O Último Caçador de Bruxas: o turno de Vin Diesel

Senhor D
Por Senhor D
09/11/2015

“Esse jogo daria um ótimo filme”. Qual jogador de RPG nunca disse essa frase depois daquela jogatina? É um sentimento recorrente no role-playing game, quando aquela aventura forjada por imaginação coletiva parece tão legal que deveria, pelo bem dos povos, ir para o cinema, ou para os quadrinhos, ou para literatura. “As pessoas precisam conhecer a história que acabamos de criar”.

Infelizmente, a maioria dessas histórias nunca terá sua adaptação ao cinema, ou aos quadrinhos, ou à literatura. A não ser, é claro, que você ou um dos seus amigos seja o Vin Diesel, fã confesso de RPG e protagonista e produtor de O Último Caçador de Bruxas.

Com direção de Breck Eisner (A Epidemia, 2010), O Último Caçador de Bruxas traz muito do universo dos dados, fichas e interpretações. Evidentemente, jogada intencional. Mestres e mestrados hão de se familiarizar com o argumento regado a clãs ocultos, sociedades secretas, chefes e sub-chefes (com definição de nível e tudo), arsenais, aliados, mistério, reviravoltas etc. Características todas essenciais a uma boa rodada de RPG, mas não necessariamente de um bom filme. E como é do filme que estamos falando, deixemos o jogo de lado e tratemos da mais recente empreitada do astro de Operação Babá.

CE7A5904.cr2

O longa nos apresenta Kaulder, o caçador a quem o título se refere, cara que foi condenado à imortalidade por uma bruxa velha e feia que dói (olha a foto dela aí em cima). Isso aconteceu há oito séculos. No salto que nos devolve à nossa época, reencontramos o guerreiro gozando de perfeita saúde, sem aparentar os 800 anos de idade que tem. Além de esbanjar a vitalidade peculiar aos imortais, Kaulder aproveita bem sua “estadia prolongada” em plano terrestre. Entre uma caçada e outra, ostenta riqueza, viaja pelo mundo e divide a cama com essa ou aquela mulher.

Tal postura boêmia, porém, contrapõe com o conceito “maldição” apresentado nas primeiras cenas, quando Kaulder, um homem ainda remoendo a perda da família, se inclina à morte certa ao tentar dar fim à bruxa responsável pelo óbito de seus entes. O que vemos na sequência, porém, mostra que o guerreiro superou bem o trauma — faz sentido, depois de tanto tempo. Concordemos, apenas, que o termo “maldição” perdeu força com o passar do tempo.

Kaulder também é conhecido como “A Arma” na “empresa” em que “trabalha”, uma sociedade secreta que, basicamente, tem como missão manter bruxos e bruxas na linha e garantir que eles respeitem as condições impostas para que possam viver entre os trouxas humanos, ainda que de forma oculta. Aos infratores, Arma neles.

As coisas seguem na normalidade até que seu parceiro de longa data é vítima de um atentado. A investigação do caso leva nosso herói a desconfiar que a Rainha das Bruxas, a mesma que o “amaldiçoou”, pode estar sendo trazida de volta à vida. Depois de arranjar seus dois novos aliados, um padre (Elijah Wood, você sabe quem) e uma bruxinha camarada (Rose Leslie, a Ygritt de Game of Thrones), Kaulder começa a batalha para impedir que seus inimigos ressuscitem a feiticeira. Argumento não tão complexo, mas deveras sustentável.

CE7A5277.cr2

O universo mágico apresentado no longa é amplo, mas ao mesmo tempo raso, sub-aproveitado. Nem personagens, nem clãs, nem questões morais, nem a trama em si, nada é aprofundado ou explicado como deveria ser. A principal razão disso é o roteiro afobado, desenrolado às pressas, que ofusca momentos de drama, de tensão ou de ameaça. O que também poderia ser chamado de agilidade, acaba por culminar em uma despotencialização quase total de clímax no filme. Rasas também, o que surpreendente menos, são as atuações do núcleo principal do elenco, medíocres mais pela falta de carisma dos personagens do que pelos atores. Todavia, se por um lado Vin Diesel deve ficar novamente de fora na disputa ao Oscar, é aprazível ver o artista se divertindo no papel que interpreta, o que ele deixa evidente a cada “turno”.

e6826a95b7d0d8bc7982e434821a96ce2

O Último Caçador de Bruxas é um filme que segue a máxima “vai que cola”. Ainda que aparente ser despretensioso, o filme deixa uma série de pontas soltas e questões aberta para uma possível sequência (vai que o público pede bis). O próprio desenvolvimento rasteiro de alguns aspectos da trama — culpa da pressa do roteiro, como citamos logo acima — abre margem para novas explorações dentro desse universo. Se isso acontecesse, seria mais uma oportunidade para Vin Diesel rolar seus d10 sobre a mesa.

Cotação:

Duas-Dinamites-300x152