O Primeiro Homem: Armstrong e a força do pesar

Eduardo Nunes
Por Eduardo Nunes
25/10/2018

O PRIMEIRO HOMEM: um bem-vindo “fan service” pra quem se interessa pela história da astronáutica ou, pelo menos, para quem curtiu o filme e o livro Os Eleitos e agora se delicia ao ver em cena, como irmãos mais velhos coadjuvantes guiando a segunda leva de astronautas americanos, os veteranos Gus Grissom, Deke Slayton e, bem en passant, o legendário Chuck Yeager.

Já ao fim da primeira sequência, quando o piloto de testes Neil Armstrong consegue pousar no deserto seu X-15 após um voo sub-orbital problemático, a equipe da Força Aérea chega e me pergunto na poltrona: “Qual deles é o Yeager?” – dúvida logo dirimida quando um tiozinho com aquele barrete de aviador cospe sua opinião sobre Armstrong e a razão do incidente no voo: “É um bom engenheiro, mas meio disperso”, ao que outro responde algo como: “Pega leve, Chuck”.

As cenas seguintes nos inserem no motivo da falta de foco do piloto, uma questão que perpassará toda a trajetória de Armstrong dali até a superfície da Lua: sua pequena Karen está morrendo de câncer – e a perda da filha estará sempre presente, sendo precisamente este o mote do filme, o de mostrar como um homem com um fardo tão terrível conseguiu se manter focado e ajudou a construir quase do zero toda uma área da tecnologia, da ciência e da exploração humana.

O Primeiro Homem, como o título sugere, é mais sobre o homem que sobre a máquina. Contar na tela a história do programa espacial e da primeira viagem tripulada à Lua é um convite ao abuso de planos abertíssimos com a trovejante ascensão dos foguetes e com a dança dos artefatos no espaço, mas o diretor Damien Chazelle optou por uma câmera fechada, claustrofóbica, que se recusa a abandonar o interior sacolejante e cacofônico das diminutas cabines onde os astronautas precisam tomar decisões de vida e morte baseados em mostradores e botões que mal conseguimos distinguir em meio a tanto caos.

Foi precisamente por este ponto que Neil Armstrong se destacou a ponto de ser escolhido para liderar a missão mais importante da história da astronáutica: por conseguir manter-se frio, pensante e efetivo em circunstâncias tão extremas. Toda a dor que o protagonista conseguiu manter por tantos anos trancada em um dos recônditos da sua mente acabou, de certo modo, purgada após aquele pequeno passo para (um) homem, um salto gigantesco para a humanidade. Numa das cenas mais ternas e comoventes, é reforçado o papel que a pequena Karen teve na longa jornada daquele pai-herói e, na minha poltrona, só posso chorar de emoção e reconhecer a força e a fibra de Armstrong.

Em resumo, um filmaço.