Por que Rogue One é meu novo filme preferido de Star Wars

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
11/01/2017

Vou direto ao ponto: Rogue One é o meu novo filme preferido da saga Star Wars. Aqui, cabe discussão se o filme pertence ou não à saga. A obra de Gareth Edwards é tratada como spin-off, como um filme secundário feito para a Disney faturar mais um bilhãozinho explorar uma história paralela, que não mereceu nem a abertura com o letreiro deslizante que caracteriza os Episódios oficiais.

Bueno, fiel ao espírito de rebeldia dos heróis de Rogue One, declaro que não reconheço a categorização imposta pelo império midiático da Disney e que, para mim, o filme é, sim, um episódio de Star Wars. E o melhor de todos, ainda por cima.

Vamos aos motivos:

A GUERRA VISTA DE BAIXO

Como já disseram todos os críticos que analisaram o filme, Rogue One é a história de coadjuvantes que costumam aparecer anonimamente e sem grande destaque nos filmes mais badalados. Enquanto nos Episódios oficiais de Star Wars o enfoque está nos comandantes e a guerra contra um império que domina uma galáxia inteira é decidida basicamente num duelo de espadas, Rogue One mostra os sacrifícios individuais e coletivos de peões que cumprem missões difíceis em meio a muito tiroteio e explosões. É a guerra de verdade, mostrando que uma rebelião é feita de sangue, suor e lágrimas.

Aqui é na porrada, parceiro!

Aqui é na porrada, parceiro!

No Episódio IV, a Estrela da Morte explodiu um planeta inteiro com um único tiro de laser, mas as mortes de todos os habitantes de Alderaan são, para nós, uma abstração. Já em Rogue One, cada morte é sentida, a vida de cada soldado que tomba em batalha tem um significado e pode afetar o resultado da missão.

Somos levados à cidade sagrada de Jeddha, citada como berço dos Jedi, onde a opressão do Império é sentida no dia a dia da população. Remetendo (até no nome) aos territórios conflagrados do Oriente Médio ou do Afeganistão, Jeddha é um caldeirão social prestes a explodir, e um laboratório da destruição em massa que o Imperador pretende adotar como estratégia com a construção da Estrela da Morte.

A VEROSSIMILHANÇA É PODEROSA NESSE FILME

OK, estamos falando do universo de Star Wars, onde as naves fazem barulho no espaço e onde grandes explosões acontecem no vácuo – e onde um cara armado com uma espada de luz consegue interceptar tiros de blaster e arrancar de longe as armas das mãos dos oponentes. Mas, dentro das regras estabelecidas por esse universo, Rogue One parece mais verossímil que os demais filmes da saga.

Um robô imperial reprogramado demora um bom  tempo para encontrar um arquivo no sistema de armazenamento e só consegue se orientar em um prédio depois de sequestrar e hackear um outro droide (enquanto R2-D2, um droide da Aliança Rebelde, parecia capaz de operar e se infiltrar numa boa em qualquer sistema do Império). Os mocinhos entram numa grande instalação e demoram para encontrar e conseguir o que desejam. E sair de lá depois de cumprida a missão não é moleza.

Rogue One mostra uma guerra contra o Império mais realista, mais crível, mais fácil de ser assimilada e de gerar empatia no espectador. Não há deus ex machina salvando inexplicavelmente os mocinhos quando tudo parece perdido e a nossa inteligência é respeitada.

Há, vamos admitir, um ponto que me fez levantar a sobrancelha: o fato de o Conselho da Aliança Rebelde deixar uma novata que sequer pertence oficialmente à Resistência participar de uma reunião e fazer discurso como se fosse um membro. OK, talvez isso seja para dar a ideia de que os rebeldes eram uma democracia horizontalizada etc, mas a cena contradiz os fluxos de comando que o próprio filme apresenta.

K-2SO

K-2SO (dublado por Alan Tudyk), o droide imperial reprogramado pelos rebeldes, é uma das melhores coisas do filme: debochado, petulante, pessimista e sarcástico (o que seria efeito colateral da reprogramação, segundo um personagem). Simplesmente todas as frases ditas por ele são pérolas. Desde a primeira:

Na colônia imperial de trabalhos forçados de Wobani, um veículo é interceptado por homens misteriosos. Lá dentro, a protagonista do filme, a então prisioneira Jyn Erso (Felicity Jones) é libertada por eles, mas, indômita e desconfiada, ela dá uma surra nos estranhos e salta para fora do veículo.

Ao tentar fugir, ela é nocauteada por uma porrada de K-2SO, que lhe diz:

– Parabéns! Você foi resgatada!

Que estreia! Em uma fala, o droide explica a cena e mostra que será, dali em diante, um dos personagens mais legais do filme e de toda a saga Star Wars.

"Esta resenha é vaga e não convincente"

“Esta resenha é vaga e não convincente”

JYN ERSO

QUE.MULHER.DA.PORRA: protagonista feminina forte, independente, rebelde, indomável, digna de estar no mesmo time de Leia Organa, Padmé e Rey.

Com a vida marcada pela perda da família, ela teria todos os motivos para se engajar na Aliança Rebelde e na luta contra o Império, mas é descrente, é uma sobrevivente, vive a vida um dia de cada vez e luta apenas para ser a dona do próprio nariz, mas, uma vez colocada (contra a vontade) no centro da guerra, ela abraça a missão por amor ao pai (o engenheiro Galen Erso, vivido por Mads Mikkelsen, o projetista da Estrela da Morte), por acreditar nele e no seu plano para sabotar o Império.

VENHA PARA O LADO CINZA

Os filmes de Star Wars costumam apresentar a guerra do bem contra o mal em termos de preto e branco, sem muito espaço para falarmos de nuances. O Império é o mal e a Aliança Rebelde é o bem e isso não se discute.

Rogue One mostra uma Resistência dividida, grupos extremistas agindo por conta própria, ordens do comando da Aliança sendo questionadas e desobedecidas. A Causa é usada para justificar atrocidades e o espectador não consegue identificar os heróis apenas pelo uniforme, pois mesmo entre os rebeldes pode haver inimigos.

COMBATENTES DE VERDADE

Bem-vindo a um filme de Star Wars onde os stormtroopers não são motivo de piada entre a plateia, e onde uma batalha terrestre é mais do que cenário de fundo para os duelos de sabre de luz.

Além de os stormtroopers convencionais serem soldados de verdade, somos apresentados a um novo corpo de elite, os Death Troopers de uniforme negro, muito mais assustadores.

Rogue One: A Star Wars Story Death Troopers Ph: Jonathan Olley �Lucasfilm LFL 2016.

Defina “badass”

Do lado da Resistência, também há guerreiros que cativam por sua perícia e pela crença na vitória, como o Capitão Cassian Andor (Diego Luna), um homem de campo da Inteligência da Aliança Rebelde, combatente embrutecido que passa a se questionar sobre a Causa pela qual luta quando as ordens dadas pelos seus comandantes entram em conflito com o que ele acha certo.

Outras figuras cativantes e badass são a dupla Chirrut Îmwe (Donnie Yen) e Baze Malbus (Wen Jiang), este um mortífero e cético guerreiro que usa uma metralhadora blaster com destreza ímpar, aquele um misto de monge e soldado cego e que se guia pela Força no campo de batalha. E o Almirante Raddus? Que comandante porreta! Faz jus à raça do nosso querido Ackbar.

E até os soldados coadjuvantes são personagens melhor construídas, que se engajam numa missão suicida não autorizada por pura crença na Causa, que vão para o campo de batalha cheios de “sangue nos óio” e saltam da nave de transporte gritando “Por Jeddha!”, dispostos a se sacrificar e com uma motivação palpável, convincente. Que belo upgrade na saga.

Não consigo decidir quem é mais fodão nesse filme

Não consigo decidir quem é mais fodão nesse filme

UMA EXPLICAÇÃO PARA A FALHA DE PROJETO

Além da falta de mira dos troopers, outro ponto dos filmes anteriores que virou motivo de piada é o projeto da Estrela da Morte, com um erro de construção tão gritante que literalmente faz a merda toda explodir. Rogue One dá para essa falha uma explicação que, se não é perfeita, pelo menos é melhor do que a gente simplesmente acreditar que o Império seria tão burro a ponto de construir a estação com esse defeito por engano.

VADER NA INTIMIDADE

Rogue One traz o tão aguardado retorno às telonas do mítico vilão Darth Vader. Ouvir o vozeirão do lorde de Sith (novamente dublado por James Earl Jones) é maravilhoso, e vê-lo em combate (a sequência foi muitíssimo bem construída, para mostrar o seu poder e o terror que inspirava) é um dos pontos altos do filme.

Mas Rogue One também traz uma dimensão interessantíssima de Vader: mostra o homem forte do Imperador em sua residência particular, um castelo construído em Mustafar, o planeta vulcânico onde, no Episódio III, ele foi derrotado por Obi-Wan Kenobi e quase morreu.

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“Eu não me chamaria Darth Vader se chegasse ao fim do filme sem estrangular alguém”

Saber que o lugar que Darth Vader escolheu para instalar seu castelo é o mesmo onde ele perdeu sua amada e onde sofreu um trauma físico tão tremendo é perturbador e diz muito sobre o quão sombria e pesarosa é a existência do lorde de Sith.

ALPINISMO NA BUROCRACIA IMPERIAL

Rogue One mostra, em momentos distintos da carreira, a escalada do Diretor Orson Krennic (Ben Mendelsohn) pela burocracia imperial. Responsável pela construção da Estrela da Morte, Krennic vê seus planos de ascensão ameaçados pelo Grande Moff Tarkin (interpretado por Guy Henry, mas com a aparência alterada digitalmente para corresponder à do ator Peter Cushing, já falecido, que deu vida à personagem na trilogia original), que não pretende perder o seu posto na hierarquia para o ambicioso diretor.

A competição entre Tarkin e Krennic é outra quebra do simplismo e aumenta a complexidade da trama de Star Wars, mostrando como há ações e decisões do Império que são tomadas por razões egoísticas de indivíduos e que fogem à estratégia fria das salas de comando.

krennic rogue one

Imaginem quanto as costureiras vão lucrar fazendo esse traje sob encomenda para cosplayers

A FORÇA É DE TODOS

Este talvez seja o ponto mais importante para tornar Rogue One um filme tão fodástico: se nos episódios anteriores a Força parece ser algo restrito a uma elite de super-guerreiros (que, como descobrimos em 1999, calharam de nascer com mais midi-chlorians no sangue), que a manipulam com objetivos pragmáticos, aqui a Força é verdadeiramente uma religião, é mistério, é uma expressão de esperança na vida e na luta de pessoas simples.

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Rogue One devolve a Força ao povo. Pessoas comuns que nada têm a ver com os Jedi ou os Sith dizem “Que a Força esteja conosco” e o monge-guerreiro Chirrut presenteia os fãs da saga com um inesquecível bordão: o seu onipresente mantra “Eu sou um com a Força, a Força está comigo” – uma profissão de fé que acaba por converter até o cético Baze Malbus, seu companheiro descrente, e que prova que mesmo as pessoas simples podem comungar com a Força e usá-la para fazer grandes coisas.

Enfim, Rogue One faz Star Wars tirar o foco dos figurões e dos palácios e traz a guerra estelar para perto de nós. É um grande mérito do novo episódio.

(Ah, e QUE FINAL!)

P.S.: UMA DÚVIDA SINCERA

spoiler-alerta

Entre tantos elementos bem amarrados e bem justificados, uma parte do filme me deixou deveras encucado, e ainda não consegui entender o que houve.

Por que diabos Tarkin manda a Estrela da Morte destruir a instalação imperial em Scarif? Ora, fica subentendido que o que ele queria mesmo era aproveitar a ocasião para matar Krennic, mas como efeito colateral o Grande Moff acaba destruindo todos os arquivos imperiais.

Não havia necessidade tática de fazer isso, pois o grupo de rebeldes em terra era pequeno e diminuía a cada minuto de batalha, apenas 01 arquivo havia sido violado e a frota rebelde em órbita não era lá muito ameaçadora (tanto que, mais tarde, o próprio Tarkin diz a um subordinado: “Deixemos que Lorde Vader cuide da frota rebelde”).

Seria para evitar que os rebeldes conseguissem transmitir o arquivo roubado? Mesmo que fosse, será que este fim justificaria a perda de todos os demais arquivos? O Império tinha backup dessas informações? Se tinha, beleza. Se não tinha, acho que o Imperador Palpatine terá uma conversa bem séria com Tarkin entre os eventos de Rogue One e a próxima entrada em cena dele em Uma Nova Esperança.