Passageiros perde a chance de ser um grande filme de sci-fi

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
07/01/2017

[O texto tem alguns spoilers leves no seu terço final – e há uma placa bem grande avisando onde eles começam]

Viagens interestelares são um tema comum na ficção científica – e as possíveis maneiras de levar a cabo essa empreitada técnica, hoje ainda impraticável, desafiam autores há muito tempo. Passageiros, o filme dirigido por Morten Tyldum que estreou nesta semana, utiliza uma solução recorrente para esse problema: a hibernação dos passageiros e tripulação, por 120 anos, até a chegada da nave Avalon à colônia Homestead 2, situada a cerca de 60 anos-luz da Terra.

A premissa do filme é espetacular: dois passageiros, Jim Preston (Chris Pratt) e Aurora Lane (Jennifer Lawrence) despertam do sono 90 anos antes do previsto e precisam conviver a bordo da Avalon sabendo que jamais chegarão vivos ao destino. Que enredo! Sugira esse plot a um bom autor de sci-fi ou a um bom roteirista de cinema e imagine o belo livro ou filme que renderia. Nas mãos de Tyldum e do roteirista Jon Spaihts, virou um misto de romance água com açúcar e filme de ação que a Globo passa no Domingo Maior.

nave-avalon-passageiros

A BELA ADORMECIDA ENCONTRA JACK TORRANCE A BORDO DO TITANIC

Passageiros tem elementos que remetem a diversas obras da literatura e do cinema. Uma das referências mais óbvias é a das histórias de náufragos, citadas mais de uma vez pelas próprias personagens. A viagem espacial das histórias de ficção exerce hoje o mesmo fascínio das grandes jornadas marítimas de outrora, e o drama dos passageiros da Avalon, pressionados entre o risco do naufrágio e a expectativa de viver para sempre isolados no meio de um oceano de vazio, apresenta, sem desenvolver muito, esse viés narrativo.

O drama de Jim, que é bem apresentado no primeiro ato, é o de se descobrir absolutamente sozinho numa espaçonave gigantesca onde dormem 4.999 passageiros e toda a tripulação. É um náufrago high tech numa ilha deserta paradisíaca que também é, ao mesmo tempo, um navio fantasma – onde ele está condenado a viver sozinho pelos próximos 90 anos.

Isso não quer dizer que Jim não tenha com quem conversar. A tripulação dorme porque a nave é operada automaticamente por inteligência artificial – e possui diversos terminais de consulta por voz para atendimento aos passageiros, mas eles não são de muita ajuda. Aqui, vemos outra ponte com histórias consagradas de ficção científica, em especial com os opressivos dramas futuristas que mostram máquinas “inteligentes” que deveriam ajudar os humanos a resolverem seus problemas mas servem apenas para irritá-los e para que percebam o tamanho da própria impotência.

Os interlocutores robóticos a bordo são quase todos estúpidos demais para servirem de companhia e a Terra está tão distante que cada troca de mensagens levaria décadas. A exceção entre as máquinas falantes da Avalon é o robô-barman Arthur (Michael Sheen), programado para manter, com desenvoltura, conversas filosóficas com pessoas bêbadas. Munido da sabedoria de boteco típica dos barmen de longa data, Arthur é ao mesmo tempo um contraponto cômico e um conselheiro para Jim.

jim-arthur-passageiros

A figura de Arthur remete à do barman fantasma de O Iluminado, que ajuda a agravar a loucura de Jack Torrance, vivido por Jack Nicholson na adaptação para o cinema, um homem que também é oprimido pela solidão – só que num luxuoso hotel de montanha e não numa nave interestelar.

É influenciado por Arthur que Jim decide “enfiar o pé na jaca” e curtir a vida com todos os prazeres que a Avalon tem a oferecer. Construída como a versão astronáutica de um grande navio transatlântico de cruzeiro, a nave é um Titanic espacial (também com fama de ser à prova de acidentes, também prejudicada pela colisão com um iceberg cósmico) e tem uma estrutura de lazer que Jim explora com sofreguidão, em busca de prazer e completude. E é usufruindo de um desses prazeres, a caminhada espacial, que o náufrago sideral é colocado diante do conflito que o levará ao primeiro ponto de virada do filme.

Após a epifania de se banhar no oceano cósmico, Jim, bêbado, contempla enfim o dilema de todo náufrago e examina seriamente a possibilidade de suicídio, da qual desiste ao descobrir, entre as milhares de cápsulas de hibernação, o corpo adormecido da escritora Aurora Lane.

Sim, o trailer nos enganou. O vídeo dava a entender que Jim e Aurora tinham sido, ambos, vítimas da mesma falha no mecanismo, mas descobrimos, no primeiro ato de Passageiros, que a interrupção do sono de 120 anos de Aurora é uma decisão de Jim, que passou a estudá-la (ou melhor, stalkeá-la) e desenvolveu uma obsessão pela Bela Adormecida da cápsula de hibernação.

PRECISAMOS FALAR DE UMA RELAÇÃO ABUSIVA

aurora-lane-jim-preston-chris-pratt-jennifer-lawrence-passageiros-passengers

Mais tarde, quando um tripulante (o chefe de convés Gus Mancuso, interpretado por Laurence Fishburne) é acordado por uma falha do sistema e se informa sobre a sabotagem de Jim para acordar Aurora, ela mesma diz a ele que o que o seu companheiro de viagem fez equivale a assassinato, pois matou tudo que ela poderia vir a ser em Homestead 2 e a condenou a perambular até a morte pelos corredores de uma nave sem jamais chegar ao destino pretendido.

Antes de tomar a decisão que deu início ao segundo ato do filme (acordar Aurora da hibernação), Jim pesou, e muito, a questão em sua balança moral. A possibilidade de despertar uma companheira de viagem linda e inteligente foi uma tentação poderosa demais para o seu senso de certo e errado. Jim até se aconselhou com o barman robô Arthur, mas este era programado para evitar o dissenso e para dar razão a qualquer bêbado que sentasse diante dele. Arthur não exerce muito bem a função de superego.

O que Jim fez com Aurora tem muito de abusivo, é como se ele estivesse selecionando uma esposa num catálogo de possíveis noivas adormecidas e a colocasse, sem consultá-la, numa situação em que envolver-se afetiva e sexualmente com ele é praticamente compulsório.

Claro que uma história sobre um relacionamento abusivo pode render um bom filme, até um filme excelente, mas o que fizeram em Passageiros não chega sequer perto disso.

O roteiro opta por ser um conto de fadas meio tosco. Não por acaso, o nome da protagonista feminina é Aurora, o mesmo nome da princesa do conto A Bela Adormecida. Mas o Príncipe Encantado que a acorda, lembremos, é Jack Torrance, o cara atormentado por uma solidão enlouquecedora e que se aconselha com um barman não-humano.

Os estereótipos de conto de fadas não param por aí: Jim é um mecânico pobre, que não tem acesso a todos os benefícios da hospedagem de luxo de Aurora, uma passageira Gold, cujos privilégios começam pelo café da manhã muito mais nababesco.

Jim é o técnico, o trabalhador bonitão e galanteador que resolve todos os problemas que surgem e quis viajar para Homestead 2 para poder construir algo, para desbravar um lugar ainda desbravável (é quase o arquétipo do Pioneiro americano) – enquanto Aurora é a riquinha entediada que decide ir para a colônia apenas para poder escrever mais um livro. E, a bordo, se Jim é o resolvedor de problemas, Aurora é o bibelô, a esposa-troféu escolhida num catálogo e que usa vestido longo e salto alto dentro de uma nave interestelar.

spoiler-alerta

É claro que uma personagem como Jim, que fez algo tão terrível, pode se redimir, mas se ele pode mudar e receber o perdão de Aurora e do espectador, o roteirista e o diretor do filme não merecem o nosso perdão.

Primeiro, são imperdoáveis por glamourizarem uma relação abusiva e por procurarem, o tempo todo, apresentar justificativas para o crime injustificável de Jim (como eu disse no parágrafo acima, ele até pode se redimir do seu ato hediondo, mas o que não podemos jamais é negar que seja um ato hediondo), e segundo por zombarem da verossimilhança, das leis naturais e da inteligência do espectador.

Dividido entre ser um drama romântico sobre a relação de Jim e Aurora a bordo da Avalon e ser um filme-catástrofe espacial, Passageiros vai mal em ambas as abordagens.

Problemas em espaçonaves são bem comuns na ficção, até problemas bem graves, e dá pra resolvê-los de um modo verossímil e plausível, que não envolva, por exemplo, um cara resistindo à descarga de calor de um reator super-aquecido usando como escudo de mão apenas uma porta que sequer cobre todo o seu traje espacial.

Ou, então, pode-se buscar uma solução que não tenha a ver com uma passageira sem treinamento conseguindo localizar e resgatar um homem solto no vácuo (e sem oxigênio) e levando-o para a enfermaria (ele é muito mais pesado que ela) a tempo de fazer uma ressuscitação que não deixe sequelas – sem contar que 1) ela faz tudo isso mesmo estando com um furo bem feio no braço e 2) para ativar o mecanismo de ressuscitação ela precisa lembrar de um número de código que ela ouviu casualmente uma única vez.

Deus ex-machina como esses é o que não falta no Titanic interestelar de Passageiros. Nossos Rose e Jack futuristas conseguem tirar de letra os problemas bem graves que surgem após a colisão com o iceberg sideral (problemas bem maiores que a sua capacidade de resolvê-los) e garantem que o navio chegue seguro ao porto de destino – mas de um jeito bem mequetrefe.

Com todos esses elementos de paixão, obsessão, abuso, dilemas éticos e a sensação de incompletude e pequenez diante da imensidão do universo, Passageiros tinha vocação para ser um grande e inesquecível filme de sci-fi. Mas preferiu ser um thriller adolescente de que ninguém se lembrará.

=======

UPDATE: Em nossa página no Facebook, o leitor Rhand Leal cobra deste blogueiro que apresente sugestões para melhorar o filme em vez de fazer apenas críticas negativas. 

Bueno, se o estúdio tivesse me chamado para emendar o roteiro do Jon Spaihts, o que eu faria de diferente?

  1. Cortaria boa parte das cenas mais pirotécnicas e que apresentam problemas difíceis demais para dois civis resolverem e colocaria mais cenas sobre a relação entre Jim e Aurora – sobretudo, debates éticos envolvendo Arthur na conversa dos dois. Arthur é uma das coisas boas do filme, poderia ser mais explorado para tratar desse conflito moral. 
  2. Jim morreria na descarga do reator e essa seria sua redenção.
  3. Cenas de Aurora vivendo sozinha na Avalon. Corta. Aurora está caminhando pela câmara de cápsulas ditando um texto para seu tablet. O tablet cai ao pé de uma cápsula. Ela o junta e, ao levantar, repara em um passageiro bonitão hibernando atrás do vidro. Ela olha o nome dele na placa de identificação e seu rosto fica pensativo. Ela volta a caminhar. Corta para os créditos finais.