e humano) da guerra contra o Império

Jefferson Nunes
Por Jefferson Nunes
22/12/2016

Agora que o novo filme de Star Wars já foi assistido por muita gente, as principais críticas foram tecidas e tive a oportunidade de vê-lo novamente, pude construir um olhar mais amplo sobre Rogue One e analisar outros aspectos não abordados em meu último texto, aprofundando aquelas reflexões sobre traços mais pontuais da obra.

Antes de qualquer coisa, é preciso informar que esse texto possui alguns spoilers leves, algo que fiz para incluir outros pontos não abordados no meu último texto.

Veja também:

> Rogue One: o experimento que deu certo

NOVAS PERSONAGENS, NOVOS ELEMENTOS

Embora tenha falado um pouco das personagens do spin-off no texto anterior, acho interessante expandir um pouco a análise e falar mais pontualmente de algumas delas, e o que acrescentam para o universo Star Wars.

JYN ERSO (FELICITY JONES)

rogue-one-star-warsDesde os primeiros anúncios do filme, ficou clara a centralidade que o papel de Felicity teria em Rogue One. Seguindo o padrão da saga de trazer papéis femininos fortes, ficou logo aparente a intenção dos produtores de mostrar a importância que as mulheres e seu protagonismo tiveram para o sucesso da Rebelião contra o Império.

Jyn Erso, porém, foi além e trouxe elementos novos, ainda não vistos em Star Wars. Em primeiro lugar, ela é uma das muitas pessoas ao longo da galáxia que tiveram a infância brutalmente interrompida pela violência imperial, perdendo os pais, e tendo que lutar desde muito cedo para sobreviver em um meio de guerra constante.

Diferente de Leia ou Padmé, porém, Jyn não se tornou uma ativista na luta contra o avanço de Palpatine, pois se sentia traída tanto pelos imperiais quanto pelos rebeldes, já que fora abandonada por Saw Gerrera. Assim, tornou-se indisciplinada e pouco preocupada com os rumos da galáxia, interessada apenas na própria sobrevivência.

Embora isso possibilite certa aproximação com o papel de Daisy Ridley em O Despertar da Força, Jyn Erso, ao contrário de Rey, não tinha certeza de qual o caminho certo a seguir, e mesmo quando teve contato com os rebeldes, mostrou muita resistência em aderir aos seus ideais e seguir suas regras, preferindo se arriscar em uma missão praticamente suicida para provar que os líderes da Rebelião estavam errados, e que seu pai havia dado aos rebeldes uma chave para a destruição da Estrela da Morte.

Isso trouxe profundidade e complexidade à personagem, e a atuação de Felicity Jones conseguiu expor de forma bastante fiel a confusão de ideais e a indecisão de qual caminho seguir esperada de tal papel.

CASSIAN ANDOR (DIEGO LUNA)

rogue-one-2Mais uma personagem complexa apresentada por Rogue One, Cassian Andor, assim como Jyn Erso, teve a infância destruída pela separação brutal de seus pais pelas mãos do Império, mas, diferente de Jyn, desde cedo se comprometeu com a luta contra o imperador e seu exército na Aliança Rebelde. Assim, seu crescimento foi todo permeado pelo cumprimento de missões em nome da Rebelião.

Como é mostrado ao longo do spin-off, Cassian havia dedicado sua vida à luta e realizara muitas coisas de que se envergonhava para garantir o sucesso das missões da rebelião. Ele, porém, também tinha momentos de dúvida sobre estar seguindo o caminho certo, ou se as ordens dos superiores estavam corretas, então, é compreensível seu apoio, e o de vários companheiros seus, a Jyn Erso e sua missão.

Isso demonstra certa autonomia dos membros da Rebelião, que, apesar de estarem desobedecendo aos superiores, muitas vezes se lançavam em missões sem autorização, para fazer aquilo que julgavam ser o correto em nome da Aliança Rebelde; personagens que se sacrificam em nome de uma causa maior, arriscando sua vida e posto alcançado na hierarquia rebelde para ir atrás de seus ideais.

CHIRRUT IMWE (DONNIE YEN)

rogue-one-star-wars-28Uma das personagens mais originais de Rogue One, Chirrut Imwe representa uma novidade nos filmes da saga, vindo a fornecer maior profundidade ao enredo e demonstrar a pluralidade de seres da galáxia. Tributário da crença universal do poder da Força, Chirrut é uma espécie de místico que, por sua confiança irrestrita no auxílio da Força àqueles que a cultivam por e sua firmeza de ideais, luta na defesa daquilo que acredita ser o correto. Sempre em oração, desafia sua cegueira e não fraqueja em sua crença em nenhum momento, fornecendo conforto e coragem a todos ao seu redor, mesmo que em alguns momentos seja mais ousado que o recomendado.

De certa forma, Chirrut poderia ser associado a um “Pêra”, termo genérico que denomina sacerdotes de muitas seitas mostradas no Universo Expandido de Star Wars, que, através do cultivo da Força, agem na proteção dos fracos e oprimidos, ajudando nas dificuldades de quem a eles se confia, e aconselhando os indivíduos sobre qual o melhor caminho a seguir. Seu aparecimento em Jedha, um antigo local de culto ao poder da Força, faz a relação muito plausível.

Como declarei no texto anterior, o papel de Donnie Yen foi uma grata surpresa para mim, pois, além de trazer maior profundidade e exploração de elementos não abordados anteriormente nos filmes da saga, garantiu um toque cômico para contrabalançar com a seriedade maior da obra. Uma digna atuação de Donnie Yen, e certamente uma das melhores do spin of.

SAW GERRERA (FOREST WHITAKER)

rogue-one-saw-gerreraPersonagem mais decepcionante pra mim, do ponto de vista de proeminência no filme, Saw Gerrera, porém, foi outro fato novo a ser trazido por Rogue One. Antigo membro da Aliança Rebelde, Gerrera passou boa parte da vida lutando contra o Império, mas seus métodos de atuação radicais demais causaram seu afastamento da Rebelião. Tornou-se, então, um dissidente, que se escondia em locais bem protegidos e se dedicava à formação de jovens guerreiros para a guerra contra o Império, fazendo ataques aos carregamentos imperiais.

Dessa forma, além de realizar a ponte com o passado de Jyn Erso, Saw Gerrera teve o mérito de demonstrar as muitas formas de resistências ao poder do imperador, que muitas vezes causavam conflitos umas com as outras, pelo foco, intenções e métodos que cada uma pregava. Uma personagem pouco aproveitada, mas que, mesmo assim, conseguiu dar corpo e personalidade ao roteiro de Rogue One.

GALEN ERSO (MADS MIKKELSEN) E BOHDI ROOK (RIZ AHMED)

Dois papéis de certa forma interligados, o de Mads Mikkelsen e o de Riz Ahmed vêm para mostrar como a resistência ao Império ocorria por trás das linhas inimigas. Galen Erso, pai de Jyn Erso e grande engenheiro imperial, ao ser separado da esposa e a filha pelas tropas de Orson Krennic (Ben Mendelsohn), faz o contrário daquilo que se esperaria de alguém que perde os entes queridos de forma tão brutal: em vez de fazer o trabalho de forma desinteressada para ser inútil ao Império e ser substituído, atira-se com afinco ao trabalho e faz sua vingança de forma bastante engenhosa, colocando um ponto fraco na Estrela da Morte, que não fosse detectado pelos revisores dos projetos do Império.

Esse ato de resistência é o que garante o sucesso da Aliança Rebelde em Uma Nova Esperança, e é indissociável do papel de Riz Ahmed, já que, para que a notícia da construção da estação de batalha e da existência do ponto fraco chegasse ao QG da Rebelião, Galen Erso teve de enviar um piloto imperial com sua mensagem. Bohdi Rook, assim, comete um ato muito perigoso ao desertar da frota imperial, já que isso o tornava imediatamente um risco para o Império, pela informação da construção da grande arma do Imperador que levava consigo, colocando sua cabeça a prêmio.

Dessa forma, se pode perceber que mesmo aqueles que contribuíam para o Império muitas vezes descobriam outras formas de resistir ao seu poder e auxiliar a causa rebelde, mesmo que isso pudesse colocar sua vida em risco. Mais um elemento interessante para perceber a pluralidade e complexidade do conflito mostrado nos filmes de Star Wars, dando nuances de cinza à trama, em vez do tradicional maniqueísmo em preto e branco.

CGI

Desde o lançamento da Trilogia Prequela (Episódios I, II e III), os fãs de Star Wars (especialmente os mais antigos), têm verdadeira alergia ao ver a associação de CGI e os filmes da franquia, dados os excessos de George Lucas no uso da tecnologia na segunda trilogia (Jar Jar Binks que o diga).

A aplicação de CGI e outras tecnologias de trabalho computacional de imagem em filmes da atualidade, especialmente com tema espacial, porém, é imprescindível e inevitável para a construção de obras com fidelidade visual, e poupam muito trabalho com maquetes e bonecos, como era feito antigamente. Seu uso com maior parcimônia em O Despertar da Força mostrou que a tecnologia pode, sim, ser utilizada de forma inteligente em SW, e, felizmente, isso também aconteceu em Rogue One.

No spin-off, além do uso nas batalhas e cenas espaciais, merece destaque sua utilização para a reconstituição de personagens clássicos, como o Grande Moff Tarkin e a Princesa Leia. Embora tenha havido interpretação de Guy Henry para Tarkin e de Ingvild Deila para Leia, seus rostos foram digitalmente alterados, para representar a fisionomia dos atores originais em Uma Nova Esperança.

A inclusão de personagens dos filmes antigos da franquia foi necessária, como mencionei no meu texto anterior, pela necessidade de pontos de ligação entre o novo filme e os clássicos, dando sentido ao caráter de prólogo do Episódio IV que Rogue One teve, e à atuação dos novos personagens.

Assim, percebe-se no filme o respeito que os produtores tiveram pelo espírito próprio de cada atuação dos atores da Trilogia original, resgatando sua memória através da tecnologia. O Moff Tarkin aparece com sua arrogância, egocentrismo e frieza habituais, enquanto Leia aparece com sua altivez, realeza e firmeza de ideais. Foi uma inclusão interessante, que fez jus à interpretação de Carrie Fischer e Peter Cushing, mostrando como a tecnologia pode ser utilizada de forma útil em Star Wars, sem os excessos de George Lucas.

ROGUE ONE E OS LIMITES DOS SPOILERS EM TRAILERS

Teasers e trailers são, na atualidade, elementos importantíssimos para o sucesso de bilheteria de um filme e para a geração de buzz nas redes sociais. Nos últimos anos, em que a disseminação da informação é cada vez mais rápida, um trailer não é mais suficiente para manter o interesse constante até a estreia, então, os produtores costumam lançar pequenos vídeos com cenas do filme, para o hype continuar alto, e evitar vazamentos.

O grande problema tem sido, porém, a definição dos limites de spoilers a serem mostrados nesses vídeos. Em O Despertar da Força, os produtores conseguiram manter o clima de mistério e instigar as pessoas através dos teasers, mas esse foi, para mim, um ponto em que a produção de Rogue One falhou. Mesmo que não tenha revelado todos os pontos da trama, como aconteceu no trailer de Terminator Genisys, por exemplo, houve cenas desnecessárias mostradas.

O primeiro teaser de Rogue One foi bastante surpreendente e não houve revelações sobre pontos centrais filme. Foi, para mim, o melhor dos vídeos, pois conseguiu ser instigante e despertar a curiosidade para o enredo. Poderia ter sido o único dos vídeos, e nada mais seria necessário. Mas, nos tempos acelerados e de excesso de informação em que vivemos, isso não foi suficiente, e mais  vídeos foram lançados depois. Nesses trailers e teasers, foram mostradas cenas desnecessárias, que, de certa forma, desmotivaram quem estava com expectativa para ver o filme.

Um exemplo foi a cena, no último vídeo, em que os rebeldes atingem a cabeça de um AT-AT, e, por um momento, ele parece derrotado. Ele, porém vira a cabeça para os rebeldes, e o espectador pensa “Agora eles estão ferrados”. Essa é a hora de cortar a cena no trailer, porque mantém o clima de curiosidade e expectativa, mas não, os editores deixaram os X-Wings aparecerem para salvar o dia, o que deveria surpreender o espectador na sala de cinema. Isso funciona como anticlímax que destrói a expectativa e a surpresa, e deixa vários pontos do filme já revelados antes que a gente entre na sala de exibição.

Outro exagero é o fator Darth Vader. Embora seu aparecimento no spin-off fosse esperado e confirmado pelos produtores, seria interessante não revelar suas cenas, para manter o mistério de sua atuação. Como ele tem um papel pequeno em Rogue One, poderiam ter sido deixadas apenas insinuações de sua participação, para permanecer a dúvida no espectador sobre a extensão de sua presença, já que o simples fato de ele estar no filme já serviria para atrair muita gente para o cinema.

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Sua incapacidade de deixar as revelações fora do trailer é perturbadora

Assim, Rogue One pode servir de elemento para um debate mais profundo sobre a escolha de cenas a serem mostradas em teasers e trailers, e até que pontos revelações do enredo podem servir para instigar os espectadores a ir até o cinema ver o resto da história, ou servir como anticlímax.

UM STAR WARS MAIS HUMANO, ACESSÍVEL E SOMBRIO

Rogue One vem para quebrar os padrões da saga de George Lucas. Pela primeira vez, não houve o foco em batalhas de sabre de luz, lutas acrobáticas, manipulações de objetos com a Força etc., mas apenas no genuíno esforço de seres humanos para vencer desafios em uma guerra nada justa.

Humano. Essa é a palavra que melhor define o spin-off. Aqui, o esforço dos rebeldes se mostra acessível e palpável, e fica aparente o que acontece quando não se tem um manipulador da Força por perto. Simples movimentos para um Jedi, como ativar uma chave em um console de controles, pular em um fosso de ventilação e enfrentar Troopers, se tornam grandes desafios sem um empurrãozinho da Força.

Também não há a ajuda salvadora e sempre presente de um droide como R2-D2, o que dá a K-2SO uma profundidade não vista anteriormente na sessão robótica de SW. Aqui, o que existem são seres humanos comuns, que têm de lutar com suas próprias forças para alcançar seus objetivos, e vencer as dificuldades que aprecem nas missões.

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Em Rogue One, o lado mais sujo e sombrio da Rebelião também fica aparente, e percebe-se que é necessário cometer muitas atrocidades para garantir seu sucesso. Ações consideradas corriqueiramente erradas, como assassinatos, espionagem, sabotagens, traições, falsificação de documentos, entre outras, estão na ordem do dia e são justificadas pelo alcance da vitória da causa maior da vitória da Aliança Rebelde, e a construção de uma galáxia livre da servidão.

Dissidências, articulações e formas distintas de se enfrentar o Império são mostradas, há lutas internas entre os próprios rebeldes, que mantêm o clima tenso entre todos os envolvidos na batalha, que não se resume apenas à dicotomia Império/Aliança, mas também abrange toda uma rede de conflitos menores.

Fica palpável o clima de paranoia, de todos os lados, quanto a vazamento de informações, interceptação de mensagens, risco de ser capturado pelos agentes imperiais para ser interrogado ou enviado para campos de trabalhos forçados, receio com desertores e suas reais intenções, medo de ser atraído para armadilhas… Em suma, o filme se aproxima da nossa realidade, evidenciando o que acontece em um contexto de luta subterrânea contra um regime opressor.

Tudo isso é mostrado com muita sabedoria no spin-off e percebe-se, de forma muito mais profunda do que jamais foi mostrado em Star Wars, como não há nada de nobre e bonito na Rebelião. Aqui, a guerra é real, parça!  A guerra é dura, fria, triste e sem glória. Aqui não há lado bom e lado mau, a traição existe, as ordens dos superiores podem parecer erradas e te obrigarem a fazer coisas de que você se envergonhará mais tarde, e a morte está mais próxima do que nunca.

A ação do Império também é mostrada como mais sombria, e enquanto tanques passam nas ruas principais das cidades com mensagens de que o Império é seu amigo e defende o povo de rebeldes perigosos, nas vielas laterais e escuras Stormtroopers abordam de forma extremamente truculenta e violenta as pessoas, tentando encontrar informações sobre rebeldes infiltrados ou desertores.

As tropas imperiais podem invadir seu planeta e roubar todos os recursos naturais que desejarem, e você não receberá, na melhor das hipóteses, nada além da revista truculenta de sua casa (só para garantir que não esconde nada ou não colabora com os rebeldes). Os Troopers que realizam essas ações, aliás, se aprecem realmente com soldados muito bem treinados e não têm a mira horrível que já virou piada, sendo mortais quando querem.

Líderes do Império mostram-se como seres humanos comuns, que, visando a promover sua imagem perante Palpatine e Darth Vader, não hesitam em agir em desacordo com os métodos imperiais, passar a perna nos outros concorrentes por cargos mais altos, e utilizar as forças sob seu comando para levar a cabo vinganças pessoais.

Mais uma prova de que, mesmo por trás de todo o verniz de eficiência e excelência do “todo poderoso” Império Galáctico, as coisas não aconteciam conforme a cartilha de Palpatine…

FATOR REPLAY

Por fim, após ver o filme pela segunda vez, devo dizer que é muito agradável rever a história de Rogue One e perceber novos detalhes, entender melhor as reviravoltas da trama e encontrar easter eggs que o ligam aos filmes anteriores e sucessores. Dessa forma, ele funciona melhor que O Despertar da Força na conexão com os fãs antigos, por ser mais natural e não forçar os chavões e cenas clássicas, trabalhando muito mais com insinuações e ambientação.

Assistindo uma segunda vez, pude perceber, enfim, a grandeza da obra. Respeitando a essência da criação de Lucas, Gareth Edwards e sua equipe conseguiram inovar, trazendo elementos distintos que só haviam aparecido no Universo Expandido de Star Wars. Assim, o spin-off aparece como uma obra mais madura, sombria e densa, que busca quebrar paradigmas e mostrar como a dicotomia bem/mal é insuficiente e como o lado humano foi de fundamental importância para a vitória da Aliança Rebelde.

Saí do cinema com lágrimas nos olhos, com a certeza de que vi o trabalho mais fiel e próximo ao espírito de SW, que é muito mais que uma miríade de efeitos espaciais, malabarismos e explosões, mas, acima de tudo, uma história sobre seres humanos e seu espírito conturbado, complexo e contraditório.

Vida longa às experiências da saga!