Rogue One: o experimento que deu certo

Jefferson Nunes
Por Jefferson Nunes
16/12/2016

poster-rogue-one-215 de dezembro de 2015: mais um dia especial para fãs de Star Wars. Dia do lançamento do primeiro spin-off da saga de George Lucas (não estamos contando os especiais de Natal), perfeito para coroar o retorno triunfante da space opera dos Jedi e Sith ao sucesso mundial. Este que vos escreve foi conferir a estreia e traz, aqui, um texto com suas impressões do filme, tentando fugir dos spoilers.

A ATMOSFERA DO CINEMA

Chegando ao cinema para ver Rogue One, pude perceber, logo de cara, um clima diferente dos fãs em relação a O Despertar da Força, no ano passado. O filme anterior quebrou um hiato de anos sem nenhum lançamento e representou uma continuação da saga iniciada em 1977, com Uma Nova Esperança, um seguimento que nem se acreditava que pudesse acontecer. Havia, junto com a empolgação, muito receio e expectativa, e o resultado final positivo (para a maioria dos fãs) trouxe alívio para a Disney e crédito para os próximos filmes planejados.

Assim, embora tenha havido pressão sobre a equipe de Rogue One para a produção de um grande filme, me parece que foi bem menor que a que JJ Abrams teve de suportar. Isso tudo, aliado à boa repercussão dos teasers de Rogue One, trouxe um clima bem mais leve para os que, assim como eu, esperaram um longo tempo até entrar na sala de cinema.

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De certa forma, me pareceu que havia alguma frieza dos fãs, sem todo aquele hype que marcou o lançamento do Episódio VII – talvez por esse ser, definitivamente, um filme diferente dos anteriores, talvez por não continuar a história dos anteriores, o certo é que havia uma atmosfera diferente, que talvez venha a influenciar as impressões de quem viu o filme.

Eu pensava nisso enquanto passavam os trailers e, bem na hora marcada, o logo da LucasFilm apareceu, dando início ao primeiro filme de Star Wars a quebrar os lugares-comuns da saga.

“VOCÊS ESTÃO COMIGO?”

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O filme começa como nenhum outro Star Wars , sem o tradicional texto de introdução e sem uma sequência espacial. Isso pode parecer estranho num primeiro momento, mas é compreensível por este não ser uma obra da história central da saga, mas sim um enredo paralelo. Esse caráter alternativo fica evidente desde o início, e o que mais se destaca é o tom mais sombrio da história, que, apesar de não ter falta de tiradas cômicas, é bem mais séria e tensa que a de O Despertar da Força, por exemplo.

Para mim, a melhor palavra para descrever Rogue One é: denso. Somos lembrados de que é guerra e não um passeio. Não há, no filme, a aventura leve de Uma Nova Esperança nem o tronco principal de Star Wars (a dicotomia Jedi x Sith, Lado Negro x Lado Luminoso da Força). No spin-off, a luta da Aliança Rebelde é mostrada com crueza, e os pormenores da sua atuação, como a espionagem, as perseguições, a captação de informações etc ficam bem claros, mostrando toda a paranoia com o medo de ser capturado por agentes imperiais ou de prejudicar a causa da Rebelião.

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Mas devo advertir: para quem não está devidamente familiarizado com minúcias da saga, a parte inicial do filme pode parecer meio maçante e arrastada. Ocorrem múltiplas reviravoltas, articulações, referências e explicações que exigem atenção e algum conhecimento prévio para serem bem assimiladas. De certa forma, esses são pontos necessários para introduzir as novas personagens no meio de uma história já em andamento e dar sentido ao seu papel nos eventos que interligam duas trilogias clássicas de Star Wars.

A ambientação e trilha sonora são impecáveis e percebe-se a preocupação dos produtores em dar fidelidade a todos os eventos, especialmente quando envolvem personagens e locais da trilogia clássica. Para saudosistas, Rogue One é um prato cheio, e é divertido ver personagens dos clássicos envolvidos no spin-off, mesmo que em breves participações. Eles são usados como pontes com os filmes clássicos, como o pai adotivo de Leia, Bail Organa (vivido por Jimmy Smits), a líder da Aliança Rebelde, Mon Mothma (Genevieve O’Reilly), além do legendário Darth Vader, com a mesma voz antológica do veterano James Earl Jones. Embora a participação do lorde de Sith seja pequena, fica como mais uma referência ao poder da personagem, que, à primeira apaição, enche a tela e a sala de cinema com sua presença, e arranca calafrios da plateia com sua frieza e maldade.

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O foco, porém, está nas novas personagens. Jyn Erso (Felicity Jones) vem para mostrar mais uma vez o poder das mulheres em Star Wars, e seu papel traz inovações aos padrões femininos da saga, por sua maior independência, resistência a ordens superiores e até hesitação quanto ao melhor caminho a seguir. Cassian Andor (Diego Luna) aparece como a dupla ideal para Jyn, por sua maior experiência, firmeza de ideias e coragem para transgredir regras e ser corajoso quando necessário.

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Um toque cômico é dado, mais uma vez, pelo núcleo robótico. K-2SO (que ganha vida pela voz de Alan Tudyk), droide imperial reprogramado pela Aliança Rebelde é um robô que, por esse processo, tornou-se impertinente, arrogante e sempre pronto a largar indiretas contra todos ao seu redor. De certa forma, representa uma união das personalidades de C-3PO e R2-D2, mas tem características próprias, sendo mais ousado e ativo nas batalhas, o que pode ser explicado por não ser um droide de protocolo nem de reparo.

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Uma grata surpresa, para mim, foi o papel de Chirrut Imwe (Donnie Yen), outro a jogar tiradas cômicas, mas que, por sua firme crença na Força, consegue fazer coisas muito corajosas nas batalhas, mesmo sendo cego, além de dar coragem, incentivo e conforto a todos ao seu redor. A decepção, para mim, foi a participação de Saw Gerrera (Forest Whitaker), menos ativo e proeminente que o esperado, mas que foi importante para fazer a ponte com o passado de Jyn Erso.

Do ponto de vista dos vições, Orson Krennic (trazido à vida por Ben Mendelsohn) foi fundamental para toda a ação, e personificou a sede de poder, fidelidade aos métodos imperiais e transgressão de regras para promoção pessoal que são a marca dos grandes líderes do Império. Um acréscimo muito interessante ao rol dos vilões de Star Wars e imprescindível para o desenrolar de Rogue One.

Analisado esse ponto, acho interessante debater o caráter experimental de Rogue One e o que o filme acrescenta à franquia Star Wars.

UM EXPERIMENTO (EM TODOS OS SENTIDOS)

Rogue One marca uma grande aposta da Disney. É a primeira vez que se ten ta explorar, oficialmente, uma história paralela de Star Wars e, com o planejamento de vários outros filmes seguindo essa fórmula (aparições solo de Boba Fett, Han Solo…) a serem lançados nos próximos anos, este primeiro serve como termômetro para medir a receptividade dos fãs.

O enredo escolhido para o teste não poderia ser mais apropriado. Desde o lançamento de Uma Nova Esperança, a forma como a Aliança Rebelde obteve os planos de construção da primeira Estrela da Morte permanecia uma incógnita, mesmo que tenham sido publicadas algumas histórias sobre isso no Universo Expandido. Assim, a escolha pelo plot  parecia óbvia, já que liga o término de Rogue One ao início do Episódio IV, atando todas as pontas da obra de 1977 e, de certa forma, servindo de prólogo àquele filme.

Ainda em termos de enredo, Rogue One também possibilita à Disney explorar aspectos diferentes dos outros filmes, construindo uma história que foge do simples antagonismo Jedi/Sith e da trajetória familiar dos Skywalker. Pela primeira vez (embora algumas pitadas já tenham sido adicionadas n’O Despertar da Força), pôde-se enfocar temas que são apenas secundários no contexto geral da saga, como o protagonismo dos soldados rebeldes na guerra contra o Império, as facetas menos gloriosas das batalhas, sem o foco nos Jedi ou Siths, e a própria exploração maior da guerra como um todo, mostrando batalhas nuas e cruas.

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Dessa forma, fica evidente a busca da Disney pela exposição do conflito contra as forças imperiais por um ângulo não visto nos filmes anteriores, tentando mostrar a importância de personagens alheios à Força para a queda do Império. Assim, Rogue One é mais centrado em articulações, estratégias e bastidores do que os outros filmes, tirando o foco da manipulação da Força e mostrando o quão complexas e multifacetadas são as batalhas dessa guerra.

Outro ponto em que Rogue One se revela um experimento é a escolha de uma equipe de novos cineastas para produzi-lo. Embora em O Despertar da Força também tenha havido a busca por profissionais jovens, JJ Abrams já tem toda uma bagagem e experiência como idealizador de projetos de sucessos, sejam filmes ou séries, o que o tornava a escolha ideal para o Episódio VII, sendo uma opção com pouco risco de trazer prejuízo para o estúdio ou de desagradar os fãs.

Com Rogue One foi diferente. Embora o diretor, Gareth Edwards, e os roteiristas, Chris Weitz e Tony Gilroy, já tenham trabalhado em produções importantes (no caso dos roteiristas, com indicações para o Oscar), eles nunca haviam trabalhado numa franquia de tamanho comparável a Star Wars. Assim, as escolhas foram apostas da Disney, que resolveu dar a uma história já diferente das habituais um tratamento também novo, que fugisse o máximo possível do estilo George Lucas.

A escolha do elenco também mostrou a preocupação da Disney de dar protagonismo a uma nova geração de atores. Enquanto O Despertar da Força contou com jovens atores “auxiliados” por medalhões, Rogue One é uma aposta em uma geração não muito acostumada com holofotes tão potentes. Dessa forma, Felicity Jones, Diego Luna, Donnie Yen, Ben Meldelsohn, Alistair Petrie, entre outros, tiveram todo o espaço para brilhar e levar adiante a história e a mitologia de Star Wars.

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MINHAS CONCLUSÕES

Todos esses elementos demonstram o caráter experimental de Rogue One no contexto de Star Wars, e o quanto a Disney se preocupou em tornar a experiência o mais bem sucedida possível, visando a agradar os fãs da saga e, ao mesmo tempo, a encher seus cofres. Foi um trabalho bem conduzido e, embora a parte inicial seja algo maçante, descaracterizando um pouco a proposta de filme de ação, a obra como um todo atingiu plenamente o objetivo de funcionar como um prólogo de Uma Nova Esperança, além de explorar um novo jeito de contar a história de Star Wars na telona.

O filme também trouxe uma mensagem importante, ao mostrar como a rebeldia, a transgressão, a ousadia e os sacrifícios individuais foram de fundamental importância para a vitória contra o Império. Nem só de duelos de sabres de luz, diplomacia, manipulação da Força e feitos épicos foi feita a Rebelião, mas também de porrada pura e simples, sangue, suor, articulações táticas, sacrifícios e esforço de muitos indivíduos anônimos que, por meio de pequenas e aparentemente insignificantes ações, contribuíram para os grandes feitos e as grandes vitórias.

Ponto para Disney, ponto para a Rogue One.