Os Eleitos: uma epopeia de cowboys no espaço | Uísque Envelhecido 003

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
10/01/2019

Os Eleitos (The Right Stuff), de Philip Kaufman, é um filme épico sobre a primeira geração de astronautas norte-americanos: os sete escolhidos do Programa Mercury.

Baseado no livro-reportagem homônimo de Tom Wolfe, o filme de 1983 supera, com larga vantagem, sua contrapartida jornalístico-literária, tanto pela beleza das imagens quanto pela aposta do roteiro no “heroísmo” ou, vá lá, na coragem (que beira o – ou às vezes mergulha no – temerário) dos pilotos.

Sob batuta de Philip Kaufman, a minuciosa reportagem de Tom Wolfe virou uma divertida história sobre intrépidos cowboys.

Fundo negro.

Créditos em uma tipografia que remete a histórias de faroeste anunciam o título do filme: THE RIGHT STUFF.

Corta para uma tela menor, como que emoldurando o prólogo, que nos transporta para um céu nublado. A câmera subjetiva se movimenta e nós voamos entre as nuvens, enquanto uma narração em off nos diz, com voz cavernosa: “Havia um demônio vivendo no ar… E diziam que quem o desafiasse morreria…”

Que começo!

frame os eleitos barreira do som

 

Estamos no terço final da década de 1940 e o demônio a ser vencido no ar é a barreira do som. Seria possível superá-la? Homens morreram tentando – e um tipo muito especial de piloto, aquele feito do “estofo certo”, o tal right stuff do título, é necessário para cumprir a missão.

O primeiro ato do filme se passa na Base Aérea de Edwards, no deserto da Califórnia, que tornou-se a Meca dos pilotos de testes americanos entre os anos 40 e 50. Competitivos, aqueles aviadores civis e militares buscavam superar os resultados uns dos outros (presencialmente em Edwards e a milhares de quilômetros de distância na concorrência com os pilotos soviéticos), e o topo da pirâmide nos dois lados da Cortina de Ferro era ocupado por Chuck Yeager, que em 14 de outubro de 1947 fez seu Bell X-1 ultrapassar o demônio no ar e entrou para a História como o primeiro homem a quebrar a barreira do som. Este capítulo do filme, que apresenta o prelúdio para voos ainda mais altos dos intrépidos cowboys rumo ao espaço, serve para mostrar ao espectador o tipo de homem que dominaria os céus quando a Era Espacial começasse, alguns anos mais tarde.

os eleitos the right stuff posterOs Eleitos, a despeito de se basear em uma reportagem e de narrar fatos históricos, não é um filme estritamente “realista”. É quase uma fábula, em que os pilotos, claro, aparecem como uma irmandade de machos-alfa viciados em adrenalina, carros e mulheres; suas esposas são sólidos pilares que dão amparo aos maridos quando as tensões do arriscado trabalho colocam seu próprio equilíbrio em risco (e também é importante o plot do modo como elas mesmas lidam com a iminência da morte, formando um clube particular à margem da irmandade de cowboys); a Morte, aliás, também está alegoricamente representada, por meio da sinistra presença do ministro religioso (interpretado pelo veterano Royal Dano) que oficia as cerimônias fúnebres dos pilotos que morrem a trabalho; políticos e burocratas são retratados como completos imbecis; jornalistas são caricaturais e parecem símios fazendo qualquer macaquice possível para conseguir uma foto dos astronautas, as novas celebridades da América.

Chuck Yeager, o mais alfa dos machos-alfa retratados em Os Eleitos, um pioneiro cuja poderosa presença perpassa, em idas e vindas, todo o filme, se recusa a tomar parte na corrida espacial justamente por considerar o ofício de astronauta indigno de um piloto que preze sua independência, mas é na boca dele que Kaufman e Wolfe, que assinam o roteiro, colocam a melhor defesa dos sete astronautas Mercury.

Quando pilotos da Velha Guarda tripudiam dos novos astronautas, comparando-os a macacos pela sua falta de controle sobre as cápsulas que tripulam, é Yeager quem defende os sete pioneiros: “Vocês acham que um macaco sabe que ele está sentado em um foguete que pode explodir? Aqueles astronautas sabem. Vou dizer uma coisa: é preciso um tipo especial de homem para se voluntariar para uma missão suicida, principalmente uma televisionada”.

the right stuff press

 

A jornada quase suicida dos sete homens especiais do Programa Mercury, com seus pontos altos e suas quedas, é mostrada enfocando diversos quesitos. Fama, broderagem, desafio, patriotadas americanas, rebeldia, diversão e muito trabalho duro se sobrepõem.

O grupo de astronautas, é claro, não é monolítico, e se destacam, por um lado, Alan Shepard (interpretado por Scott Glenn) e Gus Grissom (Fred Ward), representando os machões tradicionais, e, por outro, John Glenn (Ed Harris), o arquétipo do bom moço. O personagem de construção mais exagerada, beirando o caricato, é Leroy “Gordo” “Hot Dog” Cooper, vivido por Dennis Quaid, que atua praticamente como um contraponto cômico, o retrato do piloto vaidoso e soberbo, que mais fala dos próprios feitos do que propriamente faz alguma coisa.

gordo cooper the rigth stuff

 

Aliás, o destaque dado a Hot Dog no filme denuncia uma certa vocação de Dennis Quaid para a criação de fantasias. Nos extras do DVD, o ator dá entrevista e diz algo como: “Quando li o livro, Gordo Cooper era o cara que eu queria interpretar” – o que é um forte indicativo de que Quaid não leu em absoluto o livro de Wolfe, que mal cita Cooper. O seu personagem só é tão importante e tão evidente no roteiro da adaptação cinematográfica.

Os Eleitos é um filme longo – 3h13min – mas, para fãs de astronáutica e aviação, o tempo voa (com o perdão pelo trocadilho de tiozão). Uma das mais desafiadoras aventuras da humanidade é contada com leveza, energia e bom humor, romantizando mas também esclarecendo a vida pública e privada desses heróis da contemporaneidade.