Possessão do Mal: pra que chutar macumba, rapaz?

Senhor D
Por Senhor D
09/10/2015

Voltaire dizia que ateísmo é menos funesto do que fanatismo religioso. Segundo o filósofo, o ateísmo não inspira paixões sanguinárias, diferente do fanatismo. Para Voltaire, que não era ateu, os descrentes são apenas sábios corajosos que raciocinam mal. Longe de mim discordar do pensador francês. Acredito, porém, que o termo “fanatismo”, embora historicamente ligado a posições religiosas e políticas, também se aplica aos incrédulos dos dias de hoje. Não a todos, obviamente, assim como nem todos os religiosos vestem a carapuça de fanático. Mas que o termo está democratizado, ah, isso está.

Michael King é um exemplo de ateu fanático. Claro, Michael King não existe fora da ficção, mas serve de exemplo mesmo assim. Quem é esse fulano? É o personagem principal do filme Possessão do Mal (The Possession of Michael King, 2014), dirigido e roteirizado pelo novato David Jung, e ainda em cartaz no país.

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Mais do que ateu, Michael King é um cético. Após perder a esposa em acidente de trânsito, ele decide fazer um documentário para provar a não existência de forças sobrenaturais de nenhuma espécia. Michael já era documentarista antes de ficar viúvo, o que justifica a escolha do personagem pelo audiovisual — poderia ser um artigo científico, vai saber.

O modus operandi de Michael para o documentário é o seguinte: enche de câmeras a própria casa (aliás, casa essa onde mora com a filha e a irmã), contrata um cameraman para as filmagens externas e, claro, vez e outra anda com a sua particular em mãos também. Resolvida a parte técnica, coloca um anúncio na internet procurando por alguém que possa dar uma demonstração real de atividade paranormal (opa). Finalmente, encarna o Padre Quevedo e sai por aí entrevistando todo tipo de maluco e submetendo a si mesmo a uma série de rituais dos mais bizarros.

Como o nome indica, Possessão do Mal é um filme de terror. Logo, é de se presumir que algo dê errado e que o mundo de Michael acabe na casa do caralho — o título também indica que alguém vai ser possuído pelo mal em algum momento, vocês devem ter presumido. E é exatamente o que acontece, sem surpresas, sem novidades. Um ou mais de um ritual de invocação acabou funcionando — não se sabe ao certo qual ou quantos — e Michael King se vê engatado de demônios no couro. “Você vai rastejar“, a demoniada garante.

Até as pedras sabem que Possessão do Mal rodou por média no quesito originalidade — tanto em relação à trama quanto em execução. Mas isso não é demérito. Afinal, é de um filme de nicho que estamos falando, feito para um público específico, que provavelmente não espera muita coisa e que vai falar mal de qualquer forma. Dito isso, afirmo, besuntado em subjetividade, que o filme vale a pena(preencha a lacuna com seus xingamentos: __________________).

A premissa do ceticismo é boa para colocar gente em apuros em filmes de terror. É como se o espectador gostasse de apontar o dedo e dizer: viu, quem mandou brincar com essas coisas? Também, pudera, os personagens céticos desse gênero do cinema sempre vêm com umas ótimas,: “já disse que não tem nada embaixo da sua cama, moleque, agora volte a dormir!” ou “querida, você está vendo coisas, deve estar cansada, você sabe que demônio/fantasma/vampiro/lobisomen/ leprechaun/Bolsonaro não existe” ou ainda “Candyman, Candyman, Candyman, Candyman… (a quinta vez é por sua conta)”. Pois Michael King é um desses descrentes, daqueles que chega a dar prazer de ver na pior – ainda que, às vezes, o castigo seja meio desproporcional (vide Arraste-me para o Inferno). Mesmo assim, desconsiderando a atuação mediana do ator Shane Johnson, acabamos torcendo para que as coisas acabem bem para o protagonista.

O maior acerto de David Jung está na construção da atmosfera. O diretor coloca uma mulher jovem, uma criança e uma cadelinha simpática dividindo a mesma casa de um homem à beira da loucura. Pronto, tensão garantida. Vemos a sanidade de Michael King se esvair gradualmente (até escutamos as vozes que ele ouve dentro somente em sua cabeça, o que não faz lá muito sentido… explico mais à frente), tornando-se um perigo iminente para ele próprio e para a família.

Entre um susto e outro (cortesia da manjada abrupta mudança de áudio), o cenário de horror vai se desenrolando aos poucos, partindo da manifestação sutil à telecinesia, indo do olhar de segundas intenções à força sobre-humana, saindo da autoflagelação rumo ao homicídio. E quando Michael King implora para que as entidades o deixem em paz, a resposta é a seguinte: “We’re gonna fuck you up!”.

Mas se tem um coisa em que Possessão do Mal fracassa totalmente é em tentar flertar com a realidade. Em nenhum momento temos a sensação de que aquilo realmente aconteceu (diferente de Atividade Paranormal, REC ou Cloverfield, entre outros). O filme é uma vergonha para estilo mockumentary (como poderíamos ouvir as vozes na cabeça do Michael, alguém explica?), o que torna questionável que essa ideia tenha sido mantida. Uma narrativa cronológica e tradicional talvez teria sido melhor escolha. Todavia, nada que comprometa a história, que como entretenimento tem saldo positivo.

No fim, fica a moral da história, cujas verdadeiras mensagens, ainda que subliminares, são as seguintes: 1) por mais descrente que você seja, não saia por aí chutando macumba; 2) não repita Maria Degolada três vezes na frente do espelho; 3) não veja esse filme se não for capaz de se divertir com um amontoado de chavões repetidos à exaustão desde a Bruxa de Blair.

Cotação:

Três-Dinamites