Oblivion: um filme de apocalipse para designers | Uísque Envelhecido 002

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
31/07/2017

Tem filmes que eu revejo sempre que passam na TV. Por diversos motivos: por serem bons filmes, ou por terem um ator ou atriz que eu curta, ou por tratarem de um tema que me interesse.

No caso de Oblivion (2013), que vive sendo reprisado na TV a cabo (aliás, se você quiser assistir AGORA, é bem provável que estejam transmitindo), o que mais me atrai é o visual.

Não que eu não considere o enredo até interessante: sou fã de histórias pós-apocalípticas. Mas, para mim, essa história pós-apocalíptica específica está meio mal contada, e por isso o que mais me atrai no filme de Joseph Kosinski é o deleite das imagens. A uma Terra devastada numa guerra contra invasores alienígenas, contrapõe-se uma arquitetura asséptica e com formas geométricas marcadas.

Jack (Tom Cruise) e Victoria (Andrea Riseborough), os zeladores de um planeta morto numa guerra que não presenciaram, vivem numa estação que lembra uma mansão de bilionário do Vale do Silício e protegem extratores de energia piramidais de andarilhos misteriosos, com o auxílio de temperamentais droides semiesféricos.

Se você ainda não viu o filme, é disso que estamos falando:

Uma combinação de esferas faz o "helicóptero-libélula" de trabalho de Jack

Uma combinação de esferas faz o “helicóptero-libélula” de trabalho de Jack

 

Uma colossal pirâmide: The Tet

Uma colossal pirâmide paira sobre nós: The Tet, o lar dos patrões de Jack e Victoria

 

Sobreviva ao fim da civilização com estilo

Sobreviva ao fim da civilização com estilo

 

"A vista da janela é de perder o fôlego, mas não consigo tirar os olhos da minha estação de trabalho"

“A vista da janela é de perder o fôlego, mas não consigo tirar os olhos da minha estação de trabalho”

 

Que bolotas petulantes

Que bolotas petulantes

 

Sério, essa galera curte mesmo geometria.

Sério, essa galera curte mesmo geometria.

Não bastasse a simetria de proporções e formas das estruturas e artefatos exibidos em cena, o elenco de Oblivion também é de encher os olhos.

Tem Tom Cruise, o eterno galã dos anos 80

Tem Tom Cruise, o eterno galã dos anos 80

 

Tem Olga Kurylenko interpretando a enigmática astronauta Julia

Tem Olga Kurylenko interpretando a enigmática astronauta Julia

 

Tem a Andrea Riseborough

Tem a Andrea Riseborough.

 

Tem Andrea Riseborough na piscina. Nua.

Tem a Andrea Riseborough na piscina. Nua.

 

Eu mencionei que tem a Andrea Riseborough?

Eu mencionei que tem a Andrea Riseborough?

 

Chama a atenção em Oblivion esse contraste entre a tecnologia, o design arrojado e a artificialidade que garantem a vida de Jack e Victoria, de um lado, e a devastação, a crueza e a ausência de vida do planeta, de outro. Mas o técnico/faz-tudo vivido por Tom Cruise, esse danadinho, é um ponto fora da curva. Ao contrário da companheira de estação, ele se sente à vontade no chão sujo e perambula pelas cidades mortas procurando pistas sobre a vida ancestral na Terra, e de tanto catar relíquias aqui e ali, construiu para si um santuário: uma casa de campo numa área ainda coberta por vegetação, seu paraíso particular onde ouve Led Zeppelin e alimenta o sonho, dele e do espectador, de que é possível recomeçar tudo do zero e fazer o mundo ser bonito de novo com um retorno ao primitivo e ao singelo.

Oblivion poderia até ser um filme melhor se seguisse por esse caminho e por esse viés. Mas não. O roteiro agrega outros elementos e, na minha opinião, é aí que a coisa degringola.

spoiler-alerta

QUEM É JACK?

Enquanto vive com Victoria na linda base e conserta droides, Jack tem lembranças de uma vida na Terra e de uma mulher misteriosa. Mais tarde, descobrimos que se trata de Julia (Olga Kurylenko), astronauta que cai do céu em uma cápsula enviada ao espaço, aparentemente, antes da guerra.

A chegada de Julia, um corpo estranho que coloca em risco a “efetividade” do time Jack-Victoria, representa a guinada do roteiro para uma daquelas histórias em que as certezas das personagens sobre a natureza da realidade são solapadas e todos se descobrem vivendo uma ilusão. Aquela arquitetura estava mesmo bonita demais para ser verdade.

Jack fica sabendo que tudo em que ele antes acreditava (que era um técnico humano protegendo de andarilhos aliens as usinas de energia que alimentavam a estação espacial chamada Tet, visando a cumprir seu tempo de contrato e poder emigrar para a órbita de Saturno, onde o resto da humanidade o espera) é uma mentira. Não há colônia humana em Titã, os andarilhos não são aliens, mas humanos sobreviventes, e o Tet não é uma estação terráquea, mas o próprio inimigo, uma inteligência robótica maligna com uma quedinha por geometria e proporções harmoniosas. E o pior de tudo: ele mesmo, Jack, não é um humano convencional, mas um clone do astronauta Jack Harper, um entre milhares de soldados-gêmeos a serviço do invasor.

E Julia, onde entra na história? Ela é uma humana genuína, a esposa e ex-colega de profissão de Jack (o Jack original, não o seu clone). Aqui é o ponto em que o roteiro mais me decepciona. Claro que Jack e seu novo amigo Morgan Freeman (sim, ele tá no filme) dariam um jeito de derrotar o vilão robótico alienígena. Mas a ânsia dos roteiristas de criar um final feliz para Oblivion vai ainda mais longe e piora o filme.

Julia transa com o clone do seu marido e, claro, engravida dele. Ele a deixa adormecida no santuário particular que construiu e parte com o velho Morgan pra recitar poemas da Roma Antiga e destruir tudo lá em cima, morrendo heroicamente na missão. Um sacrifício que, de certa forma, sempre costuma absolver os roteiristas (ou, no mínimo, abrandar a pena). Mas este é um filme sobre clonagem, e o legal (ou não) da clonagem é que sempre resta uma outra cópia do maridão da mocinha para ficar com ela no final. E, assim, sem aprofundar e desenvolver quase nada as questões de identidade e essência que levanta, Oblivion se encerra com Julia ficando com a terceira versão (a segunda clonada) do seu marido – já pode pedir música no Fantástico. Ainda dá pra dizer que o clone de Jack é Jack? O narrador (que também é um clone de Jack, só não sei qual, já me perdi nas contas) diz que sim, mas ele é parte interessada e, portanto, suspeito para opinar.

Com esse roteiro indeciso e que investe em mais plots do que é capaz de dar conta, mas com belas imagens, Oblivion não consegue se tornar um daqueles filmes marcantes que entram para o panteão da sétima arte, mas me garante uma boa diversão sempre que é reprisado na TV a cabo.