Perdido em Marte: ao vencedor, as batatas

Senhor D
Por Senhor D
08/10/2015

Uma coisa engraçada sobre clichês é que eles só são chamados assim porque funcionam. São previsíveis, podem ser enfadonhos, quase sempre externam vulgaridade. Mas, repito, funcionam. E por que funcionam? Porque nem tudo no cinema precisa ser original, basta ser inédito, o que é diferente.

Para efeitos de exercício, suponhamos criar um filme a partir de outro. Por exemplo, Náufrago, de Robert Zemeckis. Lembram-se da premissa? O personagem do Tom Hanks é o único sobrevivente de um acidente de avião durante uma viagem a trabalho. Acaba isolado em uma ilha deserta, onde vai ter que se virar para continuar vivo até ser resgatado ou encontrar uma forma de voltar à civilização.

Leia também:

> O aspecto humano de Perdido em Marte

Pois bem, precisamos de um ator para ser o náufrago do nosso filme. Alguém como Mark Wahlberg, só que com um sobrenome mais fácil de digitar. Que tal o Matt Damon? Matt Damon parece legal. Fechemos com ele.

O que temos agora: Matt Damon está em uma viagem a trabalho quando sobrevive a um acidente e acaba isolado em uma ilha deserta. Não queremos um processo por plágio, então sejamos sutis. Vamos um pouco mais longe. E se em vez de ilha, Matt ficasse preso em um lugar mais inacessível e inóspito ainda? Um lugar tipo a Coreia do Norte, só que mais desenvolvido. Que tal Marte? Isso, Marte é uma boa, pelo menos enquanto ainda preserva algum mistério.

Então, este é o argumento: Matt Damon é um astronauta em missão em Marte. Durante uma tempestade, sofre um acidente e acaba sendo dado como morto. Ocorre que está vivo, tornando-se o único habitante do Planeta Vermelho. Com suprimentos escassos, terá de lutar para sobreviver às adversidades impostas durante sua aventura espacial.

Bom, neste ponto, o caríssimo leitor deve ter percebido que é tarde demais para começar a rodar nosso filme. Haja vista que sabemos que Ridley Scott já deu conta dessa história ao assumir a direção de Perdido em Marte (The Martian), adaptação cinematográfica da web-série (que virou livro) escrita por Andy Weir.

885x591-download-20150608103708

É provável que Ridley Scott concorde com o que eu escrevi no início do texto sobre os clichês. Provável porque ele não tem nenhum pudor em empilhá-los durante as quase duas horas e meia do longa-metragem. Mas clichês funcionam — torno a me repetir — e nem por um momento tiram o brilho desse excelente sci-fi de temática especial, um dos melhores filmes já feitos em território marciano.

Leia também:

> O hiper-realismo do livro Perdido em Marte

Ridley Scott é um diretor irregular, embora acumule na carreira mais acertos (Alien, Blade Runner, Gladiador, para ficar nos clássicos) do que erros (Prometheus, para ficar na bomba mais recente). Em Perdido em Marte, o cineasta deixa de lado o estilo sisudo de filmar e se reinventa com um filme alto astral, de mensagem otimista, bem humorado e musical — efeito positivamente garantido por uma escolha correta de não vitimizar o protagonista, interpretado por um carismático e esforçado Matt Damon.

the-martian-copy-300x212E por falar no Matt Damon, houve quem duvidasse da capacidade dele em dar sustentação ao papel principal — duas horas de Damon sozinho em marte!, exclamaram alguns (eu). Mas o ator manda bem do início ao fim. Munido de simpatia e pinta de bom moço, puxa a torcida para o seu lado desde o começo. Só não consegue bancar a transformação física necessária para o personagem, precisando de dublês para dar saliência à perda de peso imposta ao astronauta, cada vez mais debilitado pela falta de nutrientes (Tom Hanks conseguiu, Christian Bale também conseguiria). Entretanto, problema de fácil e barata resolução, que não deve incomodar ninguém.

Do ponto de vista técnico, Perdido em Marte também é eficiente. O horizonte rubro e exuberante do planeta colorado é a aposta da fotografia para massagear retinas, sem falar nas tomadas no Espaço, que são de encher os olhos. Outro aspecto positivo são os efeitos especiais convincentes e o 3D honesto – vale a pena investir um pouco para assistir de óculos.

the-martian-perdido-em-marte-por-rhads-950x534-e1433858680201

EMBASAMENTO CIENTÍFICO

A acrescentar na pilha de acertos, o embasamento científico do filme – mérito a ser dividido com o autor do livro. Perdido em Marte não atropela as leis da física e nem força a barra em relação à tecnologia espacial. Pelo contrário, o longa é verossímil e realista – tanto em termos de equipamentos, quanto em cálculos e medidas de tempo, de espaço, de causas e efeitos (com exceção de uma certa tempestade incompatível com a atmosfera marciana). Tal  primazia é consequência de pesquisa minuciosa aliada à consultoria prestada pela Nasa, que até entende um pouco dessas coisas. De maneira geral, comete menos deslizes do que Gravidade (2013), de Afonso Cuarón, outra boa pedida sobre o tema que também busca ser coerente com a realidade.

AO VENCEDOR, AS BATATAS

Ao se esquivar da melancolia e do sentimentalismo baratos, Ridley Scott acerta no tom e no ritmo, alcançando a dosagem ideal de aventura, superação e, por que não, de cafonice (pois de brega e de louco…).

Perdido em Marte destaca a luta de um homem por sua sobrevivência, mas estima igualmente o trabalho daqueles que tentam resgatá-lo. Valoriza o conhecimento prático aliado à persistência e ao instinto de autopreservação. Mostra que a luta pela vida não é necessariamente sinônimo de drama, e que pode ser um exercício de racionalidade, de organização, de lógica. Afinal de contas, como diria nosso herói: “I’m gonna have to science the shit out of this”

Cotação:

Quatro-Dinamites